quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Memórias Orais - Maria Emília Silva

“A Dona Mariazinha é parecida com a Ferreirinha da Régua”

“Dona Mariazinha”, é assim que Maria Emília Silva é carinhosamente tratada e conhecida em Freixo de Espada à Cinta. Está na vila há 62 anos e embora tenha nascido por terras da Invicta já todos a consideram uma filha da terra porque não há por Freixo quem não a conheça. O diminutivo do seu nome por que é conhecida em nada se compara com a grandeza de espírito de uma mulher que desde cedo esteve sempre um passo à frente do que a sociedade lhe impunha, das regras que “ficavam bem” a uma senhora de família e dos hábitos que “deviam ser seguidos”, “quando eu vim para Freixo, isto era muito, muito fechado. Uma senhora não saía à rua, não ia a parte nenhuma, não ia ao café, não ia a coisa nenhuma. O meu marido, como eu estava habituada a uma vida muito diferente, fez questão de eu ir sempre a acompanhar e eu era feita como uma pessoa escandalosa porque ia ao café com o marido”. Como as regras à época eram pra ser seguidas Maria Silva fez precisamente isso, fez do hábito de acompanhar o marido ao café e até jogar às damas com alguns dos seus amigos,  uma regra e como tal a “sociedade” começou a aceitá-la e o círculo de amigas começou a alargar-se, “mais tarde as pessoas passaram todas a ser amigas e a conviver comigo e eu dizia sempre, olha isto foi bem-feita, porque não me ligaram no princípio e hoje eu sou a menina delas todas”.


Em Freixo o nome da Dona Mariazinha é usualmente associado aos doces típicos que aqui se fazem e em especial aos “CDS”, nome invulgar, tal como a situação que lhe deu o nome, “há os bolinhos que lhe chamam os CDS, porque não tinham nome. A Dona Maria Olímpia, (com quem a Dona Mariazinha aprendeu a fazer os doces) tinha esses doces e o nome que lhe tinha era um nome que não podia ser, porque os Papos de Anjo eram de Amarante e não tinha jeito nenhum que tivéssemos aqui os Papos de Anjo feitos de uma maneira diferente (...),  havia um senhor muito nosso amigo que adorava aquilo e quando foi na festa em Leça da Palmeira do CDS ele fez questão de levar uma caixa desses doces para os oferecer ao Freitas do Amaral, ele achou muito bom, guardou para a mulher, e o senhor pôs-lhe o nome de “CDS”. Apesar da Dona Mariazinha não achar boa ideia pelo cariz político que o nome transportava a palavra foi passando e toda a gente ficou a apelidar este doce tradicional, feito de ovos, chila e amêndoa, de “CDS”.

Para além dos CDS, Maria Emília Silva aprendeu a fazer outros doces, todos à base de amêndoa. Faz sempre questão de dizer que os doces não são dela, “os doces não são da Dona Mariazinha, são de Freixo”, no entanto, têm um toque especial seu, “os que faziam cá eram com leite e azedavam e eu alterei, porque a minha mãe fazia mas era com vinho do porto, e eu passei a fazer com vinho do porto porque com o vinho do porto os doces mantêm-se muito mais tempo”. “Tinha ólho prá coisa” como em Freixo se costuma dizer tal como para outros ofícios. É que para além de doceira Maria Emília Silva sempre esteve à frente dos negócios do marido, era ela que tratava de tudo e agora com 82 anos assim continua, “vendíamos amêndoa, azeitona, o azeite, o trigo, a cortiça, tudo aquilo que o prédio dava, quem fazia sempre o negócio, era eu, olha está ali o homem que quer comprar cortiça, oh Luís mas que jeito tem, anda lá vai lá tu, porque eu não tenho jeito para isso, era assim”.

Recentemente vendeu uma das casas mais bonitas em Freixo, “a melhor e a mais bonita”, nas suas palavras, a Casa do Conselheiro. Esteve à frente dos destinos desta casa de turismo durante 20 anos, “nunca tive uma queixa”, e houve um (a) hóspede desconhecido (a) que a comparou à “Ferreirinha” da Régua na dedicatória que lhe deixou no livro de recepção que existia na casa. De semelhanças, o espírito inovador e a quebra de preconceitos em relação ao valor do papel da mulher na sociedade.


Em Freixo de Espada à Cinta o papel da Dona Mariazinha continua a ser bem conhecido. Conquistou-o, contra o que a sociedade lhe queria fazer ver. Esteve sempre à frente do seu tempo e hoje tem sem dúvida o reconhecimento merecido, o carinho da terra que também se tornou sua.         

Joana Vargas   

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