segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O fio das lembranças - Biografia de Amadeu Ferreira por Teresa Martins Marques na revista Historiae




Martins, Teresa Martins. O fio das lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira. 
Lisboa: Âncora Editora, 2015, 791.P

ISABEL LOUSADA.

O fio das lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira (1950¬2015), volume que em 2015 a Âncora editou em Portugal, foi apresentado ao público dias após a morte do autor (cuja escrita paulatinamente fora seguindo, pela leitura em voz alta que lhe era oferecida pela autora, como in memoriam ad mortem), agrega duas partes, em ambas se entrecruzam Literatura e História. Na primeira, Teresa Martins Marques escreve a biografia de Amadeu Ferreira, subdividindo-a em seis núcleos: "Infância rural" (Sendim); "A terra no céu" (Seminários de Vinhais e Bragança); "Arte da guerra" (Serviço militar e participação no 25 de Abril); "0 céu na terra" (militância política); "0 pão nosso de cada dia" (Faculdade de Direito e Comissão de Mercados de Valores Mobiliários); "A causa mirandesa" (atuação em prol da língua e cultura mirandesas). Na segunda, intitulada 'Outras vazes", reúne uma centena de depoimentos de pessoas que conviveram com Amadeu, bem como textos críticos e ensaísticos sobre a sua obra literária e de tradução para a língua mirandesa, a par com duas longas entrevistas: uma ao biografado - conduzida por Maria de Jesus Cepeda - outra à linguista Manuela Barros Ferreira, conduzida pela própria autora do livro. Por último, faz o levantamento bibliográfico da obra literária e jurídica do biografado.
A obra assume feição não apenas biográfica, mas ainda sociográfica, facultando ao leitor, logo no início, um quadro circunstanciado da situação política e económica mundial referente ao dia do nascimento de Amadeu Ferreira (29 de Julho de 1950) que abarca dados muito diferenciados que vão desde a guerra da Coreia até ao preço do metro de seda no Chiado (três vezes mais elevado que o salário de seu pai). Este quadro é completado com um retrato de Sendim-Miranda do Douro, aldeia natal do biografado, situada em Trás-os-Montes, com o rio Douro a fazer fronteira com Espanha, ou seja, no Portugal profundo) dos anos 50 e 60 onde, ou se morria de fome, ou se emigrava, sobretudo para França e Alemanha.

Ao seminário - que Amadeu frequentou por ser a única saída para os filhos das gentes mais humildes, viabilizando o prosseguimento dos estudos -, a autora presta particular atenção. Partindo da leitura dos cento e setenta e cinco artigos do Regulamento dos seminários de Vinhais e Bragança (edição de 1957, remontando a primeira a 1934), revela o clima de repressão e o ambiente claustrofóbico em que viveu o biografado e onde escorou a sua personalidade. Analfabeta, a mãe de Amadeu apresenta-se à autora como figura determinante traçando seu percurso escolar. Num tempo em que se defendia que o lugar da mulher era no lar e que o trabalho fora de casa masculinizava, Albertina Moreno que tinha o marido emigrado em França, trabalhava dentro e fora de casa; sacha, monda, ceifa, carrega a lenha, ara as terras, que não tem, mas que arrenda para sobreviver. Ela é a típica mulher do campo portuguesa de que fala Maria Lamas em As mulheres do meu país (1948-1950) e a quem se aplica o rifão popular, que as mulheres transmontanas tanto ouviam às suas mães e avós:


- Mãe, que cousa é casar?
- Filha, é fiar, parir e chorar.


A biografia construída por Teresa Martins Marques assenta em fontes orais e escritas. A par com a entrevista de trinta e uma horas feita a Amadeu, registada em documentário pela objetiva do cineasta Leonel Brito, contam-se as que lhe foram concedidas por seus amigos, conhecidos e familiares, bem como as preciosas informações provenientes dos depoimentos incluídos na segunda parte do livro. Das primitivas entrevistas, agrupadas em núcleos semânticos autonomizados através de subtítulos facilitadores da leitura, conservou sempre que possível o registo oral. Teresa Martins Marques compulsou ainda cadernos manuscritos autógrafos, diários e outros documentos elaborados por Amadeu Ferreira ao longo da vida, e analisou a marginalia de livros por ele lidos, sobretudo nos anos de formação. Esses textos, éditos e inéditos, interagem com a narrativa da sua biografia, complementando-a ou iluminando-a.
Mergulhando nos vários mundos de Amadeu Ferreira, esta biografia revela as motivações e realizações de cada etapa da sua vida. Melhor aluno do seminário de Bragança, Amadeu foi o também o mais contestatário em questões doutrinárias, manifestadas na adesão à Teologia da Libertação e ao ideário do Concílio Vaticano 11, o que levou à sua expulsão, apenas seis meses antes do término do curso de Teologia, sob a acusação de "desvio de esquerda". Quando cumpria o serviço militar, o biografado colaborou com o Movimento das Forças Armadas, ao lado do Capitão Santa Clara Comes, tendo participado na tomada dos quartéis da Legião Portuguesa. Nesse período, fundou em Sendim, uma escola gratuita de ensino noturno para os jovens pobres e integrou o secretariado do PCP(R)/UDP, tendo tido uma curta passagem pelo Parlamento. Por dissidência ideológica, afastou-se daquele partido, em 1982. Relembrando que Amadeu foi, então, acusado de "desvio de direita", a sua biógrafa afirma que, premonitoriamente, ele defendia a constituição de uma ampla frente política unitária, o que anos mais tarde veio a acontecer com a fundação do Bloco de Esquerda.
A biografia oferece ainda o périplo em torno da formação académica de Amadeu Ferreira - a frequência do curso de Filosofia na Universidade do Porto, a licenciatura em Direito pela Universidade de Lisboa - e da sua brilhante carreira na Comissão de Mercados de Valores Mobiliários, de que foi vice- presidente. Explicita, para além desses aspetos, a sua atividade noutros campos: a criação da Associação de Língua Mirandesa e a publicação de vasta obra, assinada quer com o seu nome, quer com os pseudónimos Fracisco Niebro, Marcus Miranda, Fonso Roixo; Cebadeiros (poesia, 2000); Las Cuntas de Tiu Jouquin (conto, 2001); L Ancanto de las Arribas de l Douro (poesia, 2001); Cula Torna Ampuosta Quienquera Ara / Em Cama Feita Qualquer Um se Ajeita (poesia - bilingue mirandês e português, 2004); L Filico i l Nobielho (conto, 2004); Pul Alrobés de Is Calos / Por dentro dos Calos (poesia-bilingue mirandês e português, 2006), L Segredo de Peinha Campana (conto, 2007), Ars Vivendi Ars Moriendi (poesia-bilingue mirandês e português, 2012); Tempo de Fogo / La Bouba de la Tenerie (romance, 2011); Norteando (poesia 2014) com fotografia de Luís Borges; Velhice / Belheç (2015). Debruça-se igualmente sobre a sua profícua atividade como tradutor para mirandês, concretizada nas seguintes obras: Os Lusíadas - Ls Lusíadas (2010); Os Quatro Evangelhos - Ls Quatro Eibangeilhos (2011) a partir do Latim, na Vulgata de São Jerónimo, Mensagem / Mensaige (2011) de Fernando Pessoa; L Mais Alto Cantar de Salomon (2014).
Orientada pela noção, por ela própria expressa, de que "lembrar é (re)construir, recompor elementos que vamos buscando, acrescentando e reinterpretando" (Entrevista a Amadeu Ferreira), Teresa Martins Marques realiza um monumental trabalho de pesquisa e escrita, que é indispensável ler para se conhecer o perfil humano e social de uma figura de relevo no Portugal da segunda metade do século XX.

In Historiae - Revista de História da Universidade Federal do Rio Grande, Brasil, pp. 351-354




1 comentário:

  1. Fui colega do Amadeu em Bragança, no seminário. Na altura das férias fazíamos a viagem de carro de praça. Como saía de Sendim muito cedo e eu era de Urrós, ia dormir a casa dele, para no dia seguinte ir com ele e o irmão mais o sobrinho do dono do carro de praça (Patalão) para o seminário em Bragança. Já nessa altura era admirado por todos. Foi a
    única pessoa que conheci que na escrita gastava uma esferográfica por dia. Um QI fora do normal. A expulsão dele do Seminário não foi senão por medo da inteligência e da integridade de uma personalidade que poderia pôr a nú alguns podres da igreja.
    Anos mais tarde encontrei-o em Lisboa (estava na tropa) e nas longas conversas que tinha com ele, senti algum desalento com o rumo do país. Lembro-me de lhe ter dito, aquando da minha transferência para o Porto: tem calma que isto vai mudar...
    Inteligência rara, imparável, humano. Obrigado Amadeu

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