domingo, 29 de novembro de 2015

Almirante Artur Junqueiro Sarmento - Memórias orais

“Quando me perguntam qual é a minha posição digo sempre, sou um Almirante aposentado e agricultor no ativo”

Artur Junqueiro Sarmento já há muito se reformou da vida naval mas o seu conhecimento de sempre da agricultura haveria de o encaminhar para a atividade que aos 76 ainda mantém, ser agricultor.  Nasceu na capital mas nunca deixou de ir a Freixo de Espada à Cinta, a terra dos seus pais, Margarida Guerra Junqueiro e Manuel Sarmento Rodrigues onde a liberdade com a natureza não conhecia fim, “vinha pró campo, reencontrava os meus amigos e fazíamos as brincadeiras que aqui se faziam; ia à procura dos ninhos dos pássaros, ir montar armadilhas para os pássaros, ir jogar à bola, que se podia jogar à bola à vontade, enquanto que em Lisboa muitas vezes fugi da polícia porque não podia pisar a relva, aqui não, aqui jogava-se à bola em qualquer lado e as conversas que tinha com os meus amigos, essa era a grande diferença e também  acompanhava bastante a vida do campo”. Seguia o seu pai na vida de campo, um homem à frente do seu tempo, “era o homem que tinha a ideia de que a amêndoa é que dava, na altura,  e que nós tínhamos aqui o maior amendoal da Europa, tínhamos aqui 110 mil amendoeiras, lá baixo na Quinta de Santiago”.

Artur Sarmento dividia-se entre a vida naval e a gerência das terras que tinha herdado do pai com quem aprendeu a maior parte dos saberes da agricultura. Em Freixo a consideração pelo seu pai é imensurável, “o Senhor Almirante” como sempre é lembrado pelo povo, a quem se deve a instalação do saneamento na vila. Considera ser um orgulho enorme ter sido filho de quem é mas nem sempre foi fácil, “não é fácil a um jovem cadete entrar na Escola Naval e o Comandante ser o Pai dele; quando saí da Escola Naval fomos todos colocados e a mim disseram-me, “olhe vai ser colocado em Moçambique”, o meu pai na altura era o Governador Geral de Moçambique; eu a primeira coisa que fiz “ não me mandem pra Moçambique, enquanto o meu pai for Governador eu não quero ir pra Moçambique”. Acabou por ir para os Açores onde conheceu a sua mulher e casou.
 Vem a Freixo com frequência, a veia de agricultor faz com que não se distraia dos “tempos” de maior cuidado das terras, “há períodos que eu venho cá, no princípio de Setembro e fico Outubro, estou cá esses dois meses, os meses das colheitas são importantes; nesta altura também é bastante importante que são os desabrochares das vinhas, os perigos que há nas vinhas, eu consigo evitar os perigos mas temos que estar muito atentos a isso”.
 Não fosse a vida naval a profissão que escolheu e teria sido de igual forma um viajante. Divide-se entre Lisboa, onde vive com a mulher, os Açores, onde tem os netos, e Freixo, a terra que há muito já considera ser também sua, que o fez apaixonar-se pela agricultura e que lhe permitia os hábitos que lembra com saudade, “o azeite fazia-se a quente, moía-se a azeitona, ficava uma pasta, punha-se em selhas, era prensada, passava o vapor de água e retirava o azeite e pra isso havia uma caldeira, lume pra manter a água e o vapor pra passar, e nós levávamos pão e mergulhávamos o pão torrado nessa coisa no azeite e aí estava a tiborna, era ótimo”. Os tempos na agricultura mudaram, antigamente “fazia-se mais com o coração” conta Artur Sarmento, hoje são precisos mais cuidados mas a paixão pela terra continua a ser a mesma.
 Desde menino que lidou bem com as responsabilidades que a vida e o “nome” lhe impuseram. Foi em representação do pai na importante inauguração da ponte de Barca D’Alva e do busto do seu pai num Estádio na Guiné, “aconteceram-me na vida duas coisas em que representei o meu pai em inaugurações, uma foi aqui na Ponte da Barca D’Alva e outra foi na Guiné onde eu servi depois, eu estive na Guiné com ele, era miúdo tinha oito anos quando estive na Guiné, depois voltei à Guiné como militar em serviço, estive lá em 61, 62 e em 63 fui convidado pra ir lá inaugurar o busto do meu pai no Estádio Almirante Sarmento Rodrigues”.
 Foi passando a paixão por Freixo aos filhos, viajava com eles para a vila desde Lisboa, num tempo em que a viagem demorava oito horas. Hoje também já leva os netos, e é lá que todos os anos passam a Páscoa em família. É aqui que continua a ser “agricultor ativo” na terra onde sempre foi feliz e que tanto lhe ensinou.

Joana Vargas


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