quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Carta do livro "Almirante Sarmento Rodrigues, 1899-1979, Testemunhos e Inéditos"

FREIXENISTA DE ALMA E CORAÇÃO

ERNESTO JOSÉ MADEIRA

Coronel Médico da Força Aérea

Em boa hora, a Câmara Municipal da minha terra, impulsionada pelo seu Presidente, bom conhecedor do sentir e querer dos seus munícipes, decidiu comemorar o centenário do nascimento de um dos seus mais ilustres filhos que foi o Almirante Manoel Maria Sarmento Rodrigues.

Para nós, freixenistas, a evocação do "nosso" Almirante não se esgota na descrição dos feitos heróicos da sua brilhante carreira militar, tão-pouco na ci-tação dos inúmeros trabalhos de ilustre académico que foi e muito menos na lembrança da clarividente e patriótica intervenção política.
É tudo isso, sim, mas mais ainda e principalmente a recordação do Homem bom e simples, do carinho e amor que dedicava à nossa terra e às suas gentes e das suas inigualáveis qualidades humanas.

Como bom transmontano que era, não ocultava o orgulho que sentia pela terra que o vira nascer e tudo fazia (e fez tanto!) pelo seu progresso e engrandeci-mento. Durante décadas, melhor dizendo, desde meados da década de 40, todo o desenvolvimento de Freixo a si se ficou a dever. Saneamento, hospital, estradas, ponte sobre o rio Douro em Barca de Alva, que tem o seu nome e foi projectada gratuitamente pelo seu amigo Professor Edgar Cardoso, centro de assistência, colégio, são algumas das muitas obras só possíveis devido ao seu empenhamento.

Acérrimo defensor dos costumes e tradições da sua terra, quando das suas vi-sitas era frequente vê-lo, aos sábados e domingos, a assistir entre o povo, no adro da igreja, por vezes acompanhado de visitas, aos tradicionais e renhidos jogos de pelota (uma variante da pelota basca), vibrando como todos nós com as jogadas mais espectaculares.


Uma vez, durante um baile no Salão Nobre da Câmara Municipal, pôs toda a juventude a bailar os jogos de roda tão usuais na sua juventude.

A simplicidade e afabilidade com que a todos atendia e ouvia davam azo à facilidade com que, sem constrangimento, todos a ele se dirigiam solicitando ajuda para os mais variados problemas que os afligiam. E quantas novas vidas, com a sua protecção, não se iniciaram! Quantas não se recompuseram ou quan-tos problemas tidos por insolúveis não se resolveram?

Eu próprio sou testemunha disso. No fim do Verão de 1959, concorrer ao Quadro Permanente de Oficiais Médicos da Força Aérea exercia em mim uma certa atracção mas suscitava-me também muitas dúvidas quanto à certeza de ser essa a melhor carreira a seguir. Necessitava de ouvir a opinião de alguém que fosse um profundo conhecedor da carreira militar. Como freixenista esse alguém só poderia ser o "nosso" Almirante. Solicitada a audiência, recebeu-me afectuosamente em sua casa e, após ouvir as minhas dúvidas, as suas palavras foram tão esclarecedoras, tão convincentes e ditas em tom tão paternal, ainda que imbuídas de incitamento e confiança na certeza do meu êxito, que para além de me terem dissipado todas as dúvidas sobre o acerto da escolha, foram um acicate que me levou a redobrar a preparação para as provas que tive de realizar. 

Foi, sem dúvida, o maior responsável pela expansão da diáspora freixenista principalmente em terras africanas. Inúmeros foram os nossos conterrâneos que, devido a si, rumaram à Guiné, a Angola e a Moçambique à procura de melhores horizontes para as suas vidas. Aí, fixando-se, foram por vezes geradores de novos agregados populacionais ou promoveram com o seu esforço o desenvolvimento de outros. Para amenizar a saudade de Freixo, o bairrismo do "nosso" Almirante foi determinante para a substituição dos nomes indígenas locais pelo nome da nossa terra. Assim nasceram Nova Freixo em Moçambique e Freixo de Espada à Cinta no planalto da Cela em Angola e em ambas nem sequer faltava a imagem protectora de Nossa Senhora dos Montes Ermos, réplica da Nossa Padroeira. Nem disso se esquecia o bairrismo do Senhor Almirante. Para além das melhorias materiais que proporcionava às nossas gentes não descurava as suas necessidades espirituais. 

Em Maio de 1964 encontrava-me em missão de soberania em Moçambique e, quando regressava à cidade da Beira vindo de Lourenço Marques, por feliz coincidência viajei no avião da Força Aérea que trazia de regresso à Metrópole o ainda Governador-Geral de Moçambique que se fazia acompanhar da esposa, filha, duas netas e governanta. O primeiro piloto do avião era o nosso conterrâneo Coronel Piloto-Aviador Morais Duarte. Assim, das dezoito pessoas a bordo, tripulação incluída, oito éramos de Freixo. Tal não passou despercebido ao "nosso" Almirante que em conversa comigo comentou: Que extraordinária terra é a nossa! A 10 mil quilómetros, nos céus de Moçambique, num avião com dezoito pessoas oito somos freixenistas. Ao dizer isto o brilho dos seus olhos e o sorriso esboçado denunciavam bem o orgulho que sentia. Naquele momento fiquei a pensar se a alegria que tal facto lhe proporcionava não seria o único lenitivo para a amargura que lhe devia ir na alma por saber que, como Governador-Geral, aquele era o último voo que realizava sobre aquela terra de que tanto gostava e à qual, desde muito novo, tanto dera em esforço e dedicação.

A simpatia e carinho que todos, na nossa terra, por ele tinham traduzia-se bem na maneira afectuosa como habitualmente a ele nos referíamos — o nosso Comandante, o nosso Ministro ou o nosso Almirante conforme o cargo que desempenhava ou o posto que tinha. E melhor ainda avaliaremos essa empada se dissermos que, antes dele, outro freixenista houve que tendo sido igualmente Comandante, Ministro e Almirante nunca os seus conterrâneos de tal forma a ele se referiram. Quando a voragem da revolução bloqueou o discernimento de alguns, provocou a passividade da maioria e despertou a ambição de uns tantos, nem o seu passado de permanente e total entrega ao serviço da Pátria nem o seu espírito democrático e liberal sobejamente reconhecido impediram que "certos", por inveja ou despeito, o tivessem feito passar pelo vexame que foi a sua prisão. De imediato a população de Freixo reagiu e alegrou-me ver as inscrições de apoio a ele dirigidas que espontaneamente surgiram nas estradas de acesso à nossa terra, única maneira possível, no momento, de manifestar a revolta que todos sentiam por tão vil e injusto acto. 

Mais tarde, quando, por iniciativa de alguns e o apoio de todos, quis Freixo prestar-lhe a homenagem que justamente lhe era devida perpetuando em bronze a sua imagem, todos sem excepção dispersos pelos mais diversos lugares do Mundo acorreram ao apelo que lhes fora dirigido, contribuindo em tão grande número com a participação material para a concretização de tão expressivo e justo acto de gratidão que os donativos excederam largamente o necessário pelo que, com o excedente, foi possível erigir um monumento aos nossos missionários. Tal êxito veio confirmar o acerto das palavras de alguém que um dia disse: "Uma pessoa só morre verdadeiramente quando deixa de estar presente na memória dos vivos." E Freixo e as suas gentes mostraram, nesse dia como hoje, que continuam a ter memória.


In Almirante Sarmento Rodrigues, 1899-1979, Testemunhos e Inéditos, pp. 101 a 103

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