domingo, 29 de novembro de 2015

LETRAS DO NORDESTE IV

Trindade Coelho, o Idealista

O homem que não cedeu
Virgínia do Carmo

Incansável defensor da justiça, mogadourense autêntico, idealista por vocação e generoso por natureza, Trindade Coelho traçou com a sua vida e com a sua obra um rumo social que a própria sociedade da época não estava preparada para seguir. Combatendo uma luta desigual, acabou por tombar vítima das suas próprias mãos, conduzidas, talvez, pela angústia de um cansaço mal recompensado.
Trindade Coelho nasceu no dia 18 de Junho de 1861, como José Francisco Coelho, servindo-lhe como berço a terra transmontana de Mogadouro. Segundo viria ele próprio a relatar na sua autobiografia, o pai, ao saber da notícia do seu nascimento que uma tia voluntariosa correra a anunciar, terá exclamado, como que em resposta a tão escusado entusiasmo para quem já tinha então uns tantos filhos, “olha a grande coisa”. Mas, ao invés de interpretar como fria esta recepção do pai, o autor sempre se lhe refere com saudade e respeito, como sublinha João Bigotte Chorão, um estudioso do autor, na introdução d’ “Os Meus Amores”. Estava-lhe na natureza que assim fosse, no “seu jeito tão leve e tão risonho e que é o segredo da sua arte e do seu encanto”, como acrescenta o investigador.

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7 comentários:

  1. CONTINUAÇÃO:
    Fazendo jus às capacidades do filho, o pai acabaria mesmo por lhe reconhecer cedo o direito a horizontes mais vastos, e providenciou-lhe uma educação à medida. Depois de passar pelas escolas Régias de Mogadouro e de Travanca, e superado o primeiro desgosto da sua vida, a morte da mãe, partiu para o Porto onde lhe são assegurados os estudos secundários. É então que a descoberta do mundo real, na “sua falsa grandeza”, começa a esboçar-lhe na alma os contornos do cepticismo. “Cepticismo” viria a ser mesmo o título do seu primeiro artigo, publicado num jornal do Porto, em 1879. No mesmo ano escreveria também os seus primeiros contos, “O Enjeitado” e “Trovoada”.

    O Homem sensível e idealista
    A percepção da injustiça da sociedade haveria de marcar indelevelmente a obra deste homem, reconhecido por todos os que o olham mais de perto como sensível e idealista.Ao reprovar no primeiro ano do curso de Direito, em que ingressou em 1880 (Universidade de Coimbra), perde a sua mesada e ganha o passaporte para a sua precocidade enquanto jornalista. Convencido do papel da imprensa enquanto regulador moral, Trindade Coelho, nome que adoptou só a partir de 1883 (Trindade era o apelido do pai), o escritor recorre-se disso para gritar os princípios da justiça social. Em 1881 funda o jornal académico “A Porta Férrea” e, um ano depois, o “Panorama Contemporâneo”.
    Resultado do cansaço derivado do trabalho de jornalista, professor particular e sebenteiro a que teve de se sujeitar para sobreviver, e, quem sabe, já de alguma nostalgia, Trindade Coelho haveria de sentir nos últimos anos de estudante os sintomas da primeira de muitas depressões que ao longo da vida o viriam a atormentar. Ainda assim, o jovem Trindade Coelho conclui o curso em 1885. Pelo meio, a perda do pai e o casamento com D. Maria Lucilla de Andrade Costa. Em 1886 Trindade Coelho, nascido já o seu primeiro filho, inicia a sua carreira como Delegado do Procurador Régio, no Sabugal, tendo, logo de seguida, sido transferido para Portalegre, onde permaneceria nos quatro anos seguintes. Esta acabaria por ser, de algum modo, a solução possível para os seus problemas financeiros, já que, como advogado, Trindade Coelho era traído pela sua generosidade, que não o deixava cobrar-se justamente pelo seu trabalho quando se tratava de defender os mais desfavorecidos, a maioria dos seus clientes.
    No tribunal como nos jornais, Trindade Coelho persistiu sempre na defesa dos valores da igualdade, e, particularmente, no direito à alfabetização, apologia em que viria a destacar-se. Depois de sete contos publicados, da fundação de mais dois jornais em Portalegre (“O Comércio de Portalegre” e a “Gazeta de Portalegre”) e de inúmeras crónicas publicadas em variadíssimos periódicos, Trindade Coelho é em 1890, ano da sua transferência para Ovar, um nome de referência na sociedade intelectual portuguesa, para uns incómodo e por outros apreciado por servir “exemplarmente o bem comum”, como explica ainda João Bigotte Chorão. Em nome desta sua vocação para o serviço gratuito a favor da comunidade, Trindade Coelho chegou a recusar um convite para deputado, opção que viria a justificar na obra “A Minha Candidatura por Mogadouro”, em 1901.Uma luta desigualEm 1891 o escritor publica “Os Meus Amores”. No ano seguinte, já como adido da Magistratura do Ministério Público, colabora com a “Revista Ilustrada” e em 1893 funda ele próprio uma outra revista, a “Revista Nova” e publica artigos no “Repórter” com o curioso pseudónimo de Ch. A. Hysson. Depois de ter sido colocado provisoriamente em Lisboa, parte em 1894 para África na nobre missão de defender 33 presos de cuja inocência estava convencido, tendo mesmo abdicado dos seus honorários. Três meses depois a defesa saiu vitoriosa e a recompensa monetária acabou por acontecer em tal abundância que João Bigotte Chorão fala mesmo em “pasmo infantil” para definir a reacção do escritor.
    CONTINUA

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  2. CONTINUAÇÃO:
    Mas nem tudo foram sucessos no percurso de vida de Trindade Coelho, pelo contrário. E por se saber defensor de causas numa luta constante para a qual partia sempre em desvantagem, a angústia assoma frequentemente o seu espírito. Em 1899, após ter escrito contos emblemáticos como “À Lareira”, “Manuel Maçores”(1894) e “Terra Mater” (1896), e ainda as sua grandes obras a favor da alfabetização e da educação cívica, “A Cartilha do Povo” e “O ABC do Povo”, Trindade Coelho sofre o primeiro ataque de neurastenia. Tal episódio não o impedirá, no entanto, de continuar a publicar as obras que a prolífera inspiração lhe vai ditando. “Remédio Contra a Usura”, Conselhos para que Fundem Uma Caixa Económica em Mogadouro”, “In Illo Tempore”, a “Autobiografia”, os Livros de Leitura (compêndios escolares), “Primeiras Noções de Educação Cívica” e “Manual Político do Cidadão Português” são obras que marcam o último período da vida de Trindade Coelho, obras decisivas e representativas da luta que enfrentou até ao fim mediante as três linhas de intervenção escrita a que se dedicou e de que soube recorrer-se para tanto: a ficção, a educação e o direito.
    Inconformado na morte como na vida, Trindade Coelho suicida-se em Lisboa, no ano de 1908.A memória do “mogadourense autêntico”Apesar de cedo ter deixado Mogadouro, a terra mãe esteve sempre presente na vida, mas, também, na obra de Trindade Coelho. Ele próprio escreveria, referindo-se aos seus contos, que “se vivesse na minha terra não os teria feito”, numa alusão expressa às saudades que dela sentia.
    Teresa Sanches, também ela mogadourense e estudiosa não por devoção mas por puro afecto da vida e da obra de Trindade Coelho, chama a nossa atenção para a “autêntica jóia literária” que constitui “Os Meus Amores”, onde o escritor “partilha connosco sentimentos puros quando recorda a sua terra natal e penetra na alma do seu povo”. É ela quem define Trindade Coelho como “modelo de cidadão exemplar” e “mogadourense autêntico”. A par das qualidades humanas, Teresa Sanches sublinha as qualidades da sua escrita reveladora de um “espírito inovador, numa expressão pessoal que se liberta do ultra-romantismo e da fácil retórica”.Volvidos quase cem anos sobre a morte de Trindade Coelho, a Câmara Municipal de Mogadouro faz justiça à sua memória através da reedição de algumas das suas obras mais emblemáticas. Uma tentativa de conservar a dignidade de um nome que recentemente foi reforçada com a publicação do roteiro “Viajar com Trindade Coelho”, que contou com a colaboração de Teresa Sanches. Trata-se de um projecto no âmbito de uma iniciativa da Delegação Regional de Cultura do Norte designado como “Viajar Com… Os Caminhos da Literatura”, que visa precisamente a organização de roteiros em torno de escritores ligados à região.

    Virgínia do Carmo

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  3. As letras do Nordeste é uma boa ideia.Há ,por várias páginas web, blogs e no facebook muitos textos, sendo alguns de qualidade, sobre os nossos escritores e homens da cultura.Posso,se assim o entenderem ,recolher e reeviar para futura publicação.Ficavam todos debaixo desse sombreiro que se chama LETRAS DO NORDESTE.
    Este,escrito por Virginia do Carmo, é excelente.
    Um nordestino das terras de Miranda.

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  4. Caro nordestino,envie,que agradecemos e postamos.

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  5. ESTA IDEIA É EXCELENTE; PARABÉNS!

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  6. Fiquei a saber mais sobre o homem e o escritor transmontano de Mogadouro,graças ao excelente trabalho de Virgínia do Carmo.Parabéns e obrigada.

    Uma moncorvense

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  7. Bom trabalho de Virgínia do Carmo, do qual resultou este excelente texto que traz ao leitor preciosos esclarecimentos sobre Trindade Coelho. Parabéns.

    Um abraço
    Júlia

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