quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A idade de passar-o-tempo, por Tiago Patrício

... e vi a locomotiva escura ao longe...

Quando tinha cinco anos, antes de questionar Deus e a existência, detinha-me a meditar sobre a passagem do tempo durante as refeições longas. Começou com o vício de olhar para o relógio pendurado na parede da cozinha, sem o ponteiro dos segundos. Costumava alertar a minha mãe que o relógio estava parado, porque os ponteiros nunca se mexiam, enquanto a comida arrefecia no prato. Ela tentava convencer-me que o ponteiro dos minutos avançava uma casa ao fim de 60 segundos e dava uma volta ao fim de 60 minutos, quanto ao das horas movia-se tão devagar para a minha idade que, quando desse vinte ou trinta voltas, já seria quase a altura de entrar para a escola.
Tentava exemplificar o movimento do ponteiro dos minutos com o dedo indicador na toalha de renda sobre a mesa e movia-o tão devagar quanto possível, mas chegava logo ao cabo da mesa, sinal de que tinha de abrandar se queria acompanhar aquela medida de tempo.
Sentia que enquanto fazia estas medições e contagens, o tempo não avançava tanto, como quando o TV Rural durava a manhã toda, até ao início dos Desenhos Animados. Por mais que abrandasse o ritmo sobre a toalha de fantasia, nunca acompanhava a cadência, por isso especulei  que  o  tempo  só  passava  se  não  o  vigiássemos  e  que  mesmo  com  relógios modernos e computadores, ele passava por entre as horas de distracção, como as horas do recreio, muito mais rápidas que as das refeições, por essa razão mesma.
Assim, um dia incerto, na altura dos meses quentes, decidi acordar antes dos meus pais e da sombra da casa da Tia Emília Antera descobrir a rua e sentei-me numa pedra encostado à parede do palheiro do Tio Augusto a inspeccionar a passagem do tempo. Vi passar uma das primeiras cabradas da manhã e as vacas do tio Modesto para o Mondego, reparei nas andorinhas a levar o conluio para os filhos nos ninhos e pensei que o tempo devia passar muito mais depressa para elas, porque andavam a 100 à hora, muito mais do que ali aonde eu estava parado. Depois vi passar alguns carros a fugir na estrada e o tempo a ficar para trás pela força do vento na testa. Estava nisto quando ouvi a minha mãe gastar-me o nome da janela e depois de chinelos junto ao portão da rua. Fiz a pausa para o pequeno-almoço e tentei explicar-lhe que estava a fazer uma casa rústica em miniatura, por isso é que tinha de estar ali ao dos palheiros para tirar o modelo e as pedras. Assentiu que continuasse, mas com a condição de levar o chapéu de palha e de fazer uma pausa alargada para a sesta, na hora do calor.
Saí de casa com as sopas de leite quente na barriga e a licença de observação por mais duas horas e meia. A partir das 11h o calor começou a apertar, mesmo à sombra da cerejeira e comecei a sentir o tempo estagnar na aragem que não havia, nas folhas que transpiravam paciência, nas pedras resignadas ao sol e nos cães pardos estirados debaixo das carroças. De vez em quando uma velha de preto e lenço na cabeça aparecia à porta a despejar uma bacia de água para a valeta, outras sentavam-se à sombra a comer pão e maçã ou azeitonas com cebola e salpicão. Davam-me as boas horas e perguntavam-me se estava a brincar sozinho. Eu assinava que sim, que estava a ver o tempo passar, como quem diz que estava a passar o tempo de alguma maneira para a minha idade. Vizinhos mais velhos passavam com sachos e ancinhos às costas e perguntavam-me se não queria ir com eles descobrir minhocas, eu ficava agachado na erva junto à parede e dizia que estava a cativar uns grilos para uma gaiola lá de casa.
Por volta do meio-dia ouvi uma buzina do comboio para os lados da estação, aproximei-me da linha e vi a locomotiva escura ao longe. Preparava-se para arrancar com as cabeleiras de fumo e fuligem pela chami de ferro preto, depois de reabastecida com água. Havia já muitos anos que não levava nem trazia passageiros, o serviço de automotora tinha acabado no ano em que nasci e agora só transportava cimento, telhas, madeira e trigo de um lado para o outro.
A curiosidade e a imprudência levaram-me a agarrar uma pedra da linha e a pousá-la em cima do carril, para ver o que acontecia à cadência do comboio comandada pelo tempo dos horários oficiais, parentes do ser dia e do nascer-do-sol. Corri uns quatro ou cinco metros e escondi-me atrás de uma silveira à espera de ver o que acontecia no instante em que a roda de aço tocasse a pedra, no movimento pesado da máquina. Por sorte escolhi uma pedra pequena e de granito, que se desfez em estilhaços na fracção de segundo do estrondo e devolveu ao meu coração a frequência normal. Se provocasse um descarrilamento teria uma suspensão da minha infância ou mesmo ordem de prisão, pela tentativa de alterar a marcha do  tempo  e  os  meus  pais  seriam  deportados  pela  responsabilidade  do  meu  acto premeditado.
Estava nestes pensamentos terríveis, quando fui salvo pelo chamado da minha mãe para ajudar a pôr a mesa do almoço. Ela estranhou a minha prontidão e na falta de perguntas, tentou adiantar conversa sobre a minha experiência como engenheiro na casa em miniatura. Disse que estava mal feita e que a tinha deitado abaixo por causa dos grilos e das formigas que iam lá viver com poucas condições.
Na hora da sesta, protegido do calor da tarde pela persiana do quarto, pensava ainda nos restos do tempo que tinha gasto a construir e a alimentar a tentativa de controlar o tempo, na forma de uma casa de pedra, aonde o queria aprisionar nos diferentes compartimentos diários. Não fui capaz de chegar a conclusão nenhuma, mas achava que para fazer durar mais o tempo era preciso dividi-lo em tijolos de barro e usar os tempos mortos para fazer escadas até às alturas em que desejamos passar depressa para a hora seguinte, nos andares de cima, aonde queremos ficar com mais vagar.
Depois de acordar para lanchar tentei lembrar-me do sonho e perguntei à minha mãe se era mesmo verdade que sonhávamos mais tempo do que aquele que dormíamos e se na nossa cabeça o tempo girava de maneira diferente consoante a idade. Ela respondeu que agora o tempo a deixava para trás e lhe escapava sorrateiro, enquanto que para mim era ainda uma espécie de passatempo
 Tiago Patrício

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