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segunda-feira, 20 de março de 2017

Freixo de Espada à Cinta - Campeonato Nacional de Motocross

O piloto de Leiria dominou em MX1 e Elite e garantiu a vitória nas duas categorias na segunda prova do Campeonato Nacional de Motoros.


A adrenalina em duas rodas regressou, no domingo, a Freixo de Espada à Cinta com a segunda ronda do Campeonato Nacional de Motocross. Uma prova organizada em conjunto pelo Moto Clube de Guimarães e Junta de Freguesia de Freixo.

Na capital nordestina dos desportos motorizados estiveram cerca de 80 pilotos em iniciados, juniores, MX1, MX2 e Elite.

Paulo Alberto superiorizou-se na Pista Multiusos. O piloto venceu as duas mangas em MX1 e Elite, vencendo as duas corridas.


Jornalista:

Susana Madureira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Freixo de Espada à Cinta e vizinhos espanhóis apostam na promoção conjunta


Cooperação transfronteiriça faz parte de estratégia para a promoção turística daquele território no mercado ibérico.


O reforço da cooperação fronteiriça entre o município trasmontano de Freixo de Espada à Cinta e os vizinhos espanhóis de Saucelle e Hinojosa de Duero faz parte uma estratégia para a promoção turística daquele território no mercado ibérico.

O município de Freixo de Espada à Cinta, no distrito e Bragança, quer assim chegar a um mercado que vai desde as regiões espanholas de Salamanca até Valladolid, onde se estima que haja cerca de 700 mil potenciais turistas que possam passar por este território encaixado nas arribas do Douro Internacional.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

Memórias de Freixo de Espada à Cinta - Texto sobre Jaime Guerra


“A sopa comíamos sempre, e um peixinho, não era daquele mais caro claro. E a minha mãe quando tinha alguma reserva, já nos assava um bocadinho de carne, pouca naquela altura mas estava habituada e trazia-nos sempre bem. Eu andei descalço até aos oito anos. No lugar onde tenho as propriedades, andei lá muita vez descalço”.
Para Jaime Guerra e mais seis irmãos a vida não correu como sempre se espera, pelo melhor, e o trabalho para todos veio cedo. O seu pai faleceu novo, e a família tinha que se sustentar. Depois de deixarem a aldeia onde nasceram, em Mazouco, regressaram a Freixo e todos tiveram que ajudar a mãe, que nunca lhes faltou com nada. “A vida era muito má mas felizmente a minha mãe era muito boa, muito cuidadosa de nós e trazia-nos sempre limpos”.
Ainda descalço, aos 12 anos, começou a aprender a arte de sapateiro que manteve durante mais de vinte anos. “Não tínhamos sapatos, e eu ia ao sapateiro para que me desse umas pontinhas do cabo, aqueles restos que ficam, e comecei a fazer alguma coisa e pedia ao sapateiro se me ensinava. Naquela altura, era um acordo de dois anos, de graça, não recebíamos nada. A partir de ano e meio, eu já tinha alguma habilidade e disse ao patrão, [você não me paga, eu procuro outra pessoa]. Fui para outra pessoa e ganhava naquela altura, cinco coroas que eram os dois e quinhentos, por dia, era pouco mas dava jeito”. Aos 16 anos já fazia calçado completo e por esta altura os seus pés já não deixavam as marcas no gelo dos invernos rigorosos.
A vida começou a ver dias melhores e Jaime decidiu emigrar para França onde esteve 13 anos mas o amor aos filhos haveria de o fazer regressar a Freixo de Espada à Cinta onde decide estabelecer-se com a sapataria que dura até à chegada do mercado chinês.
De há 9 anos a esta aparte que se ocupa da agricultura. Todos os dias vê a terra que tantas vezes percorreu descalço com os irmãos, quando iam buscar lenha para se aquecerem, às vezes a 10km de distância. Hoje quando pensa ainda se assusta , foi um passado alegre mas ao mesmo tempo triste, diz. Já vai longe e agora, a mesma terra que um dia lhe deu sacrifícios, trata-a ele, com a alegria possível.


Joana Vargas

terça-feira, 15 de novembro de 2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Memórias Orais de Freixo de Espada à Cinta - António Pires

Já completou 95 anos e o sangue ainda ferve quando fala das injustiças a que assistiu na sua vida. Passou por muito mas nunca teve medo a nada. Nem ao Douro, esse gigante que tantas vezes atravessou a nado para ganhar mais algum. 

“Aqui era um miséria, até caiam as lágrimas, de volta deles. Cheguei a pas. Tinha um que nos passava no Águeda, e eu estava na Barca, chegou ao pé de mim, [oh ti António olhe que eu não me atrevo a passar o Águeda, que cresceu muito]. Peguei na tralha, abalei, fui lá eu e passei-os, o primeiro agarrado a mim e depois os outros passei-os agarrados uns aos outros, passei-os assim. Era uma calças de pana, uma blusa, era isso que passávamos”. 
sar aqui no Douro, na Matança, passei em muitos sítios mas onde passava mais era no Águeda, era a bau. Um dia levava dez mulheres e homens, e tinha chovido

A destreza era útil ao negócio e fez com que nunca fosse preso, nem nunca visse os guardas que se confundiam por entre as fragas. Uma ocasião passou sozinho e à corda, 100 kg de amêndoa partida. “Passava-a eu à corda, ele (espanhol) ficava com uma ponta do lado de lá e eu trazia outra para este lado, com uma taresga a rodar para um lado e para outro e era assim, essa noite como eu me vi para passar tanta amêndoa!”.

Emigrou para França “de assalto” à espera que a vida lhe melhorasse. Deu-se bem mas também passou lá muita tristeza confessa. “Passei muito mas lá me desenrasquei. Para onde ia todos me agarravam pela mão”. Quando regressou a Portugal ainda se dedicou à agricultura, comprou uma propriedade, “eram alguns 50 milheiros de vinha, oliveiras e amendoeiras”.
Os dias por agora são passados na Estalagem onde comprou um quarto para si e para a esposa. Os cinco filhos já estão governados e António Pires pode agora gozar do tempo do descanso.

Joana Vargas

Memórias Orais de Freixo de Espada à Cinta - António Pires

Freixo de Espada à Cinta - MEMÓRIAS ORAIS - António Pires from LB Produções on Vimeo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Memórias Orais de Freixo de Espada à Cinta - Júlio Alves


“A minha infância foi bastante difícil mesmo porque depois meu pai saiu da cadeia de ser carcereiro e teve que se agarrar à agricultura e ainda éramos 5 filhos em casa e era um tempo difícil onde nós recebíamos senhas de ração para ir buscar o açúcar, o macarrão, o pão, um quarto de pão para cada filho e tínhamos bastantes dificuldades e depois tivemos um azar grande foi quando a minha mãe faleceu e que passamos muitas dificuldades”. 


Júlio Alves é natural de Freixo de Espada à Cinta mas foi por outros “mares” que fez a sua vida. De cedo teve vários ofícios mas acabou por ingressar na Marinha onde fez várias missões na Índia e no Continente Africano. “Estive sete meses num campo de concentração na Índia, aí comíamos pessimamente, formávamos 2 e 3 vezes por dia para fazer contagem, houve uns poucos que tentaram fugir foram logo bem castigados, isto é, foram mal tratados; Davam-nos água, era difícil, havia um Capelão que nos aconselhava a pôr-mos a lata da água ao sol porque bebendo quente a água matava-nos mais a sede e eu cheguei a fazer isso. E depois dormíamos no chão, lá tínhamos uma roupita, em cima do cimento, lá arranjávamos umas tábuas, não tínhamos camas e havia pessoas que disseram cá que fomos bem tratados mas eu chamo-lhe eu hipocrisia”. 



É a bordo do “Pátria” que regressa a Portugal e ingressa num curso de fuzileiros especiais. Começa por ser destacado para Angola quando começa a Guerra das Colónias e haveria de cumprir diversas missões em Moçambique e na Guiné. As marcas da Guerra ficarão sempre para lá dos estilhaços. Júlio viu morrer muita gente, “muitos dos seus”, e as conversas derivam sempre num tempo mais à frente para não lembrar. 



Ainda fez o curso de Sargento e é nesta profissão que se reforma. Já vai para mais de vinte anos. Dos apontamentos dos seus diários fez um livro onde (d)escreve ao pormenor as faces da vida militar. Agora os dias também os dedica à companheira de todas as horas que “foi mulher, esposa, mãe e pai dos seus filhos” como sempre a evoca.


Joana Vargas

Memórias Orais - Freixo de Espada à Cinta


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Memórias Orais - Texto sobre Francisco Gaspar




“O meu pai estabeleceu-se em Freixo com uma peixaria. Era um negociozinho que não dava muito dinheiro mas dava para sustentar a família. Depois às vezes sobravam muitas sardinhas e a minha mãe tinha que as fritar todas para não se estragarem então éramos sete irmãos e tínhamos que aproveitar as sardinhas. Então quando sabiam melhor era quando íamos ao cinema, naquele tempo já havia cinema, isto em 52, 53 já tínhamos cinema em Freixo mas era uma carrinha que vinha cá que era o “Cinelis Vila Flor”, que vinha cá e que trazia aqueles filmes da Amália Rodrigues, de António Silva, Vasco Santana, o Homem do Ribatejo, eu com dez anos já ia ao cinema”.
Francisco Gaspar seguiu as pisadas do pai e tornou-se comerciante. A aprendizagem começou cedo, aos 11 anos já trabalhava numa mercearia e ganhava 100 escudos por mês. “Fui trabalhar para uma mercearia de Freixo, eu nem chegava à balança, veja um miúdo com 11 anos, naquele tempo podia-se trabalhar com 11 anos, hoje não , e o meu patrão punha-me um caixote do sabão, vazio e mandava-me subir para o caixote e pesar. A primeira coisa que eu pesei nunca mais me esquece, foram 5 tostões de pimento”.

Depois de cumprido o serviço militar regressou a Freixo para o ofício que tinha deixado. As folgas na mercearia só ao domingo e a partir das 17h. “Para namorar a minha mulher só depois das cinco da tarde nos domingos e a minha esposa nesse tempo estava numa aldeia em Fornos e eu tinha que ir a namorá-la. Comprei uma mota, destas Zundap, metia um basqueiro, e comprei-a em 2ª mão, porque o dinheiro era pouco”. 
Com a Revolução de Abril, Francisco também decidiu revolucionar-se, confessa, e com 30 anos monta o seu primeiro negócio. “Ao revolucionar-se o povo eu também me revolucionei, saí do meu patrão e estabeleci-me, num senhor que tinha um café que se chamava senhor Ferreira e ele é que me disse [olha eu alugo-te os baixos do café e a parte de cima, em cima fazes um armazém e em baixo fazes a mercearia], e assim foi”. A vida foi melhorando e Francisco de mercearia passou a ter um supermercado, vai para mais de 20 anos, negócio que mantém atualmente, mas que é gerido pelo filho. 
Já reformado, Francisco acompanhou a profunda transformação que se deu no negócio. “Hoje as compras são totalmente diferentes do meu tempo. Hoje existe a internet, o meu filho compra “on-ile”, ou como se diz”. As distâncias nos transportes das mercadorias e no contacto com os fornecedores encurtaram-se com a vinda das novas tecnologias. Bem diferente do tempo em que ia no comboio a carvão e tinha de levar duas camisas, uma para a viagem, que ficava preta do combustível e outra que vestia quando ia negociar com os vendedores. 
Aos 71 anos Francisco conheceu o negócio como poucos. Estas alterações agora acompanha-as de longe e diz, que para estas coisas do “online” é preciso ter uma “cabecinha de ferro”.

Joana Vargas

Memórias Orais - Francisco Gaspar


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Memórias Orais - Texto sobre Maria Júlia Martins



Chama-se Maria Júlia Martins mas a idade já não a tem bem certa. Oitenta e oito, acha, pela comparação com a amiga Amélia. Sabe que têm os mesmos anos. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta ela e mais sete irmãos. As agruras da vida fizeram com que Maria Júlia só conhecesse o trabalho. Assim sabia que as dificuldades seriam menores. “Fome nunca passamos mas a minha vida foi sempre a trabalhar, puseram-me logo de pequenina a guardar ovelhas e cabras e a segar o pão, a cevada, andar na eira a varrer e com os burros a trilhar o pão , foi a minha vida...”

Teve quatro filhos, uma delas nasceu por suas mãos. “Vieram-me as dores de noite e tive aquela menina, até está casada na Espanha e lá a compus e lá viveu, eu sozinha, mais ninguém. Trabalhei muito a criar aqueles filhos e ia a coser para Poiares, depois o senhor Almirante fez-me um forro mas ia a coser da quinta a Poiares a cavalo de um burrinho, para cima ia a cavalo, para baixo vinha carregado e eu a pé, pelo cabeço. Pode crer naquilo que eu lhe digo”.

É do tempo em que a água em Freixo era escassa e as mulheres iam com os cântaros à fonte à espera do “fiozinho” para governar a casa. “As mulheres até se batiam, porque queriam encher e a água era pouca percebe. Punham à vez os cântaros mas depois os ricos eram muitos e também não havia água, quem tinha mais água era o Senhor Doutor Francisco que a trazia de um prédio dele para casa mas os outros batiam-se, pintavam a sarameca. A Guarda Republicana lá ia muitas vezes a acomodar aquela gente. Íamos à fonte no Carril, há lá uma fonte onde está uma ponte, não era laje essa era assim lisinha e tinha uma pocinha e de manhã cedo alevantavamo-nos e íamos com o copo e com o cântaro a apanhar aquela gotinha de água”.

“Agora a vida é outra”, diz, os tempos em que andava à chuva a trabalhar e muitas vezes descalça já estão longe ainda que, a cada dizer, bem presentes na memória.



Joana Vargas