quinta-feira, 2 de junho de 2016

A PONTE DA QUINTA DA PORTELA SOBRE O RIO SABOR ,por António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães

Várias vezes temos dito que os processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas surpreendentes.
Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:
Esta ponte é, sem questão, uma das mais perfeitas e sólidas construções desta natureza que se encontram no nosso país. É verdadeiramente um monumento nacional, um padrão da nossa antiga opulência e documento vivo da perfeição a que noutros tempos chegaram as artes entre nós.
E agora vamos então para as cadeias da Inquisição de Évora onde, em 1545, se encontrava preso por culpas de judaísmo um Gaspar Rodrigues que era natural de Castela e morador em Miranda do Douro, rendeiro dos portos de Trás-os-Montes.
Foi casado duas vezes. A primeira com Maria Fernandes e deste casamento nasceram 9 filhos. Ficando viúvo, tornou a casar, com Beatriz Mendes e dela teve mais filhos.
Sobre a sua descendência, sabemos que o filho mais velho se chamava João Rodrigues e estava em Itália; Cristóvão Rodrigues residia em Medina del Campo; 3 outros filhos viviam e trabalhavam com o pai, enquanto um quarto vivia casado em Miranda.
Quanto às filhas, a mais velha estava casada em Madrigal, Castela, com Diogo Lopes, escrivão; Beatriz Rodrigues casara em Miranda do Douro com o advogado Cosme Pereira, que era procurador da correição e a outra unira-se a Henrique Vasques, de Lisboa, também letrado.
Gaspar Rodrigues fora denunciado, entre outros, pelo padre Francisco Álvares, cura do Felgar, tio da sua primeira mulher, provavelmente de origem hebreia.
Estamos pois em Évora no dia 30 de Março de 1545. Os inquisidores lutavam, certamente, com falta de espaço na cadeia e resolveram libertar Gaspar Rodrigues. Não uma liberdade incondicional e definitiva, mas uma saída sob caução e com garantias de o ter à mão sempre que quisessem falar com ele. E estabeleceram condições: deixá-lo-iam sair mas alguém tinha de se responsabilizar por ele para que não fugisse e fazer um depósito de 300 mil réis (uma verdadeira fortuna!) em dinheiro ou garantias em propriedades.
Sabem quem apareceu como fiador do cobrador de rendas de Miranda do Douro? – Vasco de Sampaio, morador em Torre de Moncorvo, da ilustre e cristianíssima família dos Condes de Sampaio. Assinou um termo em que se comprometia “a entregar o dito Gaspar todas as vezes que lhe for pedido pelo dito senhor inquisidor (…) lho dará e entregará preso no cárcere da santa inquisição onde ora está e não lho entregando lhe pague os ditos 300 mil réis da cadeia”.
Erra grande a confiança que o fidalgo Vasco de Sampaio depositava no rendeiro marrano para se arriscar a ser preso e a dar 300 mil réis! Seria interessante fazer um estudo das relações entre os Senhores de Sampaio e os líderes marranos de Trás-os-Montes, nomeadamente de Vila Flor e Torre de Moncorvo.
Mas o que agora importa é o documento que segue, com o registo dos bens que ficavam garantindo a fiança de Vasco Sampaio, sendo que as propriedades agrícolas se situavam quase todas na região do ubérrimo Vale da Vilariça. Vejam:
herdade a S. Mamede (Baldoeiro)
* Um sapal que tem no Campo da Valeira, termo da Torre de Moncorvo, que leva 100 alqueires de pão de semeadura e vale 80 mil réis.
* Uma canameira que leva 10 alqueires de semeadura de cânhamo (…) e vale 100 mil réis.
* Mais outro campo que está ao Ribeiro dos Cavalos (…) que parte com a herdade de Simão Borges de Castro que poderá valer 20 mil réis.
* Uma herdade que tem no termo da dita vila Derruída, com sua olga que pode valer 40 mil réis.
* Outra canameira que está à ponte da Valeira, que parte com os herdeiros de Fernão Vaz de Sampaio e lhe rende 30 pedras de cânhamo, que pode valer 20 mil réis.
* Uma herdade no Vale das Latas, que parte com Diogo Henriques, que poderá valer 30 mil réis.
* Duas herdades no Crestaço, que partem com António Domingues e Luís Dias de uma banda e de outra com Gaspar Sarmento e Luís Pires, lavrador, que vale 30 mil réis.
* Mais um assento de casas com seu quintal que tem pegado (…) da dita vila.
* E outras casas na dita vila em que vive, com muro cercadas sobre si, valerão 40 mil réis.
* Uns sapais ao prado dos Cavalos, que valem 20 mil réis.
* Mais 2 casas cercadas com pombal, que se chamam uma Pombal e outra as Popeiras, que valem 40 mil réis.
* Quatrocentos mil réis que tem na Casa da Índia.
E agora… a razão de ser deste texto:
* Outra herdade a S. Mamede onde se quebrou a pedra para a ponte do rio Sabor, que vale 2 mil réis.
Como se vê, em 30 de Março de 1545, já existiria a ponte de cantaria sobre o rio Sabor, no sítio da Quinta da Portela. A construção seria bastante recente pois se sabia que a pedra foi cortada no lugar de S. Mamede, na fragada dos Estevais. Compete agora aos técnicos especializados neste tipo de obras, averiguar se trata da actual ponte ou de uma outra que posteriormente fosse acrescentada.

FONTE
IANTT, Inquisição de Évora, processo 6858, de Gaspar Rodrigues.
NOTA – Este texto foi publicado no jornal Terra Quente de 15 de Agosto de 2012.

Reedição de posts desde o início do blogue

3 comentários:

  1. Agora que a ponte vai ficar submersa este texto de António Júlio Andrade veio abrir novos espaços de investigação.Lembrar que a herdade de S. Mamede não é mais do que o velho castro do Baldoeiro e do povoado que existiu até ao sec. XIII com a capela/mesquita de S. Mamede.Onde andam os nossos arqueólogos que não detectaram o lógico.Haverá pedras da igreja e das outras construções na velha ponte.Aproveitem este este excelente trabalho a equipa cientifica do Baixo Sabor.
    Meen Corvo

    ResponderEliminar
  2. Nunca fui ao Baldoeiro,dizem que o caminho é mau e cheio de silvas.Lembro-me de ver no face da Cardanha a organização de uma visita guiada pela arqueóloga Susana Bailarim.Quando organizam outra?Em setembro era uma boa data.

    ResponderEliminar
  3. Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(88anos),não entendo nada de construção de barragens,mas em virtude de tantos protestos contra a construção de barragens que alagam vales e montes,destroem paisagens e até Povoados,porque não constroem duas ou três mais pequenas em vez duma gigante?
    José Gonçalves Cravinho

    ResponderEliminar