sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Regresso às origens - Rogério Rodrigues

Durante dias vê-se mais pedra que gente. O olhar alonga-se por verduras sem horizonte.
E de súbito, como se regressássemos a uma realidade que sufoca e estrangula, mas da qual já somos dependentes e viciados, entramos na Amadora. É um choque. São mais as pessoas e o cimento do que as árvores.
É um choque, mas sem saudades do interior donde se regressa.
A desertificação e a nostalgia revivalista, o conformismo, esta morte lenta, gradual e ignorada, incomoda e inquieta-me.
As pessoas estão resignadas. Os seus filhos partiram para as grandes cidades -- Lisboa e Porto.
De quando em quando reúnem-se em convívios almoçaristas, em partilhas de memória de infâncias e adolescências mitificadas, em recordações de que naquele tempo é que era. E aquele tempo era muito mau para a esmagadora maioria esmagada.
Ainda há dias morreu um homem feliz e bom que, durante anos, durante oito horas por dia, carregou e descarregou sacas de trigo de cinquenta quilos, num destino de Sísifo.
“Aquele tempo” era assim. Emigrou para a Holanda. Criou muitos filhos. E morreu bom e feliz como sempre viveu.
Refugiados ou condicionados à cidade, temos um errado conhecimento, descontextualizado do que é hoje o interior e a província.
Nestes anuais convívios almoçaristas assemelhamo-nos aos políticos que em tempo eleitoral mergulham no interior. Prometem aos condenados à morte lenta, não campa rasa, mas jazigo de mármore.
Quanto a nós, idos de Lisboa ou do Porto, recordamos eufóricos, num elitismo demodé, uma espécie de vencidos da vida, mesmo quando bem sucedidos na profissão, um passado que foi violento e do qual, em nome de todos os que sofreram com esse passado, eu não posso ter saudades.
Chego à realidade suburbana e revejo tudo o que deixei para trás --uma vila do Nordeste a morrer, mas a morrer em silêncio, com efémeros e circunstanciais ruídos, provocados por políticos ou afins, que utilizam o Interior para o exterior.
E os jovens de 20 anos sem emprego, a evidência de que não há igualdade de oportunidades, sonham com as grandes cidades, sonham com Lisboa e com o Porto.
E se conseguirem partir e se conseguirem ter sucesso, então um dia destes ainda os irei ver a ter saudades de um passado agreste e de uma situação madrasta, em qualquer convívio almoçarista, a não ser -- e mantenho ainda essa tímida esperança -- que interiorizem que saudades devem ter apenas do futuro.
Chego à Amadora. E recordo a informação escondida na página par de um jornal: 350 mil naturais de Trás-os-Montes vivem em Lisboa. Mais dos que vivem em Trás-os-Montes. Só que não temos a alma cabo-verdiana nem cantamos mornas de saudade. E mesmos os lobos, esses, já vivem, na maioria, em cativeiro. Como nós, em algumas assoalhadas.
(Crónica publicada no JN, edição de Lisboa)

P.S. texto inspirado no almoço dos Imborrentes em Moncorvo, no restaurante das piscinas.
Nota: fotografias de responsabilidade do editor.

6 comentários:

  1. mas porque é que isto é verdade?
    Digam-me que tudo vai mudar, que as pessoas, IMBUÍDAS DE VARINHAS DE CONDÃO, VAÕ VOLTAR ÀS ORIGENS; viver em ritmo apressado,uma vida inteira, será qualidade de vida?
    Tininha

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  2. Se uma fotografia vale mil palavras ,três valem três mil. Nesta luta ganha o texto, pois o seu conteúdo não são palavras :é uma radiografia.
    Todos sabemos que uma radiografia vai além da fotografia .É o retrato do interior ,é a alma a nu.
    Dia 19 vou à biblioteca agradecer ao autor pelo que tem feito pela busca da nossa identidade .Bem-haja.
    M.C.

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  3. Segundo uma informação, de quem anda a par de tudo na vila, é voz corrente que os IMBURRENTES estão em um processo irreversível de extinção.
    Imburrente é um termo que se usa para aquele que diz sempre que não ,que está sempre a implicar.Foi esse o nome adoptado, com humor, por um grupo de moncorvenses nascidos nos anos 30/40 e que frequentaram o antigo colégio Campos Monteiro.Do núcleo centrar do grupo nasceu a ideia de criar uma associação de antigos alunos e em 2004 nasceu a A.A.A-C.C.M.Todos os anos ,pelo mês de Junho, descem à vila para comerem cabrito e confratinizarem.
    Noitibó

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  4. Não será propriamente em extinção, mas que estão todos nos 70s ou a caminho, lá isso é verdade.

    Abraços
    Júlia

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  5. O artigo merece uma grande reflexão no que respeita à situação de abandono e desertificação, cada vez mais acentuados, das nossas terras, realidade que entristece. Como inverter este fenómeno? Estamos a esquecer que os tempos recentes, em que se assiste a uma crescente facilidade e rapidez de acessos físicos e de telecomunicações e às possibilidades de modernos meios de trabalho, permitem criar condições que, associadadas a incentivos convenientemente estabelecidos e outra vontade política, contribuirão para investir numa (re)exploração dos nossos recursos e fixação de gente.
    Quanto aos “Imburrentes”, estou convicto de que ainda há muito para fazer para manter a chama. Juntemos os nossos esforços e empenhemo-nos na organização e concretização dos nossos encontros.

    Ramiro Salgado

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  6. Meu caro Rogério
    Por indicação do Zé Alfredo acabei de ler agora o teu artigo publicado
    nos FARRAPOS DE MEMÓRIA sobre as gentes transmontanas que demandam o
    Porto e Lisboa para fugir às agruras das suas terras. Inteiramente me
    identifico com a tua visão sobre o assunto e que eu próprio senti por
    terras mais longínquas, MUITO EMBORA NÃO POSSA COM VERDADE QUEIXAR-ME
    MUITO. Mas as saudades, caro Rogério, as saudades das agruras ou
    apenas meras insuficiências da nossa querida Terra, nunca mas mesmo
    nunca me largaram. Neste contexto, por aquilo que escreveste apenas
    uma palavra me ocorre: OBRIGADO

    Julio Dengucho

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