terça-feira, 25 de agosto de 2015

OS JUDEUS NO CONCELHO DE TORRE DE MONCORVO,por António Pimenta de Castro


Velha judia (professor Santos Júnior)
Não se sabe ao certo a vinda dos primeiros judeus para o território que hoje é Portugal. São inúmeras as lendas que vários autores aludem, mas que precisam de uma confirmação histórica irrefutável. Por isso apenas vamos falar da sua vinda, com provas concretas e comprovadas com documentos. Esta questão não é pacífica, escreveu recentemente (Outubro de 2009) Carsten L. Wilke: “Fora da capital provincial, estelas antigas de judeus lusitanos foram encontradas em Villamesías (perto de Tujillo) e, há uma vintena de anos, em Mértola, a antiga Mytilis, no Alentejo. Essa pedra é o mais antigo testemunho da presença judaica no actual território português. Mas ela é – lá está – muito incompleta; da inscrição, ornamentada por uma menorah (candelabro de sete braços hebraico) gravada, não resta senão a parte inferior, comportando uma datação em língua e calendário latinos: die quar (ta n) onas octo (bri)s era DXX, o que corresponde a 4 de Outubro de 482. O costume de redigir as inscrições funerárias em língua hebraica só se difundiu quatro séculos mais tarde. Assim, os dois epitáfios hebraicos encontrados em Espiche, perto de Lagos, tidos durante muito tempo como o mais antigo vestígio judaico em Portugal, não podem manifestamente datar do século VI como pretendem os manuais, pois o seu vocabulário é nitidamente característico da Alta Idade Média(1)” .

 No período do reino Visigótico, poderemos distinguir dois períodos distintos, um primeiro, de tolerância religiosa, um segundo período, de feroz perseguição com a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 587 e, depois, os outros reis visigodos. Não há dúvida que os primeiros reis portugueses protegeram os judeus. Poderemos afirmar que nos primeiros cinco reinados, os judeus viveram num clima de paz e protecção real. Prova disso é que os judeus, são denominados pelos reis de «meus judeus», o que indica uma certa protecção e dependência perante o rei. No século XV no mapa de comunas judaicas (só salientamos as da nossa região), aparecem-nos as seguintes: Moncorvo; Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro (esta já nos aparece no mapa do Século XIV), Bemposta, Azinhoso, Miranda do Douro, Bragança, Vinhais, Vila Flor, Alfândega da Fé…(2) ”. “O Rabino da Sinagoga de Moncorvo no tempo de D. João I, abrangia na sua jurisdição os judeus de Trás-os-Montes. A comuna de judeus de Moncorvo é uma das que concorreram, com várias outras, para o empréstimo lançado por D. Afonso V (1478) para as despesas da guerra(3)” . Com o decreto de expulsão de 1496: “transformada, pela força, em conversão geral no ano seguinte. Fez com que Portugal se transformasse, de um país excepcionalmente tolerante, no contexto da Idade Média europeia, num país de religião única, exclusiva e repressiva, e, portanto num país que, com poucas excepções, não aceitava judeus declarados no seu solo ”(4), situação que piorou a partir de 1536, com a introdução da Inquisição no nosso país. A partir daqui não poderia haver judeus a viver em Portugal. Muitos (os mais ricos, mais religiosos e influentes) foram-se embora, os outros, que não puderam ou não quiseram partir, tiveram que se deixar baptizar e fingir exteriormente, que eram católicos. Quase todos os que ficaram, eram conhecidos por cristãos-novos, ou marranos, e praticavam no recato da sua casa o judaísmo, nascendo assim o criptojudaísmo. Também em Moncorvo assim aconteceu. Ainda hoje, os habitantes da freguesia de Felgueiras (concelho de Moncorvo), são conhecidos pela sua ascendência judaica, bem como os nossos vizinhos, de além Douro, de Vila Nova de Foz Côa. As tradições eram transmitidas, a partir daí, oralmente e transmitidas secretamente, de geração em geração, sobretudo pelas mulheres. Ao preparar este trabalho, li o interessante livrinho de Carsten L. Wilke, de apresentação da sua obra mais profunda “História dos Judeus Portugueses”, das Edições 70, deparei com o seguinte. “Citarei um exemplo só: de uma oração clandestina, a mais popular dos criptojudeus portugueses, uma trova em vinte versos que chegava a ser uma espécie de hino do criptojudaísmo português. Foi dita já no século XVI e ainda no século XX (…) Os primeiros exemplos surgem nos anos 1580, segundo os estudos eruditos da professora Elvira de Azevedo Mea: são de confissões de nove prisioneiras da Inquisição, todas mulheres de Trás-os-Montes ou, mais precisamente, originárias do distrito de Torre de Moncorvo. (…) Ainda no século XX, recitam-na de memória testemunhas de Bragança, de Felgueiras e de Belmonte. Leio-vos aqui as duas famosas oitavas:

«Alto Dio de Abraão,
Rei forte de Israel!
Tu, que ouviste a Daniel,
Ouve a minha oração!

Tu, que nas grandes alturas
Te aposentas, Senhor,
Ouve a este pecador
Que te chama das baixuras,
Pois, Tu, a todas as criaturas
Abres caminhos e fontes
Alço meus olhos aos montes,
De onde virá minha ajuda?

Minha ajuda de com Adonay,
quem fez o céu e a terra.
Livra-nos de tanta guerra,
pois que somos a tua grei,
de adorar deuses alheios,
coisa que em tanto o homem erra,
confesso que em mim se encerra,
grão pecado que em mim hei.(5) »

Reparem nas palavras, Israel e Adonay. E o citado autor e trabalho, na página 14, acrescenta: “Fica do mundo bíblico a mirada angustiada, o sentimento de desamparo, o desencanto do mundo e, finalmente, a consolação. Assim, a diáspora judaica trocou as colinas da Judeia pela Serra do Reboredo, no alto de Torre de Moncorvo; e levou os montes do silencioso diálogo, lá pela serrania da Espanha e para os vulcões do México”.
Muito mais haveria a dizer, ficará para próximos artigos…

O professor  Castro

1-Carsten L. Wilke, “História dos Judeus Portugueses”, página 13 e 14, Edições 70, Lisboa, 2009.

2- Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Os Judeus em Portugal no século XV”, Universidade Nova de Lisboa, Volume I, página 75, 1982.
3- Abade de Baçal, V Volume, das “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, página XLIX.
4- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, Edições 70
5- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, páginas 12 e 13, Edições 70

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3 comentários:

  1. Boa-tarde,

    Moncorvo, era o maior centro judaico dos séculos XIV/XV?
    Os judeus viviam mais agregados ou dispersaram-se por toda a região transmontana? (pelo que sei, houve importantes comunidades judaicas em vilarinho dos Galegos, Carção, Vila Flor, etc.).
    Hoje, ainda é possível encontrar vestígios da influência/legado/influências judaicas nas terras transmontanas?
    Os descendentes transmontanos dos judeus (marranos, cripto-judeus ou cristãos) assumem a sua origem, refugiam-se receando as consequências ou, simplesmente, viraram de página e hoje são o que são, independentemente do que os seus antepassados foram?
    Suponho que uma das principais actividades ligadas à comunidade judaica era a mercantil (almocreves). Estou equivocado?

    Cumprimentos,
    João Moreira

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  2. Que infeliz povo aquele que tem que negar a sua origem. E continua...Esqueceu...Só conheço judeus em Portugal, que se dizem judeus, pessoas de estratos sociais mais elevados. Parte do nosso atraso e pobreza vem de termos vivido este fenómeno, a inquisição, como vivemos e continuarmos por ele dominados. Socialmente pouco correcto ser judeu? Ainda? L.

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  3. João Paulo Filgueiras24 de agosto de 2013 às 20:35

    Sou descendente de judeus de Felgueiras estabelecidos no Cariri Cearense e Sertão Pernambucano, Brasil, ainda hoje praticamos ritos judaicos sem saber ao certo desta origem.

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