segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PETIÇÕES, ALTA VELOCIDADE E GATOS COM O RABO A ARDER enviado por Francisco Alves

Longe de subscrever frases misantrópicas como «Quanto mais conheço os homens mais gosto dos animais» ou «O pior de Trás-os-Montes são os transmontanos», continuo fiel ao que escreveu o velho grego Sófocoles numa das suas tragédias: «De todas as coisas dignas de admiração que há no mundo, nenhuma é tão admirável como o homem», desde que não se encare esse mesmo homem, bem entendido, como rei da criação e predador de tudo o que o rodeia.

Vêm estas considerações a propósito dos cerca de quatrocentos subscritores da petição online que lançámos no DART a favor da paragem do AVE/TGV em Otero de Sanabria, resultado que  contrasta com os oito mil conseguidos por uma outra petição, destinada a condenar a tradição de assustar um gato com o fogo, factos sobre os quais vale a pena refletir.

Antes de prosseguir, convém esclarecer que estou contra o sofrimento gratuito no mundo, seja em seres humanos seja nos seres sencientes em geral, e assim jamais poderei concordar com tradições que se especializaram em fazer sofrer animais, como é o caso dos touros nas touradas, dos galos nas lutas de morte e outras práticas quejandas. E ainda bem que certas tradições desapareceram de vez e outras felizmente se transformaram radicalmente e se adaptaram aos tempos modernos, pois manter certas tradições é manter a barbárie, e esta terá de ser condenada sem apelo nem agravo.



Feitas estas ressalvas e de regresso ao nosso tema, começo por sublinhar que a fraca adesão à paragem do AVE/TGV em Otero de Sanabria não significa que os transmontanos rejeitem esta medida, pois cerca de sessenta subscritores deixaram no campo das observações da nossa petição comentários extremamente animadores que nos dão a força necessária para prosseguir com este trabalho. Mas o que importa salientar aqui é a grande adesão dos portugueses a nível nacional contra a tradição do gato e o desinteresse total por medidas como a da nossa petição.

Assim, e por mais duro que se afigure, parece-nos legítimo concluir que os portugueses estão solidários com os animais transmontanos, mas que se estão nas tintas para os problemas dos humanos que habitam Trás-os-Montes e Alto Douro. Ainda por cima outros factos reforçam esta leitura, tais como a morte da agricultura sem nada em troca, nas políticas das áreas protegidas viradas unicamente para a repressão e para as multas, na retirada do comboio e do avião, etc. etc.

A serem assim as coisas como se nos afiguram, então de pouco nos valerá insistir nos ideais de cidadania e de sonhar com vidas dignas para quem decide deixar correr os seus dias entre os Montes, na designação feliz do meu amigo João Ortega. Mas se a causa do direito à cidadania está condenada ao fracasso, na medida em que a única solidariedade dos portugueses e dos europeus parece ser para com os animais transmontanos, então não será melhor pensar em colocar os nossos ideais ao serviço de outras causas nobres como a de tirar partido desses mesmos animais bravios? Assim, em vez da luta pela dignidade dos transmontanos, não será mais adequado colocar todo o nosso potencial imaginativo ao serviço da criação de Escolas de Cidadania para Animais Bravios, para tornar esta região mais atrativa e mais habitável?

Nesse sentido, não será mal pensado começar por criar uma escola de lobos-guia e de assistência, sendo como é o lobo um animal superinteligente. E desde que se lhe garanta o sustentinho, como sucedeu com o lobo Brenin do filósofo Mark Rowlands, verão como serão exímios ajudantes e meiguinhos para com esses velhos transmontanos curvados já pelo peso dos anos, podendo ainda protegê-los dos larápios que já andam à solta entre os Montes e que até já entram com grande descaro nas próprias casas por tudo quanto é gateira, seja pelos telefones com o assédio publicitário, seja pela janela televisiva com o ataque das chamadas de valor acrescentado.

Uma outra iniciativa interessante será a da criação da Escola de Javalis foçadores, que depressa farão com que os lavradores ponham as charruas de parte, encarregando-se sozinhos de lavrar as hortas, de arrancar batatas e outras tarefas que a arte de foçar com regras poderá assegurar, tais como a abertura de caminhos e limpeza de aceiros, na medida em que os responsáveis pelas áreas protegidas não o fazem nem o deixam fazer.

Outra escola que também terá sucesso garantido é a das Raposas Espertalhonas que serão amestradas para dar uma inestimável ajuda aos lavradores transmontanos, ensinando-lhes as suas astutas manhas com as quais se poderão defender dos trapaceiros, dos intermediários sem escrúpulos, dos funcionários corruptos e demais raptores dos bens alheios.

E uma outra iniciativa para pôr os animais bravios ao serviço da terra transmontana, será a da criação da Escola de Veados Sexys, cujo êxito está desde logo assegurado, sobretudo neste mundo de hoje tão desbragadamente pornográfico e tão pouco erotizado. Ou duvidam da eficácia de um veado na antiga loja da burra, pronto a bramar pelas esguias corças, mal a cama dos donos comece a chiar em cima no sobrado? É claro que estaremos limitados aos finais de setembro quando chega a época do cio. Mas ao menos teremos a esperança de nove meses depois vir ao mundo mais um transmontaninho, com o qual se poderá inverter a tendência para o despovoamento.

Como veem, existem sempre soluções para as realidades mais negras, sobretudo quando se acredita nas próprias capacidades, e assim, mesmo sozinhos não desistiremos de lutar por tornar habitável esta terra, que muitos querem votada ao desprezo ou destinada a turistas ávidos de vidas exóticas.

Francisco Alves

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