quarta-feira, 12 de agosto de 2015

CRÓNICAS DE MOGADOURO - PARA UMA ROTA DO MARRANOS EM TRÁS-OS-MONTES Por: António Pimenta de Castro

           
Freixo de Espada à Cinta
     
Como sabemos, Trás-os-Montes foi sempre um território (como muitos outros no nosso país), com muitos judeus e, após o decreto de expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente judeus em Portugal, o culto manteve-se, sobretudo nas zonas mais afastadas, e/ou perto das fronteiras, como é o caso de Argozelo, Carção, Freixo de Espada à Cinta, Vilarinho dos Galegos, Lagoaça, Bragança, entre muitas outras na nossa região (eu só me estou a centrar na nossa zona). Começa assim a época do criptojudaísmo (ou judaísmo encoberto), ou seja, praticavam o culto judaico às escondidas. Quem não se convertesse “oficialmente”, ao catolicismo teria de sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além. Assim foi, principalmente em Amesterdão, mas também em outras terras que acolheram os nossos homens de negócio ou intelectuais (como Espinosa), levando assim, riqueza e “massa cinzenta” a esses territórios e a decadência ao nosso triste país.

 Quem ficou, oficialmente eram os chamados cristãos-novos, praticando no recato do seu lar, ou no de correligionários, o culto hebraico, em muito segredo. Tudo o que chamasse a atenção aos esbirros da inquisição, invejosos ou ignorantes, foi destruído ou escondido. As rezas começaram a ser feitas por mulheres, a que chamamos rezadeiras, pois as orações eram, na sua maioria feitas e transmitidas por mulheres, pois os homens andavam no comércio (almocreves, peleiros, etc.). Por isso nalgumas orações aparecem “personagens” e palavras que não são genuinamente judaicas… (influência e convivência com cristãos, e não nos podemos esquecer do analfabetismo). Depreciativamente começaram a chamar-lhes “marranos”. Como escreveu o meu amigo João Guerra: “A degradação das comunidades judaicas portuguesas acontece progressivamente, sobretudo a partir de 1536, quando é estabelecida a Inquisição.
      Agora, a sobrevivência das comunidades judaicas, enquanto tal, impunha a preservação da sua religião e identidade, enfrentando e adaptando-se às novas circunstância de perseguição e terror. Assim, os judeus (marranos) portugueses, vivem o judaísmo possível, observado religiosamente na medida que lhes é possível, com um inequívoco sentido de identidade. Este processo passou por uma atitude de comunidade. Foram inventadas formas subtis e engenhosas de preservar e praticar a religião e tradições judaicas, ocultando essas práticas ao mundo alheio, transmitindo-se entre famílias de geração em geração até aos nossos dias.[1]”   
            Após séculos de discriminação, perseguição e tortura, em 1821, a Inquisição foi legalmente extinta, não querendo isso significar que o preconceito anti-judaico, deixasse de existir mesmo em Trás-os-Montes, onde as comunidades “marranas” eram numerosas. O Liberalismo, e mais tarde a República, trouxeram algum alívio ao sufoco psicológico, ao preconceito, à ignorância, mas…mesmo assim, os criptojudeus continuaram no seu secretismo, como se a maldita Inquisição ainda existisse, a mentalidade não muda tão depressa como gostaríamos…Só no século XX se deu uma certa libertação mental e um crescimento da população judaica em Portugal, não só pela vinda de estrangeiros (não nos podemos esquecer de Aristides de Sousa Mendes, entre outros…), à medida que o nazismo e o fascismo se iam instalando, mas, sobretudo, e é isso o que mais nos interessa, pela OBRA DO RESGATE, fundada por um judeu português, o capitão Barros Basto (Bem-Rosh). Esta obra destinava-se a restituir ao judaísmo português a grandeza de outros tempos, ajudando a: “resgatar as suas comunidades do cativeiro físico de dispersão e isolamento do mundo judaico e sobretudo do cativeiro espiritual para onde séculos de perseguições e clandestinidade os haviam atirado (…) A comunidade israelita do Porto foi fundada em 1923 pelo capitão Barros Basto. Também fruto do movimento judaico da “Obra do Resgate”, foram constituídas formalmente nos anos 20 e 30 as comunidades judaicas de Bragança (que chegou a ter uma Sinagoga), Covilhã e Pinhel, as mais importantes, Macedo de Cavaleiros, Castelo Branco e outras, e ainda numerosas juntas judaicas (como, por exemplo, as de Vilarinho dos Galegos e Lagoaça, de quem foi professor o meu saudoso amigo Moisés Abrantes formado na yechiva, leia-se escola, da Sinagoga do Porto) em aldeias e vilas do Nordeste, Douro e Beiras. (…) O infame processo contra o capitão Barros Basto e a perseguição do “Estado Novo” ao movimento da “Obra do Regate”, levou a que nos anos 40 as Sinagogas de judeus marranos fechassem as suas portas, uma a uma, e as comunidades se desagregassem como instituições organizadas.[2]”.
            Atualmente, no Norte a Sinagoga do Porto tem uma “nova vida” e muito recentemente, abriu um Museu Judaico. Nessa mesma Sinagoga, vai ser reaberta uma sala dedicada ao transmontano Amílcar Paulo, a quem se deve muitas obras sobre os marranos transmontanos.
            Não nos podemos esquecer das obras do Abade de Baçal (Vol. V das suas Memórias), do transmontano Amílcar Paulo (cujas origens são de Fornos, Freixo de Espada à Cinta), e ainda do António Júlio Andrade, entre outros, de Torre de Moncorvo (desculpa de Felgueiras, concelho de Moncorvo…), entre outros, sobre o estudo dos “marranos”, em Trás-os-Montes.
            Depois desta longa introdução, nós, no Nordeste Transmontano, devemos explorar esta autêntica “mina” para o desenvolvimento do Turismo Cultural (e não só…), a gastronomia, as rotas de judeus, os centros de interpretação e outros “instrumentos”, para divulgar esta grande nossa riqueza. É ótimo o Museu “marrano” de Carção (que deve ser melhorado…), os futuros “Centros de Interpretação” a construir em Bragança e Torre de Moncorvo, mas não chega. Temos de arranjar “engenho e arte”, para desenvolver e consolidar esta verdadeira riqueza do Nordeste (e não só…, integrar noutros roteiros das Beiras, do Minho, etc., juntos teremos mais força) Mão à obra! Como disse o Poeta: “Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”…      






[1] - João Guerra, na Introdução, página 16, ao livro Os Judeus na Obra de Trindade Coelho, de António Pimenta de Castro, Edição da Câmara Municipal de Mogadouro, Mogadouro, 1998.
[2] - Autor e obra citada no rodapé 1.

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