quarta-feira, 5 de agosto de 2015

L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas - Apresentação



L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas

Ernesto Rodrigues
Universidade de Lisboa

Caros Amigos

Deixei de fazer apresentações públicas de obras e de ser apresentado. Abro esta excepção, porque às memórias felizes nunca podemos dizer que não. Amadeu Ferreira faz parte dessas memórias.
Entro no Seminário de Bragança, com 12 anos, e oiço falar de quem, seis anos mais velho, hiperactivo, procura aquilo que, nessa pequena comunidade intelectual, também eu perseguia: fazer-se um nome. Sou colega de Manuel Ferreira, já então artista, que se renova como a natureza que ele tão bem retrata nestas páginas de devoção ao irmão.
Ao deixar a Casa Amarela, aos 15 anos, em 1971 – que Amadeu abandonava no ano seguinte -, eu trocava jornais de parede ou a stêncil por títulos impressos, não querendo ficar atrás dos mais velhos, de Teologia, que me animavam a colaborar no Mensageiro de Bragança, onde o nosso sendinês já assinava.
Saudou, num encontro de acaso, a minha estreia em livro, em 1973, sendo essa generosidade, nele, um gesto fácil, sincero, sem reservas. Ficou, daí, uma cumplicidade noutros instantes reiterada, até que, já assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dou com ele, em 1990, frente à reitoria, acabava de se licenciar e de encerrar um difícil ciclo de vida, doravante memorada na obra que faz juz à sua grandeza de alma: O Fio das Lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira, escrita por Teresa Martins Marques.
Redobrámos os contactos após 2002, quando nos revimos em tertúlia na quinta da Ribeirinha, Santarém, boleando-me até Oeiras, como de outras vezes faria. E abancámos para almoços regulares a partir de finais de 2009, quando me solicitou prefácio para a tradução de Os Lusíadas. As conversas tornaram-se regulares, os abraços semanais, projectos foram mil e um. À mesa, em sofás, em passeio, também nas longas viagens entre o Nordeste e Lisboa, discorremos sobre livros e autores, sobre as nossas origens e melhorias destas terras. Foi neste quadro que se pensou a Academia de Letras de Trás-os-Montes, a cuja comissão instaladora presidiu, e para cuja primeira presidência me lançou, jantávamos no Solar Bragançano, em 4 de Outubro de 2010.

No dia seguinte, eleitos – ele integrava a direcção, de modo a suceder-me, em 2013 -, subindo as escadas do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, Teresa Martins Marques decidiu, ali mesmo, escrever-lhe a biografia. Mas isso conta ela no limiar de quase 800 páginas, e como, no mesmo restaurante, conheceu Leonel Brito, cúmplices de um projecto que honra ser de excepção que os deuses tão jovem levaram. Esse livro constitui a pedra angular da posteridade de Amadeu Ferreira. Ela só queria que ele ainda o lesse, ou ouvisse ler; assim foi. Hoje, quando se perfazem cinco meses sem Amadeu, celebramos (como se fez em 29 de Julho, dia dos seus 65 anos) a sua presença com arte, que é uma forma de estancar a lava do esquecimento. Dupla celebração, aliás, pois a vegetação da aguarela na mão sábia de Manuol Bandarra invade o cheiro das palavras em português e mirandês.
O jurista que assinou páginas sobre homicídio privilegiado ou valores mobiliários é um técnico, além de vice-presidente da CMVM; o investigador de assuntos regionais, que merecia recolha de dispersos, será pomo de discórdia, debate, afluente, orientação – seja, bibliografia passiva de muitos; o criador literário, em contrapartida, é que pode assegurar o futuro, partindo da edição coerente de 15 anos em livro, próprio ou traduzido, e facúndia de inéditos online. L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas é um aceno dessa urgência maior; é um lembrete, graficamente luxuriante, e ponte para essa margem de incerteza que é a fortuna autoral. Convém arriscar.
Aqui, cumpre distinguir entre um destino mirandês e português. Ainda que aquele idioma se desvanecesse, ficaria um corpus literário grandemente devido ao nosso Amigo, que estabilizou língua tão sobressaltada desde finais do século XIX. Mas seria pouco querer aprisionar Amadeu Ferreira na cerca de uma língua, embora do leite, pois seria diminuir o alcance uma comunhão já atravessando fronteiras. Em 13 de Outubro de 2014, vindo de táxi com o crítico e ensaísta Fernando Venâncio, Teresa e eu ouvimos do seu contentamento pelo poema “As duas línguas”, aqui antologiado, e como ele o estudava com alunos holandeses. Ignorava quem fosse o autor, e seu percurso de vida. Este exemplo mostra uma divulgação feliz, mas aleatória. Ora, com risco de chocar mirandeses, a projecção do nosso Autor exige ser, também, em português, com terceira vantagem: interessar aos teóricos da tradução.
Se escreveu em mirandês peça de teatro em 1975, a estreia em livro, Cebadeiros, de 2000, é unilingue. Comporta alguns dos melhores poemas, agora retomados e bilinguizados, o que é um avanço. Sendo da ordem da língua, dominam o primeiro quarteto, intitulado A Palavra. Note-se que este livro tem, entre dois poemas em prosa que abrem e fecham, quatro secções, e cada uma tem quatro textos, perfazendo 18 poemas. Os relativos à primeira parte são versos-manifesto, sobre que se alicerça qualquer monumento de palavras, e, com maior razão, o contingente, mas não menos digno, monumento mirandês. Um acorde amoroso encerra belo soneto, a que voltarei no final.
As partes seguintes, intituladas O Voo e O Chão, decorrem entre sonhos alados de fim de dia e de vida e a prisão voluntária à terra que nos dá o ser. Salientaria um admirável poema em prosa, “Talvez o tempo”, e “Deixa-me falar-te dos anos”, que é um programa de existência sofrida, solidário com a humanidade milenar e explorada. Notar-se-á esse doce imperativo (“Deixa-te ir”, “Deixa-te andar”) bebido na filosofia antiga – Séneca, em particular, que o acompanhou até ao fim -, que era também maneira de, nos círculos conviviais, Amadeu ferreira levar a água ao seu moinho. Nestes versos, domina acidez de um Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) lido ao contrário no poema “Aniversário”, que começa: «No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto.» Amadeu Ferreira a si mesmo se biografa no dia em que nem celebravam o dia dos seus anos, nem era feliz.
O quarto quarteto, O Riso, opõe leveza, paciência e serenidade à morte, na visita que o sujeito faz a D. Afonso Mendes de Bornes, sepultado no mosteiro de Moreiruola; ensina-nos eu não há que pôr «esperança na dureza da pedra», quando, pelos vistos, só existimos em «voo de beijo» ou de borboleta efémera, «num delicado e delido pergaminho».
Irmana-se, aqui, um projecto de criação e uma filosofia de vida repleta de vicissitudes, remetendo-nos para o poema de entrada, donde sai título do livro. A sobrevivência – e, mais do que isso, a renovação – emerge do que, distraídos, não vemos, ou pisamos tantas vezes, sem nos darmos conta. A erve reverdece: o monumental estiola, desfaz-se. Ser humilde não é ser pequeno, nem mesquinho; a brevidade pode durar mais do que a suposta majestade de Moreiruola.
Esse revivescer, que foi a diligência de uma vida agora celebrada, essa solidão da castanha entre as ervas augurando um nascimento, como lemos no derradeiro poema, revêem-se em analogias fecundas dispersas na meia dúzia de títulos: ninhos, amendoeiras, ameixeira, água «fresca e limpa», isto é, “A eternidade dos momentos”, título que encontramos em Cula Torna Ampuosta Quinquiera Ara / Em Cama feita Qualquer Um Se Ajeita (2004). No texto central, nono, “O poço”, temos a lição do Poeta: ainda que no fundo do poço – na fossa, diríamos -, olhemos para cima, pois «é para esse lado que está o sol e tudo que vale a pena, por exemplo a vida, e a sombra é sempre uma nuvem passageira, por negra que seja» (p. 50).
Andou bem Editor, que falava em comemorar os 65 anos de Amadeu Ferreira; afinal, recebemos um presente do Escritor, que nos desafia a dar-lhe eternidade, conjugando as duas línguas - a ele e aos seus pseudónimos, abrindo-se outro ciclo de vida. O Amigo fica connosco, em memórias felizes, nesse “Olá, meu caro!” com que atendia o telemóvel ou nos abraçava. O Autor exige ser para lá de nós, alargando-lhe a recepção, como se cada um dos depoentes em O Fio das Lembranças fosse gota caída num oceano generoso e, em ecos líquidos, circunferenciasse até à praia de novos leitores.
A eternidade dos outros está em nós, ervas humildes, que desafiam um Céu vazio, em que ele não acreditava. Entre as várias definições de amor que o Poeta nos ofereceu, há um verso aqui retraduzido - «pode ser silêncio que se não dome» - que eu prefiro na versão de 2004: «pode ser um silêncio que se espalhe». Na verdade, mais fiel ao original mirandês, eu traduziria: amor «pode ser um silêncio que se derrame». A obra de Amadeu Ferreira e sua memória (sendo este livro um primeiro sinal) transformar-se-ão, se quisermos, nisto: «um silêncio que se derrame» - em leitura, homenagem, lembrança querida. 

Ernesto Rodrigues   

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