quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A beleza única de um percurso que é preciso aprimorar

Como “A Voz de Trás-os-Montes” em tempos referiu, um trecho da Estrada Nacional 222 (que liga Vila Nova de Gaia a Vila Nova de Foz Coa) foi considerado, por peritos internacionais, “A melhor do mundo para conduzir”: o seu trajeto entre Peso da Régua e Pinhão.
O louvor à EN222 terá tido a ver, em primeiro lugar, com a excelência da paisagem, única no mundo. Mas a eleição por um conjunto de personalidades (um físico quântico, um engenheiro da Fórmula 1, um “designer” de montanhas russas, um especialista de cinética e um geólogo) abarcou a relacionação entre retas e curvas, subidas e descidas, necessidades de aceleração (média e lateral) ou travagem, raio das curvaturas, entre outros vetores que determinaram o “Índice de Condução Ideal” numa escala de 0 a 10 (dez segundos em linha reta para cada segundo demorado numa curva).
Sabendo-se que o resultado dessa eleição suscitou alguma surpresa entre nós, conhecedores desta estrada que consideramos mais ou menos igual a tantas outras da nossa região e a qual até tem conhecido alguns percalços como a derrocada que nela impediu o trânsito durante alguns meses (além de que o seu piso, atualmente, tem sofrido emendas que, apesar de bem calibradas, não deixam de ser remendos pontuais e as bermas não estão limpas, acusando também proeminência de flora desordenada típica das margens ribeirinhas), resolvemos percorrer os vinte e seis quilómetros da ligação de Peso da Régua (medindo o seu início ao quilómetro 131, perto do viaduto sobre o Douro, no sítio onde existiu um posto da extinta Polícia de Viação e Trânsito - ainda lá está, decrépito, por ter sido desativado e desaproveitado) até ao ponto em que se regista o entroncamento desta estrada com a 323 que liga ao centro do Pinhão.

O caminho é percorrido, na totalidade, na margem esquerda do rio Douro, com todas as peripécias que o distinguem e caraterizam: barcos de cruzeiro no rio, pequenas marinas, pescadores, a barragem de Bagaúste, autocarros turísticos e a linha férrea na margem oposta (com túneis elegantemente definidos nas suas aberturas). 
Mas o que mais prende a atenção dos condutores, para além da grande mancha líquida que o Douro é, é o excelso bordado dos socalcos produzidos pelo homem, com as verdes linhas de videiras e os amontoados ramosos das oliveiras, nos declives e nos topos das ondas moldadas pela natureza. São poucas as escarpas (que também as há, mais agressivas e igualmente deslumbrantes) mas abundam os muros de xisto, integrando lances de escadas que traduzem a admirável arte do vitivinicultor em colocar os planos de diferentes níveis em contacto permanente. E as casas, brancas, entre placas de identificação dos solares, das quintas, dos produtos vínicos, umas afastadas das demais, isoladas no meio das videiras em fileiras desenhadas ora para a esquerda ora para a direita, num serpentear que nos causa admiração, e outras encostadas, apoiadas, aparecendo nos pontos mais altos e desdobrando-se em luminosidade que se reflete no espelho do rio largo e manso, parecendo mesmo preguiçoso, como se também as suas águas não queiram andar depressa, tal como as viaturas na estreita EN222, desejosas de pormenorizar os recantos e as vastidões da paisagem dominante.
Placas turísticas indicam os locais onde as pessoas vivem, onde os visitantes se acolhem, onde se provam os vinhos espirituosos da região. Aldeias como Folgosa do Douro e rios afluentes como o Távora. É a “Rota do Vinho do Porto” em todo o seu esplendor.
Nos carros, o volante parece acessório. O automóvel parece andar sozinho, porque os olhos se fixam em mil e um pontos de interesse, ora à direita, ora à esquerda.
E há os vendedores de melões à beira da estrada, uma ou outra peça patrimonial mais ou menos escondida, portões de grande envergadura que dão acesso às quintas. E se os olhos largam em desfilada pela horizontalidade do azimute, também se desdobram do fundo ao cimo, pousando nos picos arredondados que apontam o sol e o azul do céu salpicado por nuvens intensamente brancas.
A Estrada Nacional 222, no convívio das retas com as curvas, com o desenho das inclinações, as acelerações constantes e as travagens suaves e a dificuldade hábil com que os veículos se cruzam, é, então, a melhor estrada do mundo para se conduzir. 
Muitos duvidarão, sobretudo os que mais frequentemente a usam. A verdade é que ainda ninguém contestou o resultado do estudo internacional que assim a definiu. Depois do Pinhão, há Ervedosa do Douro, São João da Pesqueira, Vila Nova de Foz Coa. Em todo o seu esplendor, é uma estrada inserida no Alto Douro Vinhateiro, património da humanidade. Observada de cima e de perto por miradouros (é aqui que esta palavra ganha total dimensão) naturais, como São Leonardo da Galafura ou o São Salvador do Mundo.

Agostinho Chaves

Fonte: http://www.avozdetrasosmontes.com/noticias/index.php?action=getDetalhe&id=11451

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