quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Memórias, por Carlos Sambade

São de filamentos carbonizados as grades desta janela (carregar na imagem para ampliar) mas nem por isso dão lugar a movimento de saída, de vez, tal a carga que por ali continua e perpassa as linhas de fronteira e horizonte. Aqui, na cinza, somos nós e os daquele tempo.
 Há meio século, o sítio da cozinha, nesta casa, continha o fogo moderado. A pedra que sobressai, em cima do lugar da lareira, protegia, do que do braseiro subia, a estrutura do telhado.
 Aqui pernoitaram famílias de pastores, se abrigou o mocho em noites de breu e temporal, primeiros por intervalos e depois na permanência resultante do acomodar do silêncio.
 O lobo saiu dali com o rebanho. A raposa expôs-se até onde lhe coube e abalou também. O próprio homem assou o mocho que se mudara para a falsa noite clara. Não chegaremos ao ponto de admitir que o cordeiro comeu o lobo.
 Cada uma daquelas pedras de xisto foi escolhida, teve aristotelicamente direito ao seu lugar. Houve conversa e tabaco preto, num tempo em que se não ouvia o politicamente correcto. Trabalho galego, trabalho nativo, e, hélas, infantil. Aflições e folguedos tiveram ocasião de se interpenetrarem. Havia jugos pendurados e da encosta fazendo caminho que parecia, em certo momento, o que era preciso que fosse.
 Ir ao campo, quase logo ali, dormir juntos no Inverno e chegados para lá no Verão, ou juntos ao luar.
 Água sob controlo. Lume sob controlo. Chocalhos. Paus de salgueiro. Pedras a jeito. Lenha seca pelo tempo.
 Grandes constipações, catarros e cataplasmas. De tanga, então, só no Verão. Dinheiro era quase nenhum.
 Paraíso? Não. Vida que por ali revolvia, e dia e noite, naturezas com algum sentido,  porventura indiciando já o trágico, gemendo e fazendo gemer se fosse caso disso.
 Revisitar estes lugares é estar hoje, hoje mesmo, no grande planalto mirandês, tão duramente golpeado pelos incêndios, está-se a ver, como o vale e a montanha circunvizinhos.
 São de filamentos retorcidos, mas claros se, por lá, pudermos ir mais além,  os sítios da memória.
 Do Algarve falam, por estes dias, muitos de nós.
 Água salgada para Trás-os-Montes, por favor. Também água doce como certo beijo que demora.
 Nada de brincadeiras e superficialidades. Se tivermos direito predominantemente a isto, que a imagem, a par de outras e de outros lados,  procura sinalizar, então que se instale, nas brechas, o neo paganismo e seja ele a correr com o tal outro neo qualquer coisa que nos atravessa e pelos vistos não resolve os assuntos.
 Que se instale quem quiser e como quiser, se puder. Com ou sem religião codificada. Assim é que não devia poder continuar a ser, ou melhor, a não ser, por estas bandas e nestes moldes.
 Fotografia (obtida em Mós, Moncorvo, em 25 de Julho de 2013), e texto de 1 de Agosto corrente.


Carlos Sambade

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1 comentário:

  1. Quanta verdade neste texto! Era assim, tal qual: de pensamentos e de expressão.
    Obrigada por nos levar a esse tempo.
    Tão duro, único, e do qual guardamos tantas recordações.

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