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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PROVISÃO ,por Carlos Sambade

Esta palavra indicia prudência, acautelamento com o amanhã que é já hoje. Aplica-se no dia a dia do indivíduo e de uma qualquer instituição. E dá-se o caso de se ver aplicada também no Bispado de Bragança e Miranda. Temos sobre a mesa dois desses textos, um de 1888 e outro de 1905. Ambos são da lavra de D. José Alves de Mariz. Vejamos agora o de 1905 e deixemos o de 1888 para uma próxima vez.
Em 1905 houve problemas envolvendo, em certa escala, jovens estudantes do Seminário Episcopal de S. José de Bragança que, alegadamente, se terão deixado enredar em “preconceitos de temores ou receios no apuro prudente das suas vocações para o estado ecclesiastico” de tal sorte que o “halito do espirito das trevas” os leva a virarem-se “contra os seus superiores”. E ninguém parece querer dar mostras de arrependimento, o que leva o Sr. Bispo a emanar o documento a que aqui se alude, dirigido ao clero, aos seminaristas e aos fiéis. Nele se procura a via do perdão. Há, porém, já em cima da mesa uma “sentença de expulsão de alumnos do Seminário”, o que terá levado a que em certa imprensa se acentuassem “infamantes referências” a actos episcopais que eram tema, por sua vez, de “nefandos comicios”.
Esta provisão sai pelo tempo quaresmal que é “de perdão e de clemencia, mas também é de penitência e de sincero arrependimento”.
De que modo pretende o Sr. Bispo de então que o pedido de desculpas, vamos dizer assim, se faça? Pois que seja feito individualmente, por escrito, em papel selado, dando-se nele, nomeadamente, a “justificação da innocencia” e o “protesto de arrependimento”, sendo a correspondência chegada tratada por “uma commissão”.
 Indicam-se ajustamentos no calendário lectivo a fim de evitar que os alunos do seminário que se venham a submeter a este procedimento vejam prejudicada a evolução dos seus estudos na referida instituição.
O Sr. Bispo aproveita o ensejo para agradecer os testemunhos a seu favor por parte de “quasi todos os dignos sacerdotes” da diocese perante os “tristes acontecimentos” e os “tristissimos desacatos”.

Esta Provisão é “Dada na Quinta da Cruz da Bemcanta (nossa residência temporária) sob o Nosso signal e sêllo das Nossas armas, aos 19 dias do mez de março de 1905 – Festa do Patriarcha S. José, padroeiro da Egreja Universal”.
Fotografia e texto de Carlos Sambade

sábado, 29 de outubro de 2016

Vilar Chão, Alfândega da Fé - BRASÃO

Este brasão, que se encontra em Vilar Chão, Alfãndega da Fé, apresenta elmo dextro, não é pleno, em linguagem heráldica, considera-se partido, apresenta um farpão que indicia que não decorre directamente do primogénito e tem simbolizadas apenas e só as armas dos Cabral (as duas figuras) e dos Ferreira (as quatro faixas).
Desde a segunda metade século XVIII que os morgadios foram sendo objecto de atenção por parte do legislador o que culminou com a sua extinção em 1863. A partir desta data, em Portugal as pedras de armas vêem a sua importância circunscrita a um âmbito de preservação da memória já não representando qualquer vínculo como sucedia, de algum modo, até aí.
É assim que tudo aponta para que vários apelidos e famílias possam considerar-se de algum modo ligadas a esta casa em que o brasão se encontra, da actualidade até ao século XVII e tendo em atenção filhos, pais, netos e as vias paterna e materna. Esses nomes de apelido são: Caldeira, Martins, Pimentel, Urze, Tomé, Aragão Cabral, Vilares, Ferreira, Gonçalves, Homem, Ferro, Valente, Fernandes, Carrião, Morais Pimentel, Morais Sarmento e, na linha mais antiga que foi possível apurar no intervalo de tempo acima referido, Damião de Morais, de Castro Vicente, que casa com Maria de Sousa (via paterna); Bernardo Homem, que casa com D. Maria Bernarda de Aragão Cabral, de Chacim (via materna).
Das então vilas e depois aldeias de Castro Vicente e Chacim parece irradiar este fluxo com destino a Vilar Chão, aqui se vindo a radicar as mais das vezes por casamento.
Todas estas famílias estão predominantemente ligadas, no intervalo de tempo considerado e salvo melhor opinião, pelo apelido Morais.
De onde vêm, indo mais fundo, estes Morais? Talvez não seja por acaso que  Alexandre José Ferreira de Aragão faleceu em Santo André de Morais e aí foi sepultado, na igreja, em 12.2.1820. Sua esposa, Delfina Inácia, havia falecido nove meses antes em Nossa Senhora da Assunção de Vilar Chão tendo sido sepultada na igreja desta localidade.
 N. B. As pesquisas que conduziram à elaboração deste texto foram feitas em Bragança, nos arquivos Distrital (agradecendo a prontidão do atendimento, que foi presencial) e do Paço (com os agradecimentos ao Dr. Prada pela solicitude e disponibilidade de horário e ao meu amigo de longa data Valdemar de Deus pela colaboração de sempre) e em Alfândega, em arquivo actualmente sob a responsabilidade da Câmara Municipal (com os agradecimentos aos que me conduziram até lá e a quem, de direito, me facultou os antigos livros de registo de propriedades para consulta presencial).
 Vilar Chão, Verão de 2013

Carlos Sambade

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Memórias, por Carlos Sambade

São de filamentos carbonizados as grades desta janela (carregar na imagem para ampliar) mas nem por isso dão lugar a movimento de saída, de vez, tal a carga que por ali continua e perpassa as linhas de fronteira e horizonte. Aqui, na cinza, somos nós e os daquele tempo.
 Há meio século, o sítio da cozinha, nesta casa, continha o fogo moderado. A pedra que sobressai, em cima do lugar da lareira, protegia, do que do braseiro subia, a estrutura do telhado.
 Aqui pernoitaram famílias de pastores, se abrigou o mocho em noites de breu e temporal, primeiros por intervalos e depois na permanência resultante do acomodar do silêncio.
 O lobo saiu dali com o rebanho. A raposa expôs-se até onde lhe coube e abalou também. O próprio homem assou o mocho que se mudara para a falsa noite clara. Não chegaremos ao ponto de admitir que o cordeiro comeu o lobo.
 Cada uma daquelas pedras de xisto foi escolhida, teve aristotelicamente direito ao seu lugar. Houve conversa e tabaco preto, num tempo em que se não ouvia o politicamente correcto. Trabalho galego, trabalho nativo, e, hélas, infantil. Aflições e folguedos tiveram ocasião de se interpenetrarem. Havia jugos pendurados e da encosta fazendo caminho que parecia, em certo momento, o que era preciso que fosse.
 Ir ao campo, quase logo ali, dormir juntos no Inverno e chegados para lá no Verão, ou juntos ao luar.
 Água sob controlo. Lume sob controlo. Chocalhos. Paus de salgueiro. Pedras a jeito. Lenha seca pelo tempo.
 Grandes constipações, catarros e cataplasmas. De tanga, então, só no Verão. Dinheiro era quase nenhum.
 Paraíso? Não. Vida que por ali revolvia, e dia e noite, naturezas com algum sentido,  porventura indiciando já o trágico, gemendo e fazendo gemer se fosse caso disso.
 Revisitar estes lugares é estar hoje, hoje mesmo, no grande planalto mirandês, tão duramente golpeado pelos incêndios, está-se a ver, como o vale e a montanha circunvizinhos.
 São de filamentos retorcidos, mas claros se, por lá, pudermos ir mais além,  os sítios da memória.
 Do Algarve falam, por estes dias, muitos de nós.
 Água salgada para Trás-os-Montes, por favor. Também água doce como certo beijo que demora.
 Nada de brincadeiras e superficialidades. Se tivermos direito predominantemente a isto, que a imagem, a par de outras e de outros lados,  procura sinalizar, então que se instale, nas brechas, o neo paganismo e seja ele a correr com o tal outro neo qualquer coisa que nos atravessa e pelos vistos não resolve os assuntos.
 Que se instale quem quiser e como quiser, se puder. Com ou sem religião codificada. Assim é que não devia poder continuar a ser, ou melhor, a não ser, por estas bandas e nestes moldes.
 Fotografia (obtida em Mós, Moncorvo, em 25 de Julho de 2013), e texto de 1 de Agosto corrente.


Carlos Sambade

Reedição de posts desde o início do blogue.

terça-feira, 25 de março de 2014

TABELLA AUTHENTICA

É em 13 de Dezembro de 1888 – “Está a findar o anno, carissimos diocesanos” – que o Sr. Bispo de Bragança e Miranda, Dom José Alves de Mariz, faz sair uma “Provisão” em que, após considerações apropriadas, se encontra a “tabella” que a seguir se indica.
1º - Todas as pessoas, tanto homens como mulheres, sem excepção das casadas, que tiverem quatrocentos mil réis de renda annual (e d’ahi para cima), provenientes de mercancia, officio, cargo publico ou bens de raiz, tomarão em cada anno, e cada um por si, uma Bulla de …… 300 rs.
2º - Se porém tiverem duzentos mil réis dessa renda (e d’ahi para cima, até à quantia exclusivamente de quatrocentos mil réis), tomarão da mesma fórma em cada anno, e cada um por si, uma Bulla de…… 200 rs.
3º - Todas as mais pessoas, de qualquer qualidade e condição que sejam, homens e mulheres, tomarão em cada anno, e cada um por si, uma Bulla de…… 80 rs.
4º - As pessoas, porém, que forem tão pobres, que o seu sustento depende de esmolas dos fieis, do ganho das suas mãos, ou das mercês de seus parentes, - os filhos familias que não tiverem a sobredicta renda propria e separada da de seus paes, - os creados, obreiros e jornaleiros que fóra do seu salario ou jornal não possuirem outros meios de subsistencia, - tomarão em cada anno, e cada um por si, uma Bulla de…… 40 rs.
5º - Por cada Bulla de Defunctos, qualquer que fôsse a renda ou qualidade d’elles, e quaesquer que sejam os dos que a tomarem, se dará a esmola de…… 50 rs.
6º - Por cada escripto de Jubileu de seis mezes, qualquer que seja a renda e qualidade das pessoas que o quizerem tomar, dará cada um por si a esmola de…… 20 rs.
7º - Pela Bulla de licença para se dizer Missa em qualquer oratório privado, durante cada anno da publicação da Bulla da Santa Cruzada, se dará em cada anno a esmola de…… 480 rs.
8º - Quando a composição versar sobre quantia que não exceda a cem mil réis, se tomará por cada cinco mil réis uma Bulla de Composição de…… 100 rs.
9º - Quando porém a referida quantia exceda a cem mil réis, até duzentos mil réis, se tomará por cada cinco mil réis duas Bullas de Composição, sendo cada uma de…… 100 rs.
10º - Qualquer, enfim, que seja a quantia que, passando de duzentos mil réis, haja de ser objecto de composição, será arbitrada a esmola em cada Diocese pelo Ex.mo Commissario Geral da Bulla da Santa Cruzada.

Estas “Bullas” autorizavam, designadamente, o uso de “temperos de unto e gordura de porco, nos dias de jejum e abstinencia de carnes durante um anno, que começará a contar-se desde o presente dia”, registando-se, todavia, algumas “restricções”, entre as quais a “quarta feira de Cinza” e “os tres ultimos dias da Semana Santa”. A cláusula de restrição 4ª, por exemplo, indica que, “Em toda a Quaresma, sem exceptuar os domingos, é inteiramente prohibida a mistura de comidas de carne e peixe na mesma refeição”.
Em boa verdade, estas disposições não têm o cunho exclusivo desta diocese, envolvem, designadamente, o Sr. Núncio Apostólico.

Texto e fotografia enviados por Carlos Sambade

sábado, 15 de março de 2014

Guerra Junqueiro na óptica de Leonardo Coimbra

Há, para este autor, fases na vida do escritor e poeta nascido em Freixo de Espada à Cinta, designadamente a do polemista (Pátria, A Velhice do Padre Eterno, A Morte de D. João), a do “repouso lírico” de Os Simples e a da “reconstrução espiritualista” das Orações (à Luz, ao Pão).
Para Leonardo, Junqueiro é, durante grande parte da sua vida, um “optimista imanentista e naturalista”, acredita no “valor infinito da ciência”, só deixando de o ser pela “experiência da dor pessoal”. Da filosofia interessava-lhe a metafísica, tinha em preparação o tratado “Unidade do Ser” em que caberia um “panteísmo espinosista, penetrado da vida com que o evolucionismo naturalista o poderia encher” .  Em suma, para o filósofo do Porto, o Junqueiro eterno é o de Os Simples, “pela sua bondade comunicativa, pela sondagem até ao infinito de cada alma, até ao ponto onde começa o outro mundo, tanto mais eterno quanto mais se desprende de si e se entrega ao “fervor dos humildes”, chegando o filósofo ao ponto de afirmar que quase toda a outra produção do escritor e do poeta é “como a escória saída da fusão espiritualista da sua alma”, algo que “sobrenada” e dessa forma é visto mais facilmente.
Há em Os Simples uma certa alma, a de um certo povo e também a alma da terra que se faz, no mínimo, paisagem. Aqui, quanto mais se dá o afastamento do “intelectualismo” mais se nota a aproximação de uma “simpática vibração” em que “o Poeta irá viver mentalmente a vida dos simples, mas com a contradição na alma, num permanente esforço de só querer sentir com eles e como eles, adormecendo o pensamento”.
Leonardo vai debruçar-se sobre vários aspectos de Os Simples, a saber: a Moleirinha (o envelhecimento no sossego do dever cumprido), o Cadáver (a cinza em associação com o princípio), as Ermidas (pontos do Alto em direcção ao mistério que em boa parte a infância sempre encerra), o Pastor “de rebanhos de almas pelo azul profundo”, o Cavador (a dureza do trabalho), os Pobrezinhos (obsessão um tanto estranha de um “economicamente homem de cabedais”), o Campo Santo (luar, luar), enfim, Canção Perdida “no espaço, pedindo lembrança e companhia”.
 Coimbra, Leonardo, Guerra Junqueiro – Nota prévia, organização e fixação do texto de Paulo Samuel, Porto, Lello Editores/Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto, 1996.

Texto e foto enviados por Carlos Sambade 

terça-feira, 11 de março de 2014

O rebentar da primavera no outono do Joca,por Carlos Sambade

O mundo comporta os planos A, B e C. Muitos dos que têm ideias finam-se por excesso de velocidade e correlativa falta de força, bebida desregulada sem ter, sequer, de se saber o motivo, ainda que outros caiam pelo vencer puro e simples do quotidiano. Agora, porém, é o bom tempo que dá mostras de si.
Rebenta a natureza que do sol faz corpo. Muita flor que bordeja caminhos vai, por certo, escapar ao herbicida que, já não sendo assim tão barato, é preciso canalizar para o âmago das culturas tradicionalmente salvaguardadas e limpas do que não preste. Assim se pensa.
Com a força de cada primavera a vida acontece de modo unânime, ainda que haja situações que permanecem em modo de espera e outras a fazerem barragem ao que se apresente claramente invasivo. Até que chegue o jardim francês.
Há espécies protegidas e outras que vêm do princípio do mundo e se dão bem juntas e a tender sempre para o mesmo.
Tudo o que é efémero sai que nem borboleta, dura por vezes o instante do pequeníssimo voador que aprecia, incerto, o modulado quente do digital.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O antepassado transmontano de Jorge Luís Borges será de Mós?por Carlos Sambade


Jorge Luís Borges e a "embaixada"moncorvense (Lisboa 1985)


Acaba de me chegar, do meu conterrâneo, parente e amigo de longa data Valdemar de  Deus, a transcrição por ele feita, hoje mesmo, de um assento de baptismo que pode ser o do antepassado que prende o concelho de Moncorvo ao escritor e poeta Jorge Luís Borges.
Quererá alguém dar alguma achega para este assunto?
Claro que somos o que fizermos de nós, pelo que conseguimos mostrar no trabalho e no lazer e essa é a história de cada um. É assim que Jorge Luís Borges pertence à Argentina e, tal como o Papa, ainda que em campo diferente, pertence ao mundo.Temos tendência a considerar como parte da árvore a raiz que, de um modo geral, é subterrânea e se esconde da luz para que esta aconteça, já para não referir a semente e o gene que a olhos comuns têm dimensão insignificante porém essencial.Não há vantagem em escancarar e desse modo exacerbar e distorcer o que antes de nós foi tempo e vida, hoje, numa época em que tudo cai (na exibição).
Neste caso concreto, porém e, sabendo, como todos sabemos, que Borges procurou visitar Moncorvo quando esteve em Lisboa, parece pertinente darmos-lhe este dado para que, em Outro Mundo, dele tenha conhecimento. Pela internet, que chega a todo o lado.

Carlos Sambade
-
Mós, Moncorvo

Batismo nº. 1356 de Francisco  Borges

Aos vinte e cinco dias do mes de Dezembro de mil e Sete centos e sete, eu o padre João Domingues Valverde cura nesta Igreja de Nossa Senhora da Anunciaçam  da vila de Mós, baptizei Solenemente e pus os Santos oleos a Francisco filho de Diogo Rodrigues Borges e de Suamulhder Catherina Domigues Bieita. Foram padrinhos o Padre António Martins Valente e Tereza Mendes desta villa todos, e por verdade fiz este assento que assinei dia mes e era
ut Supra.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sulcos no Cabeço (em Mós, Moncorvo),por Carlos Sambade

Grandes rodas de madeira recobertas com grossos aros de ferro fizeram pressão continuada, dias e dias, anos e anos, sobre o xisto. É provável que tenha havido uma sugestão prévia, a braço de homem. Tudo isso se deu, principiou há séculos. Adveio o abandono, a erosão instalou-se pelo todo.
 Cargas de lenha, mais raramente madeira, produtos dos prédios hoje simplesmente ditos rurais, pedra para obras, telha fabricada, algum aço grosseiro, quem sabe o quê. Estrume, por certo que mais na descida. O gado ia por seu pé, muito raramente ao colo. E as pessoas a pé ou a cavalo.
 Agora há que ver também o entre-eixo, a giesta / gesta que permanece. Ressequida, é certo, mas ainda não consumida. Não que seja inconsútil mas, como se agarrou a um pouco de fresco, ali resolveu estacar. Foi poupada. Miragem, qual negativo de pequeno oásis, na fraga, ter-lhe-á sido dado esse prémio. Ficas aqui para te verem. Pelo menos até  à chegada das chuvas e ao premente efeito da ventania. De maneira que não dês pena, tu que nasceste para o lume.
Foto e texto de Carlos Sambade

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Por esta calçada se ia de Mós a Freixo, por Carlos Sambade


 Murça tem a porca, o Porto tripas e contas à sua moda. Aqui, porém, há uma calçada, um caminho feito, composto de propósito, há séculos, para dali não arredar perante a borrasca derivada dos temporais e dando melhor andadura principalmente ao animal de carga e tracção.
Tudo isto é quase nada se comparado com os feitos de Alexandre Magno que representa o cúmulo da heroicidade e largueza de vistas sendo que, para outros, tende a roçar a demência e a crueldade (ainda que se fizesse acompanhar de livros que consultava em pleno campo de batalha, talvez no vagar de algumas noites).
Pelo prisma da distância (se no tempo se no espaço não é, em bom rigor, o mesmo) posicionamo-nos para aproximações. Focalizando o perto precisamos, por outro lado, de fazer coincidir, ou esperar que coincidam uma série de aspectos.
A fotografia no geral engana quem quer ser enganado, tem essa vantagem.
Pedras. Resquícios de terra. Pó ligeiramente acamado ou então agarrado como uma lapa. Cinza.
Com o passar do tempo quietude e perturbação. Pelo fogo mas também, numa ocasião outra, pelo dar a ver.
Indo por ali abaixo chega-se a um fundo e, antes de se passar sobre uma ponte naturalmente baixa há a chamada estalagem, bem perto um moinho, o da ponte (relaciona a antiga passagem sobre a ribeira, levada pela força da água, há 55 anos).
Património material e imaterial. Matrimónio, para quem se ache assim casando.
Quem assim fala é de Mós. Se ia de Mós a Freixo, regista-se em título, como se ia de Freixo a Mós, para além e para aquém também.
Cada um pára, acentua a sua terra e, como soi dizer-se, já é um pau. Estamos precisando de assim ir procedendo, de quando em vez.

Mostra-se também o caminho novo, um pouco em baixo, ainda assim traçado na encosta, quase paralelo à calçada. Com atalhos para algures e para nenhures parece querer perpetuar a via agora  praticamente reduzida a cintura da montanha em si mesma. 
Foto e texto de :
Carlos Sambade

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Aqui, em Mós, por Carlos Sambade














Agora chove mas, no Verão passado, houve dias e noites de muito calor.
O fogo, que nunca ninguém sabe como começa, principiou nas margens do Sabor e alastrou por freguesias de vários concelhos.
Aqui, em Mós, Moncorvo, acabou por deixar mais à vista os caminhos.
Entre o rasgar de um e do que ao lado se apresenta há um intervalo de tempo de séculos.
Dum modo geral passa lá, hoje, muito pouca gente.Tirando os dias de montaria ao javali e mais um ou outro, vai um de cada vez, espaçadamente, ver o seu prédio situado mais além.
Nem sempre foi assim. Os carros de bois  deixaram os sulcos bem marcados na pedra do Cabeço. 
A Calçada medieval foi implantada com mestria.
Esta chuva está a lavar a cinza e é tempo de os fotógrafos e outros estudiosos irem ao terreno. Pode ser que haja gravuras. Fica a sugestão.

Texto e fotos de Carlos Sambade

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Piconés,por Carlos Sambade

O Piconés .Foto de C.Sambade
E se lhe sai ao caminho um ladrão, o que faz, senhor bancário? Nunca na vida. Atiro-lhe. Chegava sempre de noite, pronto para levar as economias do emigrante para a terra natal. Todos os meses.
 Foi ao cabo de sete meses que António juntou para comprar uma casa em Mós, Moncorvo, a quem sabia que precisava de dinheiro para se desempenhar dos encargos com os estudos dos filhos. “Para descarregar uma besta à porta vejo-me atrapalhado, tire lá cinco contos”.
 Em França o dormir era em chambre, de passagem, ainda que escolhida pelo próprio. Em Portugal era para ficar.
O trabalho era o trabalho. Chegou a juntar três fardas completas. Enquanto houvesse franceses para os lugares de chefia não entravam portugueses. Alguns bem queriam e chegavam a fazer manigâncias para o conseguirem.
 Mudou de patrão por que quis. Sempre a subir até que a mulher deu guerra por causa da filha que tinha ficado em Portugal e ao cabo de cinco anos vieram embora. Com pena dele. A França naquela altura estava bem orientada, no seu entender. Ali havia a lei. No tempo do gelo tinham seis horas por dia garantidas pela “segurança”.
 Tem hoje setenta e sete anos. Ainda gosta de trabalhar, para si e para outros, manejando o serrote de limpa de arvoredo, a fouce para a erva, a calagouça para as silvas e o seu pulverizador, que é dos bons.
 Já na França lhe diziam que Piconês trabalha melhor que Fernandês (sic).
Carlos Sambade

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ronda das adegas, em Atenor, Sendim, Miranda do Douro, por Carlos Sambade

Nestes, dois, três dias sem pulseira (a preço simbólico) o visitante não entra na aldeia de Atenor e compreende-se. De um modo geral também não passam veículos automóveis, há lugar para estacionar por ali em redor.
São mais de vinte pisos térreos, decorados a feição, vendo-se o cuidado de manter, no espaço e na placa identificadora, em todos eles, um padrão que lembra o que eram, casa de, curral e curralada, loja, adega, forno, corte, lagar, soto, enfim, um secretariado.
Tomo conhecimento desta iniciativa anual através de um vizinho de há vinte anos. Nós vivemos habitualmente em prédio urbano e nele, por uma só entrada e subindo em um de dois elevadores, passam diariamente mais pessoas do que as que vivem habitualmente em Atenor. Porém, nestes dias de Ronda das adegas passam por aqui milhares de pessoas algumas das quais de Zamora e de outras regiões do país vizinho. Que se passa aqui? Não perguntei, deduzo pelo que li e pelo que vi. Quero crer que tudo ou quase tudo se deve ao facto de nesta aldeia estar sediada a AEPGA, Associação para o estudo e protecção do gado asinino.
Uma pessoa nem faz ideia de quantos asininos havia por exemplo há cerca de um século mas sabe-se (tenho na minha frente um estudo de há noventa anos, de Armando A. Martins, Os asininos no distrito de Bragança), que eram larguíssimos milhares, uma média de 2100 por concelho, nesta região.
Grandes serviços prestou este animal, tão mal visto porquanto ninguém gosta de ser apelidado de burro. Chegará o tempo, e hoje chegou, em que com L Burro i L Gueiteiro vamos melhor do que íamos sem eles. Comendo e bebericando, com espaço nem sempre o mesmo, tempo nem sempre o do relógio e moderação nem sempre a do aperto, a festa da vida acontece, assim a possamos fruir em muitas e nobilitadas estações.
Texto e fotografias de:
 Carlos Sambade

sábado, 9 de junho de 2012

A propósito de uma fotografia do Prof.Doutor Santos Júnior


Estas fotografias (uma delas, a mais antiga, da autoria do prof. Doutor Santos Júnior e já tornada pública pelo autor deste blogue) dão conta, de certo modo, de mudança e permanência.
Talvez por serem mais pequenas (muito embora apresentem canelhas e janelos que podem equivocar o visitante, como que sugerindo que não é ali), as aldeias são alfobres a que vale sempre a pena atender. Aparentemente deixados para lá, como parece ser o caso de Mós, em parte por não estarem na passagem e no que está a dar, se não tiveram grandes oficinas foram espaço e tempo de oficinantes em torno do mundo agrícola e caseiro. Houve sapateiro, alfaiate, albardeiro, cesteiro, ferreiro, latoeiro, fora os ambulantes, tendeiros, tocadores e comedores de tudo um pouco que foram recuando e desaparecendo das vistas. Ceifeiros e ceifeiras com joelho mas não de joelhos, merendas a condizer, água fresca conservada no cântaro de barro e ainda assim à sombra, tempos, azáfama e os consequentes vagares. Nada de plástico, então. Não seríamos justos se não referíssemos as novas existências e algumas que permanecessem, das carrinhas que apitam e vendem víveres aos modos locais de trabalho e lazer nem todos acantonados em redor do Lar. Construção para a sazonalidade. Pão. Algum queijo, azeite e vinho. A maré das colchas parece ter passado em parte pela agilidade dos dedos ser inexoravelmente menor e a universalidade do design não ter rasgado por aqui portas novas.
A imagem mais antiga, aqui mostrada, é dos anos 40 do século XX, reconhecendo-se na fotografia a já falecida Beatriz de Deus (nascera em 1900) e uma sua sobrinha que vive em Mós. As outras foram obtidas pelo autor deste texto, há escassos dias, no mesmo local daquela.
Deve notar-se que a casa contígua à que aparece em primeiro plano na fotografia mais antiga, onde terá residido um abade e que tinha no seu interior cantarias trabalhadas e um tecto «em masseira», em castanho, já não existe, porquanto foi preciso alargar a boca da praça, ainda não há muitos anos, para facilitar a circulação de veículos de e para o outro lado do povo.
Fica-se com a ideia, não só na mirada e na miragem em torno das aldeias mas também no que às grandes urbes diz respeito (embora nestas a dinâmica do dia a dia seja tal que depressa as coisas entram, são assimiladas e segue-se, sabendo-se, embora, que há gente só) que o procrastinar é o nosso fado maior. Se assim fosse, apenas, poderíamos até beneficiar, na alma, do transporte de um certo poder encantatório e ficar por aí. Talvez até seja isso, mas a gente, mais tarde ou mais cedo, tende a agir, para aqui e para ali, e toca a arquitectar, havendo lugar a rompantes, em ordem a larguezas outras, que se faz tarde. Então, quando se dá conta, surge a cidade nova de vitalidade lassa.
Vem aí a Selecção. E depois o Verão. Santos populares. Cair da folha. Inverno. Recolhimento da natureza. Primavera que tudo promete e não esconde a enorme fragilidade que em tudo há. O ciclo sempre se renova.

Carlos Sambade

Nota: Para abrir a página(ampliar as fotos), clique no lado direito do rato ;abrem as instruções, e depois clique em abrir hiperligação.
As fotografias a cores foram enviadas pelo autor do texto.
Nota:O título é da responsabilidade do editor