segunda-feira, 29 de agosto de 2016

ÁGUA ÁGIL, PEDRA ESTÁVEL,por A M. Pires Cabral



Daqui, destas alturas puríssimas, disponho-me a guiar o - visitante, turista acidental ou metódico, não por terras, mas por gente de Trás-os-Montes, o que bem vistas as coisas, acaba por ser uma- e a mesma coisa, porque em nenhuma outra parte homem e lugar se soldam tão íntima e prodigiosamente. Disponho-me a dizer-lhe coisas elementares: quem somos nós, trasmontanos, o que somos, que fogo ou que cinzas nos distinguem dos demais.

Uma propedêutica proveitosa no exercício de ver, ouvir, sentir e cheirar a terra no seu lugar próprio e a gente no seu habitat natural.
Falo com a experiência, a autoridade e o orgulho - porque não? - de quem assumiu a permanência na terra, para o bem e para o mal. Aqui e agora o Nordeste assumido (...), escrevi em tempos mais bravios, mas não menos generosos. Hoje escreveria o mesmo. É aliás o que faço neste momento por outras palavras, igualmente doloridas e angulosas.
E todavia não tenho muito que dizer. Nós, trasmontanos, não somos gente de muitas falas, aprendemos a circunspecção com o grande silêncio dos campos.
Credenciais? Nasci aqui, assisto ao grande espectáculo telúrico e humano de Trás-os-Montes há mais de cinquenta anos e há quase outros tantos que amorosamente cismo nele - credenciais bastantes, parece-me, para ousar uma leitura da identidade complexa, impetuosa, atormentada e excessiva do povo que somos, feita de heroísmos e martírios sem nome.
Ninguém espere, obviamente, uma leitura fria e impassível, porque a frieza e a impassibilidade são-me felizmente vedadas quando falo de Trás-os-Montes.
Nós, trasmontanos, somos e agimos determinados por dois impulsos anímicos, simultaneamente contraditórios e complementares.

Antes de tudo, somos e agimos determinados por um forte sentimento de individualismo. É o elemento da demasia, da impulsividade, da arrogância, da valentia, da obstinação. É também o cordão que nos prende à terra e nos faz amá-la com sofreguidão, defendê-la com ferocidade. É ele que nos mete nas unhas o sacho com que abrimos o verde ao vizinho que nos roubou a vez de água na horta ou nos mudou o marco no extremo da embelga. É gerado pela abastança estival, pela concepção frumentária da terra e pelo deslumbramento da sua contemplação e da sua posse, e gera por seu turno, coisas como o minifúndio, a desconfiança do associativismo, a resistência ao emparcelamento, a auto-suficiência, a aptidão para os sete ofícios, as poucas palavras - tudo afinal o que significa a prevalência do eu no seu diálogo com o tu.
Somos e agimos, em segundo lugar, determinados, por um não menos premente instinto comunitário. Assim como o anterior era o elemento do excesso, este é o elemento da contenção e também da solidariedade. É ele que nos aproxima do outro e impede que o nosso individualismo degenere em egoísmo. É gerado pelos medos ancestrais: medo da fome, da miséria, da doença; do beleguim, da solidão, da intempérie, do lobo - numa palavra, pelo desconforto invernal -, e gera por sua vez práticas fraternas de vida, estruturas gregárias de sobrevivência, corno as vezeiras do gado, os fornos, forjas e moinhos colectivos, o boi e as lamas do povo no Barroso, as retadas na Campeã, a torna-jeira por todo distrito de Bragança. O eu retorna ao nós, o outro ganha dignidade de embarcado nos porões da mesma barca, ombro com ombro.
Esse individualismo e esse comunitarismo essenciais encontram expressão nos dois brados que mais fielmente nos definem, mesmo quando as circunstâncias os parecem desmentir ou quando os julgamos (ou nos julgam) retórica gratuita, afago do ego colectivo. Assim, o individualismo desemboca no brio da independência expresso na fórmula Para cá do Marão mandam os que cá estão, e o comunitarismo desemboca num impulso de hospitalidade expresso na fórmula Entre quem é!
Individualismo e comunitarismo são os dois pólos sobre que gira a nossa identidade, os dois outros nomes do verão e do inverno. E é das proporções com que em nós estão presentes esses dois impulsos primários, ou do equilíbrio - inconsciente, claro - a que os sujeitamos, que se produz a síntese que nos individualiza, trasmontanos, face aos demais. Para incurtar razões: o sacho que erguemos em cólera contra as costelas do vizinho que nos afronta é o mesmo, afinal, que erguemos em boa paz e entreajuda contra os torrões da sua leiva nas vessadas de Maio.



Mas há mais Nós, os excessivos trasmontanos; nascemos excessivamente longe. Um rio e uma cadeia montanhosa separam a nossa terra do resto de Portugal. E, nós somos esse rio, feito de mil rios riachos; e essa montanha, feita de mil terras e colinas. Basta ter olhos para ver. O rio: a água rumorosa e ágil. A montanha: a pedra estável e grave. A água - aventureira. A pedra - taciturna. Água e pedra: nós: os andarilhos das sete partidas e os obstinados servos da gleba.
Água e pedra. Ambas as coisas somos em potência, nascidos de uma terra que só muito rogada se desentranha em frutos. A terra dúplice: terra de vinho, terra de água, terra de azeite, terra de pão, terra de luz, terra de verdade - terra para toda a fome e toda a sede do homem. Mas terra também de horizontes austeros, imutáveis, opressivos, que asfixiam sonhos e incitam à retirada.
Porém esta terra, conjuro-vos a rendê-lo, é como uma segunda pele que nenhum de nós jamais despiu nem despirá de todo. Como podia isso ser? Está presente em cada átomo do nosso corpo e mesmo se a neglicenciamos, embrenhados nas agruras da diáspora, ela acaba por se fazer notar quando menos esperamos, inopinada e leve como as recordações de infância. Nascemos com ela agarrada a nós, trazemos as unhas sujas dela, os olhos namorados dela. É-nos inevitável. E esta inevitabilidade a todos obriga. Obriga os que imitaram a pedra e a vivem por dentro, e obriga os que imitaram a água e a vivem de fora.
Isto é: os que a amam em presença e os que a amam em memória.
O que outros têm dito com as graves, certeiras palavras da ciência, tentei dizê-lo eu aqui com as palavras lábeis da poesia e da emoção. Ciência e poesia (que é como quem diz, cabeça e coração) falam quase sempre por bocas distintas, mas - louvado seja Deus! - algumas vezes acertam dizer o mesmo.



A M. Pires Cabral


Guia de Portugal, do semanário«Expresso», número dedicado a Trás-os-Montes (texto “Água Ágil, Pedra Estável”);
Fotografia de Lb

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1 comentário:

  1. António Manuel Pires Cabral nasceu em Chacim, antiga vila do concelho de Macedo de Cavaleiros, em 13 de Agosto de 1941. Os seus Pais, Manuel do Nascimento Pires Cabral, farmacêutico, e D. Maria de Jesus Terra Cabral, dona de casa, eram naturais, respectivamente, de Alvites, Mirandela, e de Peredo, Macedo de Cavaleiros. À época seu Pai explorava uma farmácia em Chacim.
    Tem dois irmãos mais velhos: Manuel Joaquim Terra Pires Cabral, médico nefrologista em Coimbra, e Rui Alberto Terra Pires Cabral, engenheiro técnico agrário em Macedo de Cavaleiros.
    Com pouco mais de um ano de idade veio para Macedo de Cavaleiros, onde seu pai adquiriu entretanto uma farmácia. Aí viveu a sua infância e adolescência, e, quando os estudos em Coimbra e a profissão de professor o afastaram da “sua” vila, aí voltou sempre em tempo de férias e continua a ir, quando tem oportunidade.
    Fez em Macedo de Cavaleiros a instrução primária e o curso geral dos liceus, este no já desaparecido Externato Trindade Coelho. O curso complementar dos liceus foi já feito em Coimbra, em cuja Faculdade de Letras se licenciou em Filologia Germânica, em 1965. Nesse mesmo ano — ano da morte de seu Pai — iniciou a sua carreira de professor no próprio externato de Macedo de Cavaleiros que frequentara como aluno. Passou em seguida (1968) para a Escola Industrial e Comercial de Bragança e depois (1970) para a Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, onde fez o estágio pedagógico e exame de estado. Segue-se uma estadia de três anos na Escola Industrial de Torre de Moncorvo, na posição de director, que acumulava com a de director da Escola Preparatória Visconde de Vila Maior, da mesma localidade. Entretanto concorrera a professor efectivo do ensino técnico sendo colocado na Escola Comercial e Industrial de Vila Real, mantendo-se contudo em Torre de Moncorvo em regime de comissão de serviço.
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