quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bragança - Casamento de D. Pedro e D. Inês de Castro

Painel (detalhe) no exterior da Igreja de S.Vicente
Corri à igreja, envergonhado de tocar naquele tesouro. O seu a seu dono. À porta, um lacaio reconheceu-me e chamou senhora, que me reteve na capela lateral, antes de conduzir à presença daquela visão. Sentia-me fora de mim, sem peso na mão direita, incapaz de bulir. E, da cabeceira de igreja que o povo também diz de Santo Cristo (como se nós, filhos de Deus, ignorássemos quão santo Cristo é), uma voz, orvalhada de incenso, deslizou pela nave rectangular:
− Adivinhaste o meu nome. É sinal de feliz augúrio. Agradeço as boas-vindas.
E voz mais próxima, da senhora que me tinha pela mão, acrescentou:
− Vai, vai embora, e não contes nada.
Vi as mãos de Inês nas mãos do príncipe, que um ministro abençoava. Desfez-se nuvem de espanto, quando já sussurravam sins e palavras muito de dentro, ele, primeiro, e logo ela. Benzidos os anéis, Pedro correu-o em três dedos de Inês. Quedou no anelar da mão esquerda. Inês correu-o em três dedos de Pedro. O sacerdote uniu-lhes as mãos. Feito esse recebimento, olhando-se em inteligência só deles, deram um beijo na boca. Podiam, agora, fazer maridança.
Vi-me saindo, não sei como, já o celebrante se desparamentava, a caminho da sacristia. Mais tarde, soube quem era: D. Gil, deão da sé da Guarda.

ERNESTO RODRIGUES, "A Casa de Bragança", 2.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2013, p. 24.

Nota do editor:Painel dedicado a Pedro e Inês, em Bragança.Mandado colocar pela Câmara Municipal, após a publicação do livro "A Casa de Bragança", de Ernesto Rodrigues.
A Academia de Letras de Trás-os Montes vai realizar,dia 13 de Dezembro,em Bragança, uma jornada dedicada aos 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues.Não digam que não foram avisados a tempo:agenda,Dezembro,13,Ernesto,Bragança....


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