segunda-feira, 6 de abril de 2015

TORRE DE MONCORVO - ANOS 60 E 2010












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Fotografia  da esquerda enviada pelo prof.Arnaldo Silva, do Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior;fotografia da direita(tirada esta semana) enviada por Paulo Patoleia.

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(Reedição de posts desde o início do blogue)

8 comentários:

  1. Na primeira fotografia,tirada do Castelo,além da serra, da igreja e do tribunal, vê-se a casa do dr.Chico,a loja do sr.Carlos Mateus, o café Moreira e os carros de praça.

    Maneldabila

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  2. A PRAÇA.

    No centro de Moncorvo há uma praça
    É um autentico picadeiro
    Nela se pavoneiam senhores
    Barrigudos, com dinheiro.


    Cá ando às voltas com o que me toca .Agora ando pela praça e já tropecei em dois dotores que estavam fora da fila;era o dotore Teixeira e um estagiário. Ao todo eram sete , passeavam a compasso de ballet, rodavam os dois das pontas , acertando o passo ,e seguiam em fila de sete.
    Sentei-me na cadeira pra dótores do Cagado das Moscas, engraxei os sapatos como se fosse domingo ,comprei um décimo ao Rutch, fiz sinal ao Migas que a próxima era com ele. O quiosque do tio Horácio estava fechado, e ele barafustava com o Mário Mesquita :“ Querem carne pró canhão ?Pra Africa?Nas nalgas…para França é que é!”O Cabeças e o Zé Ruço riam…O dotore Amável dizia pró dotore Leite :“ Temos que meter este gajo no chelindró!”O Sempre-a-Andar olhou pra mim: “Não compras nada?”.Vendia de tudo :navalhas do Palaçoulo ,anéis contra o bruxedo , camisas de Vénus…”
    Vamos ao roteiro:
    Dando a volta e começando pelo tribunal. Subindo as quatro escadas. À entrada, duas bolas de granito, conhecidas pelo nome de tomates do padre Inácio que, julgo eu, representam o labor e a coragem dos trabalhadores da Vilariça. Subindo as quatro escadas,entra-se ; à direita, o Registo Civil ;ao balcão ,o Edmundo Garibaldi(donde vem este nome? Refugiado da Itália dos tempos de Verdi?), jogador de futebol e melhor caçador. Por trás, um gabinete vazio ,onde o Dr. Horácio de Sousa se sentava,à vezes, e o António Batata que, sim ,senhor doutor ,um reputxo e um tanque… a pensar na transformação da Praça Nova em jardim.
    Do lado esquerdo, a Conservatória do Registo Predial , com o Adriano Sangra,que emigrou para as áfricas (outro jogador do Moncorvo e ,também, melhor caçador). Atravessava o pátio para o Dr. Horácio ,nos dias em que aparecia, assinar papéis, e dava dois dedos de conversa com o Edmundo :”De Carviçais enviaram um recado para registar um filho, e que escolhesse um nome baril, nada de João, António, Zé, Manel …. “.Saiu Hélio Egas Pina. Mais dois degraus e era o Notário com o Tó Sangra na primeira linha e o Aleixo nos treinos.O notário propriamente dito era um meia-leca que vivia na Pensão Pires. Passeava-se fardado da Legião Portuguesa e ,por ironia, chamava-se Amável.
    Fôlego, mais escadas e estamos no Tribunal propriamente dito, com o Palhau (dotore ,formado pela universidade do Marmeleiro),casado com a Mariazinha,cunhado da Carminho da CEE,ambas filhas da dona Carmen e do Adriano Pires, da farmácia; com Joaquim Brito ,que bateu o recorde de permanência ,entrou raparigo e saiu reformado, sem sair do mesmo sitio; e com o António Caninha, irmão da Olímpia ,casada com o Sílvio do Celeiro que, por sua vez, é pai do Sílvio (o treinador com mais tempo de permanência num clube),o António Caninha,repito, pai da Lucindinha Antunes, que apresentou um livro da nosa Júlia Biló.
    Nos baixos do Tribunal havia a repartição de Pesos e Medidas, com o Henrique Teixeira, filho do secretário da câmara e irmão do Zé .Viviam ao fundo da rua da Misericórdia. Quando os amigos perguntavam ao Henrique o que fazia, ele ria-se e dizia :”É para ver se o litro no Carró ,Cadorna e companhia tem dez decilitros, e o metro do Carlos Mateus e do Txico Leandro tem cem centímetros”.
    CONTINUA

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  3. Continuação:
    Saindo ,era a praça de carros de aluguer, o conhecida por cortiço, pelas picadas que davam e a cera que faziam (Zé Ruço,Mário Mesquita,Txico Cabeças, Álvaro Bexigas ),não ligando às escadinhas que davam prá canelha ,estava o Café Moreira com dois cartazes :num, um preto e a palavra CAFÉ ,e no outro, uma chinesa e CHÁ. Nos anos cinquenta o café Moreira estava na praça das regateiras.Com a campanha de Humberto Delgado em 58, os dotores entraram num processo de amolecimento, e podia-se ver o antigo legionário dr. Rodrigues a jogar às damas com o sapateiro do Larinho. Perdia. A televisão só tinha um canal, era a preto e branco. Apagavam-se as luzes, estava na hora do Bonanza. Seguia-se o soto do Carlos Mateus,(O soto mais elegante/É o do Sr Mateus:/Ali se discute politica./Pouco vende valh’ó Deus/ com o filho do Manuel do Roboredo ( que emigrou para Burkino Faso )ao balcão, e ele sentado num banco/escano a conversar com o Aníbal Serra e o Machadinho ( o saudoso Pardal sem Rabo): “O maluco do Camilo de Mendonça quer cá montar uma fábrica de transformação de produtos agrícolas, um matadouro industrial ,virar a Vilariça do avesso, onde isto vai parar…Engenheiros novinhos atrás das nossas filhas ,e os empregados atrás das nossas criadas e amásias. Que não , que tenha juízo ,que vá para Mirandela, pró Cachão”.E foi.
    Por cima vivia o dr. Chico,que emigrou prós states, pai da Lela do Zé e da Lila, foi directora de uma revista,chamava-se “Campos Monteiro”.Nome de médico como o pai.
    Entrada para a rua das Flores :encosto-me à parede para passar um camião, não vá esborrachar-me ( todo o trânsito para e do Pocinho, Mogadouro e Mirandela passava pela praça).
    Nos dias de feira a tia Antónia Biló ,a Filomena Souteira e a Xica do Porto tinham aí montadas as mesinhas do licor de canela , súplicas e económicos .E que licor!
    Na outra esquina era o soto das Zirras :lãs ,fios e botões, com portas para a praça e rua das Flores.A Aurora Zirras, fechava o soto às sete ,e ala pela rua das Amoreiras abaixo, a ouvir e contar estórias ao luar de Agosto.O nosso Campos Monteiro, nos Versos fora de Moda, evoca o velho Zirras.
    Duas peixarias com os caixotes de sardinha e chicharro abertos às moscas e fregueses. Uma da Parrola ,e outra da Lídia ,mulher do Rui ,dono de um café(de 3ª classe,o do Basílio era de 2ª e o Moreira de 1ª,eram as três classes da C.P.,ou a1ª,2ª plateia e balcão do cineteatro) por baixo da pensão Torre. Fez dinheiro no minério. É do tempo do “presunto e ovos, que o filão está a dar…” .
    Subindo três degraus, como ainda hoje há do outro lado, entra-se no soto do António Júlio Vilela( fazendas e miudezas, com sacos de feijão à porta). Duas portas para a praça e outra para a rua do Cano. Seguindo, atravessa-se a rua, estamos no soto do senhor Vítor:ferragens, tintas e o exclusivo dos valores selados. Era um rodopio, entrava o Senhor Afonso Hospitaleiro a pedir meia folha de papel selado (5 escudos), saía o Aleixo com selos para as escrituras, testamentos e reconhecimento de assinaturas. A seguir, soto do Júlio Chapeleiro : chapéus , boinas e bonés. Os homens usavam chapéu, e as mulheres lenço à Iraque. Local de tertúlia dos pequenos empresários(as cheias do Sabor , preço das courelas,as caldeiradas na ribeira,os filhos por Coimbra,Porto e Lisboa, as pernas da criada do dotore tal…as mamas …as mamas, da nova criada do…).
    Continua.

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  4. Continuação:
    Por cima, vivia o senhor Manuel Tarasco , casado com uma das Mirandas da Corredoura;ao lado ,o senhor Manuel relojoeiro, com ómegas, tissotes e fios de ouro ,com montra para a praça e rua do café Basílio. Em frente, o soto da Beatriz do Soto ,(vendeu-o ao Alvaro Careca e mudou-se prás quatro Esquinas) com um meio manequim na montra(a Mimi) ,motivo de peregrinação das senhoras e meninas para ver o último grito da moda, e os homens para verem trocar-lhe a roupa .Diziam que ajudava,mas … (-isso é só meia.mulher/Não tem pernas,não tem cu/não tem o que a gente quer/.)..Entendeu!. Por cima vivia a dona Judite Horta com as suas três filhas ( Susana, Linita e Síria), dona da quinta da Ventosa( a imagem de Moncorvo vista deste miradouro fixava-se na retina para sempre ) No tempo que a volta passava na bila, íamos para lá, para ver o Alves Barbosa.O último ganhava um presunto.A meta era na Praça nova diante da casa da Inquisição /Legião. Na casa de azulejos verdes vivia a Adelaidinha Fernandes ,irmã do Adriano Fernandes campeão de traquejo.Depois, uma oficina do José Mafaldo ,sapateiro ,e o estaminé do senhor Afonso Hospitaleiro.No andar de cima vivia o guarda-livros do Veiga.
    Inicio da rua dos Sapateiros .Do outro lado ,ainda na praça ,no prédio da esquina : o Sr. César de Sousa, o famoso alfaiate de Urros. Um mestre. “Alfaiate de Urros” era uma marca de prestigio , era a nossa Benetton. O Sr. Sousa era o pai do Álvaro, do Adelino, do João Luís e do Daniel .
    Trabalhavam com ele o Óscar,que trocou os trapos por policia em Moçambique; o Luís Passa-Rios; o César Espanhol (o melhor caçador de sempre nas fragas);e o Fernando Gil (jogava bem às damas). Existiu ,nesse prédio uma taberna da Cândida Bebe Água ,com barros do Felgar cá fora.Quando fechou ,transformaram a porta em janela, e ainda hoje isso se nota nos arranjos do granito.
    -- Moncorvo é a Praça onde todos os caminhos vão dar.Dizem!

    H.E.j.

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  5. uma delícia esta prosa!!!nem o grande Eça de Queirós retrataria tão bem o Moncorvo desse tempo.

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  6. Este H.E. j. não pára de me (de nos) espantar !!!
    E que memória !
    A praça assim descrita até tem vida .
    Qual quê? Até tem alma !
    Pois é a isto que pode chamar-se "alma"

    Um abraço muito grande
    Júlia

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  7. Conceição Ferreira :Lindo!...

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  8. Retrato fidedigno, com humor(sem ofender ninguém), dos anos 50/60, de muita coisa que eu ainda me recordo. Falta-lhe dar a volta pela Corredoura, Montesinho e Carrascal. Bote lá.

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