sexta-feira, 13 de maio de 2016

Memórias Orais: Emídio Marelo



“Nunca fui à escola portanto não sei. E alguma coisa que sei foi com a minha pouca inteligência, porque um homem que não sabe ler nunca pode ser tão inteligente nem saber histórias. E por mim próprio comecei a saber as letras todas só que me custava muito era a juntá-las. Hoje já leio um bocadinho”.

Emídio Marelo tem 81 anos. Nunca aprendeu a ler, pelo menos na escola, pois o seu padrasto nunca o deixou ir. Diz que “já se sabe”, um enteado não era bem um filho. “Andavam a calcetar o caminho que ia para o rio que agora é estrada. lá para baixo onde é a piscina. Começavam cedo, e fazia-me lá estar até às doze do dia, para vir à vila a buscar o almoço, e depois fazia-me lá estar até às três da tarde, que era para que nunca fosse à escola”. Por sua conta foi aprendendo, a passo, as letras, e hoje já vai lendo qualquer coisa.

A vida não se lhe adivinhava fácil. Aos 9 anos “ripou” a primeira azeitona para ajudar uma senhora que não conseguiu chegar aos ramos mais ariscos. Ele, franzino, conseguiu a proeza e nesse dia ganhou a sua primeira jeira, 9 escudos. Dali em diante trabalhou sempre. Mas o dinheiro nunca sobrava e em 61 foi para França de “assalto”. “Calhou muito mal ir naquela época porque começou a chover, nevoeiro, já sabe, sem merenda nem nada, vimos uma casita ao longe, dormimos lá, molhadinhos pingando. A roupa enxugou no corpo e então de manhã ao nascer do sol estava a gente maçada já de tanto tempo andarmos, batem-nos à porta da corte: eram dois carabineiros”. O dinheiro era pouco para a maioria e por 500 escudos havia sempre quem denunciasse. Emídio esteve preso em Espanha quase dois meses e a espera por melhores dias não havia meio de acabar.

Mais tarde tentou ir novamente para França e por lá governou a vida durante 30 anos com a família.  “Foi graças à França que tenho a casa que tenho hoje e os meus filhos estão bem”. Há 20 anos que está em Freixo, onde regressava sempre que podia.

Agora quem regressa são os quatro filhos, quando a vida permite, e trazem-lhe os netos e bisnetos e Emídio vai vendo como a vida mudou. “Agora as crianças são diferentes, quantas vezes já disse à minha mulher que hoje as crianças nascem com um computador na cabeça”. No seu tempo, entretinham-se as crianças que choravam com rebuçados feitos de açúcar e água em farrapos de pano branco. O tempo em que se ia preso por pedir ao patrão mais 10 tostões ou em que um agricultor ganhava 12 tostões e um pão custava 9,  já o vê longe. Talvez nem o queira lembrar...

(abril de 2015)

 Joana Vargas


Link da entrevista na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=nJNxQRN8G6A

Sem comentários:

Enviar um comentário