quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Memórias Orais - Texto a António Madeira


Há 16 anos que vive no Lar da Santa Casa da Misericórdia em Freixo de Espada à Cinta. Na altura, ele e a e mulher acharam-se doentes e tiveram que arranjar solução. A mulher  já não está e António Madeira vai vivendo, ainda que com alegria contagiante, os dias de uns 90 anos que muito têm que contar. Publicou um livro que é a história da sua vida, mas quando lhe perguntam se é poeta diz, de modéstia:  “faço umas coisinhas”.

Fez o exame da 4ª classe a pulso, mas ficou aprovado. “Eu não era dos mais inteligentes, mas também não era dos mais brutos, mas o professor batia-me muito, diz que era para me fazer entrar nas letras, para aprender melhor”. A escola dentro de quatro paredes não o entusiasmava. Era amante da agricultura, como o seu pai, com quem aprendeu tudo desde tenra idade.

Quebra quando fala no amor à família. Foi por ele que deixou a tropa, para ajudar o pai nas terras, e um irmão mais novo a criar-se. Mas as terra boas eram os ricos que as tinham e o senhor António teve que se fazer à vida, “dava-me pouco resultado e então as misérias por aí eram muitas e disse [tenho que emigrar, tenho que ir para o estrangeiro]. Esteve na França 10 anos e o caminho para lá fê-lo a pé. Levou-lhe 9 dias. “De dia, ficávamos em pinhais, ou em montes e então de noite é que andávamos toda a noite, ia um guia connosco. Os Pirenéus era um terreno muito agreste, muito empinado, estava a noite de Luar porque se estivesse escuro não sei como se haviam de passar aqueles terrenos”.

Como emigrante trabalhou no começo da estrada que hoje circunda Paris, mas os tempos por lá não eram fáceis. “Dormíamos em barracas, eram, de madeiras ao pino e depois madeira por cima com um desnível para correr a água . Eram cobertas com, gordurão, aqui era de alcatrão, era umas coisas de alcatrão. Lá se pregava aquilo e lá dormíamos. O chão era terra e a cama lá se arranjava conforme se podia, uma enxerga e uma cabeceira, ao lado a maleta com quatro ou cinco trapos dentro...”

Quando regressou à terra  dedicou-se novamente à agricultura mas a doença da mulher afastou-o do trabalho. Viveu com ela até esta deixar de saber do tempo e do espaço. Talvez ele lhos lembrasse todos os dias...

O lançamento de outro livro está para breve, e pelo ritmo ainda ouviremos muito boas história, suas,  e da vila de Freixo, em verso. E não será esta a melhor maneira de assistir  ao passar do tempo?   

(abril 2015)

Joana Vargas

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