segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Texto de apresentação do Livro de António Monteiro Cardoso, Boas Fadas que te Fadem na livraria Ferin em Lisboa



Texto de apresentação do Livro de António Monteiro Cardoso, Boas Fadas que te Fadem, em Lisboa, por Rogério Rodrigues

Uma declaração de interesses: Muito deste texto que vou ler, deve-se, na parte histórica, ao valioso contributo do meu amigo Nélson que, dois dias antes do falecimento de Monteiro Cardoso, ainda falou com ele.
Mas quem é o Nélson Rebanda? Com origens em Mazouco por parte do pai e de Vilarinho dos Galegos (aldeia fustigada pela Inquisição) por parte da mãe, ainda enquanto jovem estudante de História descobriu o cavalo de Mazouco.
Já arqueólogo, sozinho, obstinado e com uma grande dose de sacrifício, profissional e pessoal, descobriu e inventariou as gravuras do Côa. Depois, vieram os ungidos e emplumados por resplandecentes currículos académicos e às vezes profissionais, quais aves de rapina, transformaram as gravuras no seu feudo, com o Nelson silenciado e injustiçado. Reponha-se a verdade e faça-se-lhe a justiça.
Regressemos a António Monteiro Cardoso. Nos anos 80 o nosso autor investigava, na área da sua especialidade (o século XIX) o liberalismo no nordeste transmontano. Aterrou em Moncorvo e teve a sorte em encontrar um aluno de História que o levou ao arquivo municipal que ele próprio, Nelson, tinha acabado de organizar, em trabalho gracioso como, abusivamente, é seu hábito.
E aí começou uma admiração entre o arqueólogo e o autor que hoje celebramos, cuja exemplar da primeira edição de Boas Fadas que te fadem, de 1995, n mão do Nélson, está profusamente anotado.
Hoje, Nelson Rebanda que, em correspondência com o prof. Vítor Serrão lhe sugeriu a leitura do livro de Monteiro Cardoso, é um investigador do ferro e da arte sacra, director do museu de Ferro de Torre de Moncorvo e com trabalhos publicados, inéditos muitos, sobre, entre outras, a igrejas de Foz Côa, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e Miranda do Douro.
O seu a seu dono que a gratidão nunca é má conselheira, ainda que nos tempos que correm seja pouco frequentada.


Posto isto, debrucemo-nos, numa leitura ligeira (que eu não sou historiador, apenas um jornalista reformado de uma profissão que, praticamente já não existe) sobre o romance cuja génese poderemos situar num extenso artigo de Monteiro Cardoso sobre o Oratório de S. Filipe de Néri em Trás-os-Montes: A Congregação de Nossa Senhora do Vilar em Freixo de Espada à Cinta, publicado na Brigantia em 1989.
Em síntese, a Congregação do Oratório foi criada em 1565 em Roma por S. Filipe de Néri, destinada à educação cristã da juventude e a obras de caridade.
Foi fundada em Lisboa pelo padre Bartolomeu de Quental, em 1659, de quem descende um vulto enorme e santo da nossa literatura, o filósofo e poeta Antero de Quental
A primeira sede dos oratorianos (deixem-me usar uma expressão laica) situava-se bem perto de onde nos encontramos (a Livraria Férin), ou seja, nos armazéns do Chiado.
Os Oratorianos gozaram da protecção de D. Pedro II e competiram com os jesuítas na educação. Pelos oratorianos passou como aluno Alexandre Herculano e foram seus membros, entre outros nomes insignes para a época, o padre Manuel Bernardes e Luís António Verney.
Os oratorianos chegaram a Freixo em 10 de Setembro de 1673, sendo seu mestre o padre Silva A primeira ideia de instalação terá sido na N. Srª dos Montes Ermos.
O artigo de Monteiro Cardoso baseia-se, em parte, numa série de documentos que consultou n Torre do Tombo sobre o convento de Freixo.
Surge como figura fundamental o padre António Geraldes que escreveu memórias sobre o convento e a vila. A vila que se ia despovoando fruto das guerras peninsulares e da perseguição aos judeus, os obreiros e proprietários dos teares da seda, a ponto de ser pedido que, para o repovoamento da vila, se transformasse de novo num couto dos homiziados.
Não será de todo abusivo opinar que o narrador de Boas Fadas que te Fadem seja este padre Geraldes, natural de Ligares, um dos grandes oradores do seu tempo, capaz de pôr os fieis a chorar com a veemência dos seus sermões.
Sabe-se que esteve no convento de Freixo.
Algumas notícias sobre este orador sacro do século XVIII, aparecem na tese do prof. Eugénio dos Santos, “O Oratório no Norte de Portugal”.


São três as personagens principais do romance, aureoladas por destinos trágicos: o noviço Francisco, a hebreia Helena e o médico Bartolomeu Álvares. Todos de Freixo, os seus caminhos vão-se encontrar pela última vez em Salamanca.
Depois há personagens marcantes porque a sua presença, seja benéfica, seja maléfica, são os alicerces em que o autor constrói a sua narrativa: o padre-mestre, o abade de Ranhados, o estanqueiro Luís Almeida e Bento Espinosa.
Como geografia, a trama desenvolve-se em três lugares: Freixo de Espada à Cinta, Salamanca e Amesterdão.
Freixo a aparece como uma terra farta em trigo, figos, olivais e amendoais. Monteiro Cardoso fala já nas amendoeiras em flor. É notório o seu amor à terra ele que, na sua genética, terá sangue de cristão-novo (Monteiro e Cardoso são apelidos de cristãos-novos).
Em Salamanca, a Universidade era frequentada pelos jovens raianos. O médico Bartolomeu aqui se licenciou em Medicina, numa Salamanca em que português era sinónimo de judeu.
Boas Fadas que te Fadem e Tempo de Fogo de Amadeu Ferreira são os dois romances fundamentais para a compreensão do papel da Inquisição no Nordeste transmontano. Ambos assentam numa aturada pesquisa de processos da Inquisição na Torre do Tombo. Ambos os autores, nascidos em 1950, com um mês e meio de diferença, já falecidos, eram licenciados em Direito, sendo Amadeu Ferreira vice-presidente da CMVM e paladino do mirandês como língua oficial. Não sei se alguma vez se conheceram, mas se se encontrassem tenho a certeza que se tornariam grandes amigos.
A linguagem de Monteiro Cardoso é clássica, tem o rigor de um historiador que utiliza a ficção como roupagem para o corpo histórico.



Francisco é um enjeitado que o padre-mestre recolhe. Não sabe quem é, nem donde veio, abandonado pela mãe, ainda muita criança, e criado numa família de Ligares
Recebido pelo padre-mestre Manuel Guerra (como sabem, Guerra é um nome comum em Freixo), entra no convento como noviço
Os oratorianos, diga-se, não eram frades mas sim padres seculares.
Um dia o noviço conta ao seu padre – mestre que teve um sonho em que uma voz feminina lhe sussurrava: Boas Fadas que te fadem. Atormentado, o padre-mestre ordena-lhe que nunca mais pronuncie esta frase, “pois estaria perdido se o fizesse”.
Boas Fadas que te Fadem é para os judeus o que para os cristãos seja Que Deus te ajude, Vai com Deus.
Muitas vezes os oratorianos foram testemunhas abonatórias dos judeus.
A chegada de um familiar do Santo Ofício, o abade de Ranhados, vem perturbar a pacatez do convento e mesmo da vila, com a perseguição ao médico Bartolomeu, muito conceituado entre os cristãos-velhos. O médico, acusado de judaísmo, foge para Salamanca, atravessando o Douto numa das três barcas então existentes, com o Abade e os seus lacaios em perseguição. Freixo despovoa-se. Monteiro Cardoso, em prosa seca, retrata os estropiados da guerra, os pedintes, as crianças abandonadas. E os judeus fogem e Freixo vai precisar de mais gente
Numa das suas idas à vila a comprar tabaco e paramentos para o convento, Francisco encontra Helena Nogueira, cristã-nova, tecedeira de seda, de sangue hebreu, cuja beleza o perturba.
Este encontro pode funcionar como a antecâmara da tragédia.
Tudo corre bem no convento, que vai acumulando relíquias sobre relíquias ossadas de um santo que espalhados por tantos países e conventos mis necessitariam de um exército. Sobre o culto das relíquias, as mais preciosas seriam as do Santo Lenho, não a camisa de noite de Madalena do Raposão da Relíquia de Eça de Queirós, o medievalista holandês Huizinga tem notabilíssimas descrições.
O penedo Durão e a Calçada de Alpajares são, no fabulário popular, pousio de animais mitológicos, de serpentes vorazes.
O padre-mestre morre e as últimas palavras que dissera a Francisco: Raba Raba, parecendo incompreensíveis, são o nome de uma poderosa família de judeus de Bragança que poderiam saber do paradeiro dos pais de Francisco, apontando como possível a cidade de Bordéus.
Francisco acaba por matar com uma pedra (mão certeira de quem tinha sido pastor) o Abade inquisidor.
Com a ajuda do estanqueiro Luís Almeida, ele e Helena fogem para Salamanca. Repousam em Vitigudino ainda hoje povoação frequentada pelos freixenistas.
Luís Almeida conta, durante a viagem, a história da sua vida, defendendo o conde-duque de Olivares como o protector dos judeus portugueses em Madrid. Na capital espanhola está instalado o pintor Diego Velasquez Rodrigues da Silva, cujo pai era do Porto.
Em Salamanca são abrigados pelo médico que fugira de Freixo e que regressara a Espanha depois de uma vida aventurosa em Amesterdão de cuja sinagoga fora expulso por ter sangue de cristão velho enquanto em Portugal e Espanha era perseguido por ter sangue de cristão-novo.
Teve também contacto muito próximo com o filósofo e polidor de vidro, Bento Espinosa, filho de judeus portugueses que, antes de morrer, lhe ofereceu o Tractatus Theologico-Politicus e três lentes.
Pela voz do médico Bartolomeu que se transforma no mestre de Francisco, vamos seguindo o percurso dos judeus portugueses em Amesterdão. Uriel de Costa, é sujeito ao herem, imposto pelo rabi. Herem é uma excomunhão, ficando os judeus proibidos de fala, ler sequer obras do excomungado. Uriel da Costa retrata-se, sofre todas as humilhações, mas não aguenta mais, nem consegue abdicar das suas dúvidas. E suicida-se.
Em 1666, o misterioso número da besta do Apocalipse, surge um tal Sabbatai Zevi, declarando-se como Messias. Preso pelos turcos prefere converter-se ao islão do que ser morto. Os seus discípulos embarcam com o sonho de tornar Palestina a sua Nação. São capturados pelos marroquinos e vendidos como escravos.
Todo o conhecimento acumulado pelo médico, também ele vítima do fundamentalismo judaico, leva-o a concluir, e esta a grande mensagem do romance, que, e passo a citar”Não nasci para assim acreditar, antes para descrer e duvidar, que esta é a minha desventura”. Ou seguindo o pensamento de Espinoa: ”Deus e a natureza são como uma e a mesma coisa constituindo a única substância”.


Francisco e Helena e o médico Bartolomeu Álvares são presos pela Inquisição. O médico fica em Salamanca para ser levado para Valladolid e os dois jovens seguem para as masmorras de Coimbra.
Ainda em Salamanca, já no cárcere, diz Francisco para o médico “Eis-nos chegados ao reino de Klippot”. Na Kabbalah surgem duas forças antagónicas: tikkim, centelhas dispersas da divindade; klippot, as forças do mal.
Em Coimbra, perante o inquisidor Pais do Amaral, Francisco nega culpas de judaísmo, mas manifesta dúvidas sobre a existência de Deus. E morre no cárcere.
Helena confessa, abjura e sai em liberdade.

Vai já longa e aborrecida a apresentação de um livro que se lê de um fôlego, tal o ritmo narrativo. Li pela primeira vez o livro em 1995, reli-o agora (duas leituras tal a intensidade narrativa e o acumular de erudição). Falei no livro ao editor Baptista Lopes e aqui o temos.
Já muito doente, alguns dias antes de ser internado, fomos almoçar a um restaurante de Campo de Ourique onde bebemos vinho branco não da excelência do de Freixo, seja o Maritávora, seja o Montes Ermos ou Castelares.
Tínhamos encontro marcado em Freixo. Não foi possível. Que Boas Fadas te tenham em descanso, António Monteiro Cardoso.


Rogério Rodrigues, natural de Torre de Moncorvo, foi jornalista fundador do Público, subdiretor do jornal A Capital, e Membro da Direção da Academia de Letras de Trás-os-Montes. 

1 comentário:

  1. Foi-me completamente ir a Freixo no passado domingo. Por isso quero agradecer a ocasião que aqui se me proporciona para ler este belo texto de apresentação do romance de Monteiro Cardoso que li com todo o interesse quando comecei a dar os primeiros passos no estudos dos judeus em Trás-os-Montes. Aliás, já antes da publicação do livro tive o prazer de lidar e partilhar eventos culturais com o amigo Monteiro Cardoso, nomeadamente do congresso dos 550 anos da fundação da diocese de Miranda e nas primeiras jornadas culturais de Balsamão. J. Andrade

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