quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Retalhos da História de Vila Flor III


AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
LOPO MACHADO - FAMILIAR DA INQUISIÇÃO
Lopo Machado era homem nobre de Vila Flor, juiz dos órfãos e familiar da Inquisição. Nesta última qualidade, ele era chamado a participar nas prisões que se efectuavam na terra em nome do Santo Ofício e esperava-se que mantivesse apertada vigilância sobre o procedimento dos cristãos-novos. E não desmerecia ele nesse papel de espião e informador, como se depreende da leitura de alguns processos, nomeadamente o de Julião Henriques, neto do físico / médico do mesmo nome de que atrás se falou. (1)
Neste processo se apresenta uma longa exposição por ele enviada para Coimbra e que serviu de fundamento à ordem de prisão do citado Julião Henriques. (2)
Começa o informador por contar que em Junho de 1638, foram presas em Vila Flor uma cunhada (Isabel Pereira) e uma sobrinha (Genebra Henriques) de Julião (mãe e filha) e que quem dirigiu tais prisões foi o corregedor da comarca, dr. António Cardoso de Sousa. Este, depois de efectuadas as prisões e “indo pousar a casa de um clérigo por nome Pêro Esteves, do lugar de Samões, meia légua da vila e dando-lhe o dito clérigo um copo de vinho com o qual morreu logo apressadamente, sem confissão e desde esse tempo até hoje a gente da nação, principalmente Julião Henriques, cabeça deles, corre com o dito clérigo e seus irmãos com muita amizade, o que deu muita suspeita a sua morte” (3)
Em Agosto seguinte, foi presa uma outra filha de Isabel, chamada Eva Pereira e outras prisões se seguiram em nome da Inquisição, sendo corregedor da comarca o dr. Jerónimo de Medeiros Correia. E, contava Lopo Machado, que Julião Henriques (“cabeça desta gente”) e seus filhos andaram “perturbando grandemente” as diligências do Santo Ofício “só a fim de intimidarem” o novo corregedor. (4)


Em Dezembro de 1642, foi presa uma Brites Gomes, mulher de Lopo Cardoso e quem executou a prisão e procedeu ao sequestro e inventário dos bens foi o provedor da comarca, dr. Bernardo de Morais e o familiar Machado que fora também o denunciante. Nesta prisão terá havido algumas irregularidades e terá sido feito por ordem da Mesa do Paço e não da Mesa do Santo Ofício. E esta e outras atitudes “irregulares” de Lopo Machado terão sido objecto de reclamação por parte de Julião Henriques e dos cristãos-novos de Vila Flor e será uma das razões que levarão estes a alcançar um mandato de prisão (nos tribunais civis, não nos da Inquisição) contra o mesmo Lopo Machado, como adiante se verá. Agora o familiar queixava-se de que andavam a pressionar e a intimidar o provedor da comarca. (5)
Depois, em data que não conseguimos apurar porque não foi possível encontrar o respectivo processo na Torre do Tombo, foi preso, estando lugar de Sampaio, pelo familiar Lopo Machado, um filho de Julião Henriques, Diogo de seu nome. E essa foi a gota de água que fez o copo extravasar. Vejamos só o comentário feito pelo próprio familiar e enviado para a Inquisição de Coimbra:
- Tanto que eu prendi Diogo Henriques, os mais logo se fintaram contra mim e todos os que nessa ocasião ajudaram dando 5 mil reis cada um, sendo que passam de 100, fazendo-se o dito Julião a cabeça deles, assinaram capítulos falsos que deram a Sua majestade de mim; e desta sorte escreveram com o corregedor desta comarca, André Barreto Ferraz, natural de Aveiro, que por respeito os favorece demasiadamente.
Registe-se a informação de que os cristãos-novos (agrupamentos familiares, certamente) eram mais de 100 e o facto de o familiar da Inquisição acusar o corregedor da comarca (a maior autoridade civil da região) de cumplicidade com os cristãos-novos!
Lopo Machado concluía este ponto da sua exposição dizendo que por isso os cristãos-novos “se gabam poucamente que pois me hão-de destruir e não hei-de prender outros”.
Apresentava, em seguida, dois casos concretos exemplificando como os cristãos-velhos se recusavam a exercer cargos e a servir de testemunha contra os cristãos-novos. Um deles, Francisco Gomes, de Santa Comba da Vilariça, recusou exercer o cargo de juiz da vara para que foi nomeado em Dezembro de 1643 pala câmara municipal, devido às ameaças que lhe fizeram por ter testemunhado contra o dito Diogo Henriques Julião. O outro “perseguido” foi Humberto Rodrigues Pimental, que ajudou a executar a mesma prisão e ficou depositário dos bens do prisioneiro.
E depois de apresentar estes dois casos, por ele considerados exemplares, escrevia:
- Tem dado nesta vila e comarca notável escândalo ver que as pessoas que fazem diligências do Santo Ofício e os que ajudam são desta sorte perseguidos pela gente da nação e por estas razões hão medo e não se atrevem a dizer as verdades.
Mais apresentava alguns casos de pessoas que testemunharam falsamente, em favor de cristãos-novos e duas denúncias de comportamento contrário à religião católica e merecedores de intervenção do santo tribunal. Uma deles, referente a Rodrigo Fernandes e outros que se puseram a zombar e a arremedar os clérigos à passagem de uma procissão, em Vilas Boas. A outra era contra Julião Henriques que, como rendeiro da vila de Frechas, tinha obrigação de dar “azeite para semear (acender) a lâmpada do Santíssimo Sacramento” e indo-lho o mordomo a pedir, ele terá respondido “com muito desprezo, que a semeassem com lama”. E que, sendo presente um António Rodrigues, sapateiro, este lhe aconselhou a que tivesse cuidado com o que dizia, respondendo Julião “que ele era judeu e disso se prezava”.
Lopo machado terminava o seu relatório denunciando mais uma ameaça feita presumidamente por Julião Henriques e seus pares, nos seguintes termos:
- Pois os prenderam, hão-de fazer ir à Inquisição todos quantos há nesta vila, cristãos-velhos e cristãos-novos; gabando-se de serem poderosos e ter dinheiro, acabam por difamar a santa Inquisição, pois dizem que este Novembro próximo passado, mandaram um macho com uma carga de presuntos de peita (suborno) a um ministro da santa Inquisição da Mesa Grande, só a fim de que a gente de pouco entendimento lhe haja medo e não se atreva a dizer o que souberem. Porque este povo está tão intimidado e esta comarca tão escandalizada, que os homens de mais conta afirmam que na cristandade não aconteceu outro caso como este, pois estando em Portugal, haviam os homens de ser perseguidos por defender a lei de Cristo.
Ao ler um relatório desta natureza, adivinha-se naturalmente uma luta bem renhida entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor, sendo cabecilhas desta luta o “judeu” Julião Henriques e o familiar da Inquisição Lopo machado Pereira. E se D. Lopo contava os dias à espera que a Inquisição de Coimbra mandasse ordem para se prender Julião Henriques, este alimentava forte esperança de que Sua Majestade, o recém aclamado rei D. João IV passasse alvará para o corregedor da comarca de Torre de Moncorvo meter na cadeia o juiz dos órfãos de Vila Flor.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimães
NOTAS


1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3869, de Julião Henriques.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3869, f. 16 e seguintes.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo1841, de Isabel pereira, processo.
Genebra Henriques (processo 21843) era casada com Diogo da Mesquita Munhós que então estava também preso na cadeia da Inquisição de Coimbra (processo 7067).
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2174, de Eva Pereira
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 6105, de Brites Gomes.

1 comentário:

  1. Gostei de ler,( Retalhos da história de Vila Flor) não que eu seja dela , mas meu marido era de Vilas Boas, e tem muita coisa que me é familiar que fui sabendo através de minha sogra, a história das alheiras... e outras mais, achei interessante como tudo se encaixa...
    Pouco sei da história local, pois sou do sul e tal como meu marido, bem cedo nos levaram para terras do além ! Então quando encontro estas pequenas histórias as leio com prazer ,
    Pena que meu marido já não se encontre entre nós, pois teria um assíduo leitor; Bem hajam...!

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