quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Amália da Trança Loura, de Manuel António Ferreira Deusdado


Toda a aldeia estimava a Amália da trança loura. Velhos e novos, mulheres e crianças, ao passarem à porta do seu tear, entravam a festejá-la e, indo com pressa, todos lhe davam ao menos as boas horas. Ela era merecedora dessa benquerença geral. Nunca dos seus grandes olhos azuis saíra um olhar que não fosse repassado de bondade, nem de sua boca saíram palavras que não fossem cheias de sinceridade e revestidas de brandura. O modo de seu olhar tinha alguma cousa de celeste e de angélico; parecia que Deus fundira nele, ao vir da noute, a luz da Lua; ao vir do dia a luz do Sol. A tez da sua cara era branca como o algodão em rama apurado nos liços do seu tear. Os lábios eram orlados duma dupla ordem de pérolas, as quais impensadamente deixava ver nos seus doces sorrisos. Os moços do lugar diziam que ela era o alívio das penas. Efectivamente, na mulher existe uma alegria vaporosa que dissipa a tristeza no homem. Quantos moços, seus vizinhos, a haviam desejado para noiva! Até um mancebo de vinte anos, que estudava para padre, lhe prometeu que deixava tudo para a receber como noiva. Num ímpeto de declaração apaixonada, disse-lhe: - se pudesse roubar ao céu o setestrelo, fazia dele um colar de brilhantes para te oferecer.
 Igreja Matriz de Rio Frio
Amália já tinha vinte e sete anos e era xorda aos devaneios dos diferentes adoradores. A sua reputação, como a sua vida, eram duma pureza imaculada. Vivia com sua mãe, uma santa viúva, objecto dos seus desvelos. Ninguém cuidava como Amália das flores para ornamentar o altar da Virgem Santíssima. Desde que fora mordoma da Senhora, ficara-lhe com especial devoção. Nos domingos, o altar da Senhora parecia um jardim com os seus ramalhetes de lindas flores e com vasos de majaricos e de clementinas. Aproveitava em todas as estações as flores que poderiam servir-lhe. A frescura da alma e a santidade do pensamento da Amália da trança loura, misturadas com o aroma das flores, volatizavam-se pela igreja, robustecendo a consciência dos justos e tolhendo os instintos malignos dos pecadores. O Reverendo Cura da paróquia não se cansava de louvar as almas pias que cuidavam do adorno dos altares e do asseio da igreja. O velho Reitor da paróquia havia afervorado mais o culto da Virgem, depois da definição do dogma da Imaculada Conceição, no tempo do Padre Santo Pio IX. Mais de quantas vezes haviam dito no catecismo, ao seu rebanho, que Maria Santíssima é o refúgio dos pecadores, o auxílio dos cristãos, a consolação dos aflitos, o amparo dos desgraçados; é a Ela que vós acorreis nas vossas aflições, nos vossos trabalhos, nas vossas necessidades, e é de Ela que vós recebeis todas as graças, por isso que todas elas se comunicam pelas suas mãos benfeitoras, como diz São Bernardo: Ómnia per manus Mariae.

 O encanecido Reitor queria apriscar todas as suas ovelhas, devotamente, no altar da Virgem. Ansiava porque todos orassem, justos e pecadores, estes ainda mais do que aqueles, porquanto entendia que de todos os actos do homem o mais divino era o arrependimento. Ele procedia benevolamente com as almas fracas, vítimas da tentação, exclamando: Vêem buscar em mim um escudo para as proteger, não hão-de encontrar uma vara para as vergastar. Outras vezes dizia em tom severo: Pior é para as aves o meigo assobio do caçador que as convida, que o estrondo do lavrador que as espanta.
O génio da raça transmontana é laborioso, independente, sofredor. Já diz João Salgado de Araújo, escritor do século XVII: “que habita a província de Trás-os-Montes muito boa gente, não sabe vício algum nativo dela”. Outrora como povo serrano, viveu da caça e da pastorícia; depois tornou-se essencialmente agrícola. Além das plantas alimentícias, há as plantas industriais, sendo a principal o linho, que precisa de uma longa série de trabalhos antes de ser utilizado. É necessário, depois de semeá-lo, sachá-lo, regá-lo, mondá-lo, arrancá-lo, esbagaranhá-lo no eirado, cozê-lo no pego de água corrente, escorrê-lo, secá-lo ao sol, maçá-lo, esfregá-lo, espadá-lo, estrigá-lo, assedá-lo no sedeiro para tirar-lhe a estopinha, fiá-lo à roca em maçarocas, ensarilhá-lo em meadas, corá-lo, dobá-lo com ergadilho  em novelos, urdi-lo, pô-lo no tear, tecê-lo, embarrelar as teias muitas vezes e corá-las ao sol, regando-as com um regador até que estejam bastante brancas.
A Amália da trança loura ocupava-se de outros trabalhos referentes ao linho; mas em tecê-lo é que ela gastava uma grande parte do ano. O tac, tac, tac, do seu tear tinha uma cadência especial que soava como uma nota melancolicamente risonha do eco longínquo de tear argentino de moura encantada. Os tecidos que fabricavam estes teares são: linho, estopa, ou tecidos para toalhas, guardanapos de olhos de sapo, colchas lisas ou de borbotos, que são urdidas com estopa e tapadas com lã, enxerga que serve para capas de mulher ou para saias, enxerga de lã branca de que se faz saiotes. O burel pardo que se usa no vestuário dos homens é tecido num tear especial, mais largo, em que tecem ao mesmo tempo dois, geralmente um homem e uma mulher. O tear ordinário consta das seguintes peças: duas mesas aos lados – o órgão e o entre-peito diante do aperto da tecedeira, que forma os quatro lados, desenhando um quadrado. Há dois órgãos, espécie de eixos; num está a teia ainda urdida e enrolada; no outro está a teia já tecida. Seria longo descrever a função de cada uma destas peças, por isso apenas as vamos enumerar: as canas, os liços, que são de duas ou quatro prechadas, segundo a qualidade do tecido, os canais dispensos das parafitas que com os dois troçais defendem o pente. O pente varia segundo se tece linho, estopa ou lã; é a lançadeira que com a vareta segura a canela e os tempereiros, que são de ferro; os liços estão pendurados nas carrilhetas que, por sua vez, estão suspensas de altas travessas. Os cachorros seguram as apremedeiras, que são uma espécie de pedal. As peças auxiliares são: o compostor, o restrelo, as cavilhas da postura da teia, as cavilhas desandadeiras e o gancho. No rodeleiro é que se fazem as canelas com que se fabrica a tecedela.
Havia três noites que não saía a ronda da mocidade de Rio Frio. A viola chuleira, os ferrinhos, o bombo, a guitarra, tudo estava em triste descanso. A voz engraçada e vibrante de Joaquim Vara já não entoava ao passar diante de Amália da trança loura, as duas cantigas que naquele sítio costumava cantar:
                Tendes o cabelo louro
                Pelas costas ao comprido,
                Parecem moedas de ouro
                Ao martelo rebatido

                Nasce o Sol, corre o céu todo,
                Põe-se e torna a renascer.
                Eu contigo na lembrança
                Eis aqui o meu viver

A roda da fortuna ora livela, ora deslivela a sorte humana, é como o rodeleiro da tecedeira, tanto anda como desanda. Havia já três dias que Joaquim Vara fora mordido na testa por um coxo, (qualquer animal venoso) e que estava às portas da morte. A mordedura parecia haver sido de insecto carbunculoso, encubado em pele de ovelha, o qual lhe inoculou a pústula maligna, funestamente conhecida na terra por ferida má. Tinha a cabeça e o pescoço inchados como um boto (odre). Uma bruxa viera tratá-lo com mezinhas, benzeduras e esconjuros, mas a inchação não diminuía. Empregava todos os recursos da sua arte sem obter a cura que desejava. Começou com a bênção com o guedelho de lã, tirada do lombo do rexelo:
                Bênção para curar coxos
                Jesus, nome de Jesus,
                Eu te benzo coxo
                De sapa ou sapão,
                De cobra ou cobrão,
                De aranha ou aranhão,
                De rigor ou salteador.
                Eu te corto e recorto,
                Coxo de toda a nação
                Com o guedelho da lã ludra,
                Do lombo da ovelha viva,
                Azeite da oliva
                Do monte Olivete;
                Queimada sejas tu
                Como a lã no lume  (queima a lã)
                Com honra de Deus
                E da Virgem Maria
                Um Padre-Nosso
                E Avé - Maria

O coxo cura-se também com ponta de veado metida na água fazendo nela nove cruzes, a três cada vez, e repetindo a cruz no sítio enfermo todas as vezes, pronunciando certas rezas ao mesmo tempo. No princípio do mundo, afirma a benzedeira, o veado benzia a água fazendo as nove cruzes para que depois bebessem os outros animais. Nenhum bebia sem ele beber primeiro, porque assim estava determinado para que a água não fizesse mal. Se alguém não esconjurar o bicho venenoso, nasce ele próprio no sítio da mordedura e de trás da chaga vive escondido, sendo preciso alimentá-lo com carne, posta sobre a ferida, e não tendo este alimento, vai comendo o padecente até lhe devorar o coração.
A Amália tecedeira também foi visitar o enfermo, Joaquim Vara, e na povoação soube-se que pelas melhoras dele fizera uma grande promessa a Nossa Senhora da Ribeira. Esse dia marcava particularmente na sua alma, grandíssima devoção mariana, pois era dez de Dezembro, em que a Igreja Católica comemora a prodigiosa trasladação da Santa Casa do Loreto. Com efeito, Joaquim Vara rapidamente melhorou.
Os votos da bondosa Amália, dizia toda a gente, foram escutados no céu. Ninguém acreditava todavia que a Amália da trança loura se rendera às repetidas cantigas e às constantes garridices de Joaquim Vara, porque não era homem que servisse para uma moça daquelas qualidades. O Joaquim Vara era um cabeça tonta; fora soldado que descera até às companhias de correcção. Bebia, fumava, jogava, namorando-se de todas as raparigas e gabando-se de cousas que não fazia. Era muito divertido, dançava, tocava e cantava como ninguém; mas em recompensa era um mandrião, que estragava o pouco que herdara. Não admira pois que todos estranhassem a promessa dela a Nossa Senhora da Ribeira, por um moço que não era seu parente.
No Santuário Mariano, diz-se que Nossa Senhora apareceu na Ribeira a uma pastorinha que era muda e que por milagre lhe desimpediu a fala, constituindo-a embaixadora perante os moradores da sua aldeia para que lhe edificassem uma casa. (Santuário Mariano, pág.611)
A Ermida de Nossa Senhora da Ribeira já existia em 1281, pois que Santa Isabel, filha de D. Pedro III, de Aragão, que esposou D. Dinis, Rei de Portugal, entrando por ali, foi piedosamente visitar a ermida. D. Dinis protegeu-a junto do mosteiro de Castro de Avelãs e mais tarde junto do alcaide do castelo de Outeiro, que ele mandou edificar. Há vestígios de que a ermida da Ribeira foi uma próspera confraria; hoje está pobríssima. Os documentos que existiam sobre esta confraria foram queimados com a casa do juiz dela, o morgado da Paradinha, por uma guerrilha da luta civil em 1829, entre D. Miguel e D. Pedro.
 O templo é bastante vasto e orientado para o nascente. Está guardado pelo lado do meio-dia por dois seculares castanheiros gigantes. As portas são góticas em severo granito; a chamada principal é formada por um amplo arco, adornado por formosas caneladuras. Entre o nártex e o cruzeiro há, como em todos os templos, o corpo da igreja, mas neste há três secções longitudinais, formadas por dois renques de colunas, que dividem o templo em três naves, uma central e duas laterais onde estão os confessionários. Na nave central, em direcção da fileira das colunas, está o púlpito, elegantíssimo, que é de granito lindamente lavrado. De cada lado do altar-mor duas colunas salomónicas de madeira com capitéis jónicos. Talvez nesta obra de talha haja uma lembrança do estilo dos escultores em madeira, António Ferreira e Manuel Teixeira. À esquerda do altar-mor vê-se uma velha pintura representando Santa Luzia com os olhos no prato. No lado direito Santa Bárbara, uma imagem de roca, tendo no mesmo nicho a Santíssima Trindade e estando representado o Padre Eterno numa estátua de madeira de algum mérito. Na parte superior do corpo da igreja vê-se, do lado direito o altar de Santa Isabel, que não tem nada de notável, e do lado oposto o altar da Santíssima Trindade, de que já só existe o suporte. O teto do corpo do templo está suspenso sobre dez sólidas colunas de granito, que estão em parte adornadas por ninhos de andorinhas que com o seu canto agudo e monótono enchem o espaço sagrado onde outrora retumbavam gravemente os hinos dos fervorosos crentes. Externamente a cornija e o telhado são um nial de andorinhas e pardais e na relva do adro ressaltam roquinhas e resalgares. Perto do templo avista-se a casa do ermitão. No adro há um vasto cabanal (alpendre) para se alojarem os mercadores com as suas fazendas, e ainda argolas de ferro na parede, para se houver concorrência, prender toldos, suspensos sobre o adro. A ermida está edificada no avessedo, ponto da ladeira voltado para o norte, não longe da ribeira, que é cercada em parte das suas margens por choupos, nogueiras e castanheiros. A ribeirica de Quintanilha, que assim é chamada, vem da Réfega, passa nas Veigas, e entra depois de alguns meandros, no rio Maçãs, cujo córrego é a linha divisória de Castela e Portugal. Ao ocidente enxerga-se o regato de Vale de Pés, ao norte Vale de Castro, ao nascente a ourreta Gralha, ao sul a cara do Pontão. Do adro da ermida descobre-se ao norte um contraforte de maciço granítico, de São Martinho do Pedroso que é uma povoação castelhana à distância talvez de dois quilómetros.
Antigamente havia três grandes romarias a esta ermida, a primeira a 25 de Março, a segunda dia dos Prazeres, segunda-feira de Pascoela; a terceira, última de ladainhas, véspera da Ascenção do Senhor.
Hoje, em regra, só se festeja a das ladainhas, vindo os párocos de muitas freguesias em numerosas procissões acompanhando as respectivas Nossas Senhoras, graciosamente enfeitadas pelas suas mordomas. Lembra talvez esta festa o que no sul do reino chamam um círio. Vão nesse dia visitar a Senhora da Ribeira, as Nossas Senhoras das seguintes povoações: Palácios, Deilão, S. Julião, Vilameão, Babe, Milhão, Réfega, Veiga, Quintanilha, Argoselo, Pinelo, Outeiro, Paradinha, Paçô, Rio Frio. A Nossa Senhora visitada, vem esperar ao cruzeiro, que é assaz distante, com os capelães e fiéis, as Nossas Senhoras visitantes que vão chegando, cada uma por sua vez, e acompanha-as até dentro da igreja, cantando todos os fiéis em coro. Repete-se igual cerimónia à despedida, partindo primeiro, gradualmente, as das aldeias mais distantes.
Depois da missa, sermão, procissão e jubileu, é o jantar de saborosas iguarias, sobre brancas toalhas estendidas na relva ao longo da encosta e à margem da ribeira. A compra das amêndoas às donzelas, em geral, causa briosas disputas entre os moços.
Aquela devoção sincera, aqueles fervorosos penitentes, os trajes indígenas daquela gente castelhana e portuguesa, mergulham o nosso espírito cristão num ambiente que tem mais da poética Idade Média do que da positividade mesquinha e desconsoladora de nossos dias.
O céu é de um azul límpido, admirável, a primavera ostenta já esplendentemente as suas galas, as faceiras verdejantes começam a amarelecer; aqui há um adil coberto de espessa erva, além a peonia com a sua vistosa flor, a que ali chamam rosas de lobo, lança manchas vermelhas no tom verde da paisagem. A terra é ondulada com múltiplas colinas, semeadas de grandes fragas musgosas, com ladeiras adornadas pelo verde-escuro dos estevais, encimados graciosamente pelas suas flores de um branco suavíssimo de camélia.
Entre as romarias milagrosas daquela redondeza, citam-se a da Nossa Senhora do Naso, a de Tuiselo e a da Serra; a da Ribeirica é mais modesta, mas nem por isso é menos escutada pela inefável Mãe de Deus. Na guerra dos franceses, em 1810, um esquadrão de cavalaria, roubou e profanou, segundo o seu odioso costume, a igreja de Quintanilha e tentava repetir a mesma acção na Nossa Senhora da Ribeira, porém o ermitão fez uma fervorosa prece diante do altar, suplicou-lhe que defendesse o templo daqueles guerreiros sacrílegos. Com efeito, as tropas francesas subiram até meio da encosta, perto do cruzeiro, mas aí os cavalos pararam milagrosamente, e zombando dos inúteis esforços dos cavaleiros, recuaram deixando incólume a ermida.
Havia pouco um ganadeiro ovelhum que ensurdecera, prometeu a Nossa Senhora, para guarecer, em memória das Sete Dores, sete rexelos das suas manadas. O gado nessa época estava desdobrado em alavão e alfeire. Trouxe o rebanho no dia da festa da Anunciação a dar três voltas à ermida e sete das melhores cabeças que entrassem por qualquer das portas eram oferecidas à Rainha do Céu para despesas de culto. Assim se cumpriu o voto e de tal guisa que o ganadeiro recuperou o ouvir, aparecendo asinha de sembrante cheio de ledice. Exclamava: Bendito e louvado seja o Senhor! Pois tinha sido desenganado de cirurgião e boticário! Agora nunca recusaria ao necessitado um cibo de pão e um cacho de carne.
                O pouco que Deus nos deu
                Cabe numa mão fechada;
                O pouco com Deus é muito
                O muito sem Deus é nada.

A ideia de Deus enraizada amorosamente na consciência humana, é lâmpada de ouro, cheia de óleo santo inconsumível, que alumia sempre com eterna luz, e amacia pela graça o caminho da verdade, da fortaleza e do bem.
O tear só sossegava na ânsia de tecer quando a Amália cuidava em cirandar centeio ou se çavava a ouvir os cegos tocar çanfona no xaguão ou na rua vendo ao mesmo tempo os moços dançarem o sapateado a essa toada. Às vezes xordia do cortinheiro ansiosamente um coqueiro que dançava o sapateado fazendo grande arruído com os seus çocos de amieiro. A Amália andava sempre muito asseada desde o lenço ao bajú e aos çapatos. Ela era branca como a açucena, um nadinha xardosa e usava um xale preto como a çamarra do senhor Reitor, cercado de uma çanefa ruça. Era esse xale que a livrava do sol e das zurbadas de água quando ia aos sumarentos pêrsigos aos persegueiros da horta e às sumosas cerejas ao cerdeiro, porque preferia o fruto lampo ao tardego. Usava enterrar as carunhas dos pêrsigos e dos damascenos para que nascessem persegueiros e albricoqueiros.
A Amália da trança loura havia orado contrita e num domingo florido do mês de Abril depois da missa, partiu só, e com o seu lenço branco na cabeça e saia de dous refegos, pela beira do ribeiro da Malhada, que leva de Rio Frio em direitura à ermida. É neste ribeiro que há um moinho inverniço onde um ladrão no começo do século XIX, em extrema escassez, furtou um saco de farinha, escrevendo sobre a porta a curiosa quadra seguinte:
                A este moinho entrei
                Um saco de pão levei
                Para o ano lho tornarei
                Porque a fome não tem lei.

Amália ia pensando, infinitamente agradecida, no cumprimento da sua sagrada promessa, mas a ideia de Joaquim Vara não lhe saía da cabeça. Recordava-se enleada da última vez em que ele a apelidara de amor-perfeito:

                Não chames amor-perfeito
                Às cousas que a terra cria
                Amor-perfeito há só um,
                O filho da Virgem Maria

Ele seria talvez um estroina, mas ela nunca gostara assim de ninguém como agora gostava deste moço. Talvez seja uma tentação do demónio, reflectia ela aterrada. Lembrou-se de rezar a coroa gloriosa, mas naquela algibeira não trazia rosário. Recolhe do chão para a algibeira sete pedrinhas, correspondentes aos sete mistérios, e contando as dez Ave-marias pelos dedos, vai deitando fora uma pedrinha sempre que acaba um mistério, e ao tirar a última estava já em frente do cruzeiro, onde fez a oração do oferecimento.
A sobrinha do ermitão era sua amiga. Conversaram por alguns minutos as duas a meia voz. Dos olhos da Amália rolaram duas grandes lágrimas da cor de opalas. Encerraram-se num quarto terreiro. A sobrinha do ermitão com tesoura corta sem piedade, muito rente, toda a enorme trança da Amália. Ataram-na com uma fita de seda branca. Não teve outra mortalha. O sacrifício estava consumado. A promessa estava cumprida. Dirigiram-se ambas, como um cortejo fúnebre, a sepultar aqueles formosos despojos que durante a vida fizeram pecar de inveja tantas mulheres. O seu jazigo era humilde. Permanece pendurada ao lado dumas carinhas de criança e peitos de mulher feitos de cera.
Viam-se penduradas interiormente nas paredes do outão manifestações simbólicas dos miraculados, moldadas em cera: gargantas ofertadas a São Braz, advogado contra essas doenças, corações a Santo Arnaldo, olhos a Santa Luzia, etc. Fazem voto a esta Santa, uns de uns olhos vivos, isto é, de uma galinha, canhona ou vitela, outros de uns olhos de prata trabalhados por um ourives, e vendidas essas ofertas, o seu produto é aplicado às despesas do culto.
Estas piedosas manifestações populares de agradecimento pelos votos realizados são toleradas pela Igreja e representam, na evolução do sentimento religioso uma necessidade da alma humana satisfeita pela Divindade Já os sacerdotes do paganismo romano, chamados Fictores, faziam vítimas fingidas de pão ou cera, pois nos sacrifícios consideravam as vítimas fingidas, como verdadeiras.
As duas ajoelharam, por momentos, juntas primeiro no altar-mor, depois no de Santa Isabel, a benfeitora daquele templo.
No domingo da próxima quinzena recebia a sobrinha do ermitão um recado para assistir em Rio Frio às bodas da Amália da trança loura com o Joaquim Vara.

De Manuel António Ferreira Deusdado, in Escorços Transmontanos, Ensaio de Literatura Regional, edição Livrarias Aillaud e Bertrand, Lisboa - Angra do Heroísmo, 1912. Trata-se da versão original, já que, inexplicavelmente, nunca foi reeditado.
Texto e foto enviados por António Coelho

3 comentários:

  1. Obra fundamental da literatura de raíz etenográfrica esquecida pelos poderes de responsabilidade cultural.Tanto dinheiro gasto em projectos vazios mesmo no campo editorial. Não há uma associação ,centro,ou um simples grupo defendedor de causas perdidas?
    Leitor



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  2. Fantástico e elucitavivo este texto!
    Parabéns ao autor.
    Leitora

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  3. Desconhecia por completo a obra, cujo excerto acabo de ler. Tanto saber, tanto conhecimeto, para além da fantástica história da Amália da trança loura! A ideia que fica é que a obra é excepcional.
    O autor, Manuel António Ferreira Deusdado, merece reconhecimento e a sua obra merece reedição.

    Júlia Ribeiro

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