segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Memórias Orais - Ana Casada

Tem 85 anos e durante toda a sua vida não conheceu outro ofício senão o trabalho do campo. Com os dez anos de quem ainda pouco conheceu da vida já guardava vacas, sozinha, e nunca foi à escola. “Não aprendi sequer a ler, foi trabalho no campo sempre, a segar, a mondar e a arrancar batatas, a tudo...”.  Viveu mais de trinta anos em Freixo de Espada à Cinta, depois casou, aos 30 anos. Diz com o humor, que pouco se deixa transparecer, que casou tarde porque não se lembrou mais cedo. Foi casar a Poiares, onde com o marido sempre viveu das lides do gado.

Também teceu, por encomenda, “tecia umas mantas com trapos e com algodão e ganhava-se bem”, mas nunca largou a vida de pastora, pois as dificuldades nunca lho permitiram.

Ana Casada é de poucas palavras mas de resposta afiada, “agora aqui estou, não me morro nem a tiro”, diz, como quem não quer fazer as pazes com a vida. O marido faleceu recentemente, aos 91 anos, com quem esteve casada mais de meio século. Está sozinha, “a vida foi muito difícil”, diz, e levou-lhe um filho que não chegou a conhecer o dia. 

É em Poiares, no Centro Social e Paroquial da aldeia, que há quase dez anos vai passando os seus dias. Agora já não se molha como quando era menina e tinha que andar com o gado à chuva, “quando chovia metíamo-nos entre os baldes da água a ampará-la”. Recebia 20 escudos de jeira, metade do que o homem recebia. Eram os tempos, onde os dias melhores tardavam muito a chegar.

Joana Vargas

Sem comentários:

Enviar um comentário