sábado, 5 de dezembro de 2015

"Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria" (1974)

A EMIGRAÇÃO LEVOU FAMÍLIAS INTEIRAS

Partida para França
 A emigração, acentuada nesta zona a partir de 1963-1964, levou para França e para a Alemanha Federal famílias inteiras, cujo vínculo com a terra de origem é uma incógnita projectada no futuro. Concretamente há muitos emigrantes que deixaram no concelho de Moncorvo os familiares ascendentes e que por ali têm os filhos, principalmente quando em idade escolar, quer aboletado na vila (Ciclo Preparatório, Ensino Secundário), quer nas aldeias natais (Ensino Primário); e sucede até que em terras como a Açoreira, diversamente da regra quase geral, têm emigrado só os chefes de família. O problema mais agudo do hipotético regresso é o dos agregados familiares completamente radicados no novo local de trabalho do pai (e da mãe).
De facto essas famílias têm comprado regularmente os seus «prédios», com um ou outro episódio pitoresco à mistura, na expectativa de um dia voltarem e serem «alguém». Mas há cada vez mais gente que refaz de todo a vida na França e na Alemanha: aí adquire o seu «étage»; aí aplica francos ou marcos em títulos vários de investimento; aí educa já os filhos, cujo regresso é ainda mais hipotético que o dos pais.
No primeiro dia completo que passei em Moncorvo, saí da vila e fui às aldeias próximas na fragada da Cardanha. Em ocasiões seguintes andei pelo Felgar, Maçores, Urros, Peredo do Castelhanos e lugares mais pequenos; não prolonguei o inventário pela razão simples de que os problemas se repetiam de uma para outra terra e, não sendo esta reportagem uma busca turística do «Portugal Desconhecido», havia que sistematizar informações e recortá-las com a visão mais experiente dos moncorvenses que contactei.
Moncorvo - Paris
Das aldeias mais importantes do concelho só a Açoreira não tem estrada (actualmente em construção), o que não quer dizer que os transportes rodoviários houvessem resolvido tudo. Utiliza-se com frequência o automóvel de praça, em especial de e para a vila. No Natal e no Verão, o emigrante recém-chegado para passara férias já por vezes traz o seu carro («olha o avec!» disseram-me que se diz na vila, pelo menos em surdina), e assim se passeia, areja os parentes, acelera e trava nas festas dos oragos. A quadrícula de transportes, como se vê, não é famosa, como famosa não é a cobertura sanitária.
Das aldeias vêm todos os dias para Moncorvo, direitos às instalações do Ciclo Preparatório ou à Escola (Secundária), dezenas de estudantes, talvez mesmo mais de uma centena, nas camionetas de carreira ou no comboio. Na sua maioria são filhos de emigrantes. Mas a maioria dos filhos de emigrantes, por opção dos pais ou porque não têm nas suas aldeias parentes que lhe sirvam de apoio, vive realmente em Moncorvo, não raro em condições deprimentes de instalação e convívio.
Nota-se, sim, um esforço muito claro, por parte dos emigrantes, de darem estudos aos descendentes; será também em função deles, tanto quanto do seu próprio possível regresso, que compram as «cortinhas», depois os terrenos maiores e eventualmente um sítio para construção (até na vila).
"Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria",    texto de Fernando Assis Pacheco,fotografias de Leonel Brito - in “República”, Março de 1974 .

1 comentário:

  1. A emigração levou primeiro os homens, só depois as mulheres e os filhos, fora os que já nasciam na Alemanha, na Suiça ou no Luxemburgo.
    Neste país chegou a haver mais crianças portuguesas nas escolas primárias do que luxemburguesas.
    Mais de metade da 2ª geração ficou por lá. Então da 3ª geração nem se fala. Até da língua portuguesa pouco mais resta do que uma vaga memória.

    Júlia Ribeiro

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