sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Memórias Orais - Américo Massa

“Dei quinhentos escudos por ela. Sabe lá o tempo que eu andei para poupar os quinhentos escudos para a bicicleta nova”

Aos 95 anos diz só ter “um bocadinho de falta de ouvido” mas parece estar informado sobre todos os assuntos. A cada frase parece esboçar um sorriso, ainda que disfarçado pelo bigode rigorosamente aparado. Américo Massa já conheceu muitos tempos e de alguns preferia não se lembrar, “íamos para a escola, andávamos descalços e, às vezes, quando íamos a fazer o exame da 4ª classe, era quando usávamos umas alpercatinhas de borracha por baixo; aquele que não tivesse posses, fosse mais pobrezinho, nem isso tinha para calçar, ia descalço à mesma a fazer o exame da 4ª classe”. Foi resistindo, e o tempo que por ele foi passando não o fez vergar. Via-o antes como aliado, para conhecer coisas que muitos não chegariam a conhecer e diz sem ironia “apesar de tudo, a vida ao mesmo tempo era alegre”.

Trabalhou desde cedo, as crianças à época pareciam tornar-se adultas mais cedo. Ainda fez a 4ª classe mas a miséria dos tempos não permitiram que continuasse, “a pobreza era muita e tínhamos de ir a ajudar os pais naquilo que calhasse, numa hortinha que se tivesse plantado, com pimentos, com tomates, com a batatinha, com o feijão; ajudávamos lá na horta para termos as farturinhas para casa, para comermos, senão tinham que se ir a comprar, mas dinheiro não havia, era pouco”. Mais tarde foi cantoneiro e não conheceria outro ofício durante 20 anos, até que concorreu a cabo e “ficou bem”. Foi cabo de cantoneiros mais de vinte anos, até à reforma, 590 escudos na altura.


Conheceu o tempo em que não havia luz elétrica “nessa altura nós não tínhamos ainda luz aqui em Freixo; mais tarde veio dali de Espanha, atravessava aqui em baixo na Congida o rio, uns paus, em cima os fios que vinham ali para a porta do cemitério, era onde era a cabine da luz elétrica, e depois tinha um homem que lançava a luz, ia lá abrir a luz nas manivelas, e tirava”. A instalação elétrica em sua casa só viria mais tarde, quando teve possibilidades, tal como a canalização da água, “havia alguns cinco ou seis fontenários cá na Vila, na minha altura, com uma torneira, mas a água era pouca no depósito; tínhamos um depósito grande ali em cima, e vinha a água lá de onde estava captada; depois do depósito, então é que era distribuída para as casas que já a tivessem, aquele que não a tivesse distribuída ia com os cântaros para ao pé dos marcos, de madrugada a tomar a vez, mas tinha de estar lá a Guarda, porque senão as mulheres batiam-se, tudo queria encher os cântaros, era por vez , senão era o diacho”.

A vontade de viver não o deixava estar quieto e já depois de reformado Américo Massa continuou a trabalhar, “tinha uns Matuelinhos, como se costuma dizer, eram uns prediozinhos pequenos, trabalhava-os eu e colhia umas arrobitas de azeitona, umas arrobitas de amêndoa, umas quantas uvas, era assim sucessivamente”. O tempo foi passando por ele mas não passaram as memórias que ainda guarda com exatidão, como a carta de condução de bicicleta que era obrigatória na época. Também ainda guarda a sua 2ª bicicleta, era o seu instrumento de trabalho, “sabe lá o tempo que eu andei para poupar os quinhentos escudos para dar pela bicicleta nova”, que muitas vezes o haveria de levar a Barca D’Alva e a Ligares e onde transportava os “fiarpinhos” de bacalhau e por vezes uma tortinha de ovos, que faziam parte do farnel de um dia inteiro de trabalho.

A vida não foi fácil. Estava casado há 17 anos quando a mulher faleceu mas o compromisso haveria de ser pra sempre, pois ainda mantém a aliança rigorosamente cuidada. Desde esse dia que se habituou a fazer tudo sozinho, a cuidar da casa, da sua comida e de si, que sempre completava com o sobretudo e o chapéu, marcando a figura que, olhando, parecia estar em esquadria.

Quem olha mais perto, de Américo Massa conhece a ponta de teimosia que o mantinha em sua casa, em volta das suas coisas, sem querer dar “enfado” aos mais próximos, como quem quer, para sempre, lutar sozinho contra a passagem dos dias.

Joana Vargas

Nota do Editor
A entrevista foi gravada em Abril de 2015. Américo Augusto Massa faleceu a 19 de Dezembro de 2015. A LB Produções presta através desta crónica, uma pequena homenagem a este senhor e as sinceras condolências à família.

Leonel  Brito

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