quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

DO RELINCHO DO CAVALO DE MAZOUCO ou INTRODUÇÃO A UM TRATADO DE ESSENCIAIS INUTILIDADES,por Luís Borges e Amadeu Ferreira


[Arte do Paleolítico Superior. Mazouco, Freixo de Espada à Cinta. 2013]

Ao delinear um quadro dependurado na sala do tempo, prende-nos o fotógrafo à nua respiração intemporal própria das obras de arte, que não têm qualquer sentido útil, mas apenas são por elas mesmas justificadas, resistindo a não aninhar a fotografia no aconchego das arribas nem a debruando com a moldura do próximo Douro:
- primeiro, foi-se o xisto acamando por milhares de milhões de anos, tempo da inenarrável gravidez da Terra e seu inassistível parto; depois, por muito, muito tempo, pincelaram os líquenes com seus ocres a lisa superfície da pedra; foi então a vez de os bacelos das paredes, as azedas, os fetos e outras ervas acenderem seus sorrisos verdes nas bocas que a rocha foi abrindo ao abraço do sol e do gelo, do vento e da água;
- porém, só há escassos milhares de anos alguém, talvez um jovem cansado e revoltado de tanto coçar feridas e dores, viu naquela superfície lisa uma tela de xisto e decidiu afrontar os falsos sábios que, já então, o céu reservavam aos que mais triunfam na luta por aconchegar a barriga – ganhar muito dinheiro como agora se diz! –, passando dias sem fim a dar vida a um inútil cavalo, que não galopa, não relincha, não acasala, nem sequer erva come: era um puro prazer que irrompia da luz do picotado, era a arte pela arte a inaugurar a história muito antes da escrita, pois foi aquela a primeira porta da dignidade que nos levou além de nós e nos fez vencer o tempo; só depois, lição ainda hoje não completamente aprendida, outros vieram contemplar aquele cavalinho, sorrindo ante o seu galope irrequieto, sonhando no esvoaçar da sua crina e da sua cauda, invejando a redondez dos seus músculos e ventre, enchendo-se da força do seu sexo, revendo-se na elegância do seu longo e nutrido pescoço, tentando acender o ignorado vulto humano que o seu focinho aquece e os elementos não param de esculpir, ouvindo o eco do tresloucado grito que acompanhou o último golpe da pedra na rocha: RELINCHA!!!, muito depois recriado por Miguel Ângelo com uma martelada no joelho do seu Moisés, e um angustiado PARLA!!!
- a lição do milenar escultor sobre o que é o património da humanidade continua viva no ensurdecedor relincho do cavalo de Mazouco, proclamando um tempo em que nos começamos a erguer à altura de nós mesmos, inutilidades com que nem arqueólogos e historiadores querem perder tempo.

 Luís Borges (foto) e Amadeu Ferreira (texto) 

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2 comentários:

  1. belíssimo texto e uma foto notável.Saudamos com alegria e prazer cultural o regresso destes dos grandes senhores .Luís é provavelmente o maior fotógrafo da alma transmontana e o Amadeu Ferreira é o Amadeu.
    Leitor

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  2. Os nossos dois grandes artistas juntos outra vez ! É um acontecimento que não pode deixar de ser saudado enorme prazimento.
    Mais uma vez fotografia e texto se completam. Sobre o cavalo já o Amadeu tudo disse : arte pura, o seu "relincho ensurdecedor" ecoa muito para além de Mazouco e muito para além de quem o escuta ; sobre o texto, sinto-me tão minúscula, que nada me atrevo a dizer !

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