terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Livro - "Margarida Guerra Junqueiro, O mundo começa em Freixo de Espada à Cinta"

E um dia, o Manuel:
-     
    - Margarida preciso falar contigo, no escritório, não deixes entrar ninguém.

O ar é grave, sério, com o sobreolho carregado. Tinha almoçado com o amigo e transmontano, o ministro Trigo de Negreiros, que lhe aventou a hipótese de um Ministério. Ele é marinheiro, cumpre ordens, no mar ou em terra e mesmo quando se afasta para a área administrativa é isso que sente, o espírito de missão. Mas agora seria bem diferente, declaradamente teria que tomar decisões teria que tomar atitudes políticas. Ela aconselha-o a ponderar bem, a conversar com os grandes amigos e que só aceite se estiver disposto a sacrifícios, mal entendidos, vinganças e invejas. Ele, com o seu otimismo, acredita em muitas obras; ela, com o seu realismo, adivinha as muitas barreiras. Esconde dele o seu desagrado, os sacrifícios que fará com as obrigações sociais, a vida familiar tranquila que acabará, o desprazer em ser mulher de ministro ou de alguma forma de prestígio e poder. Em 2 de Agosto Manuel é nomeado Ministro das Colónias. Os seus muitos amigos, os da oposição ao regime e os da situação, têm a mesma atitude da Margarida: apesar das reticências que sentem, irão apoiá-lo. E é outra reviravolta na sua vida. Na sua família e em casa, ninguém se apercebe da sua agitação. Que bom o Sr. Comandante ser ministro, e a vida continua.

Nos meses anteriores tinham decorrido algumas cerimónias relativas aos festejos do centenário do nascimento de Guerra Junqueiro  que continuarão em Freixo, terra natal do poeta. Dia 23 de Setembro de 1950, inaugura-se num largo, arranjado e alinhado, um busto esculpido por mestre Teixeira Lopes. Discursos bonitos e calorosos e muitos ilustres convidados. Da família estão presentes a filha do poeta, Maria Isabel, a irmã Júlia, os sobrinhos Maria dos Anjos, Margarida e Augusto, seis sobrinhos-netos e muitos primos. A grande ausente é a sua mulher Filomena, de saúde frágil. Todas as festas na vila são organizadas pelo Presidente de Câmara, Major Alfredo Guerra, o grande amigo do Ministro, um homem culto e dinâmico, eficiente, sabendo derrubar ou contornar obstáculos. Inteligente, gosta da sua terra e do seu Douro. Estuda, escreve, publica, actua e faz.

Além de Freixo as comemorações são um pouco por todo o país: discursos em academias, nomes de ruas, avenidas e jardins, uma estátua em Lisboa.

In “Margarida Guerra Junqueiro, O mundo começa em Freixo de Espada à Cinta” de Isabel Gomes Mota, pág. 101

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