quarta-feira, 22 de julho de 2015

Martins Janeira -Centenário em Moncorvo

Martins Janeira em 1971,recebendo o Grande Cordão da Ordem
do Sol Nascente
Nascido em Felgueiras (Trás-os-Montes), em 1 de Setembro de 1914, Armando Martins fizera em Lisboa a licenciatura em Direito, tendo, uma vez obtida esta, leccionado no "Colégio Campos Monteiro", de Torre de Moncorvo. Em 1939, com 23 anos, entrara na carreira diplomática, o que lhe permitiu percorrer um bom pedaço de mundo: Congo Belga, Austrália, Japão, Itália, Inglaterra... O Japão, onde esteve, por duas vezes, de 1952 a 1955, como primeiro secretário, e de 1964 a 1971, como embaixador, foi o seu grande "encontro" e paixão, o foco mais intenso dos seus estudos. 
Tornou-se um orientalista de reputação internacional, tendo participado em congressos, nesta área, em Quioto, Oxford, Paris, Milão, Florença, Nice. Fez conferências em universidades de Oxford, Londres, Cambridge, Viena, Tóquio, Quioto, Pequim, Nova Díli, Nanquim, Singapura, Vietnam, Catmandu, etc. Possuía uma candura de velho sage intemporal, a um tempo distraído e muito atento. Marimbava-se, literalmente, para as convenções e protocolos: o dragão do protocolo inglês passou, com ele, as passas do Algarve... Disse-me, um dia, que sufocava com toda aquela pageantry inglesa. Certa vez, durante uma recepção, na Embaixada, fomos dar com ele — tendo abandonado afoitamente a sala onde estavam os convidados a trincar o croquete da praxe — descontraidamente sentado num degrau da ela escadaria da residência, com a nossa filha mais nova, então com 15 anos. Perante o nosso  espanto diante de tanta desenvoltura protocolar, confiou nos que ele e a Manucha tinham muito em comum e que estava  muito da conversa... E interpelou-nos: "Por que é que não a trazem mais vezes para conversarmos? Temos muito a aprender um com o  outro…  Às vezes, eu atingia o desespero: levava-lhe, na manhã de sexta-feira, para seguirem nesse dia, por mala diplomática as minhas Informações de Serviço, com os ofícios a capearem-nas e a serem por ele assinados, além de um ou outro assunto a discutir. Assinava  os ofícios sem pestanejar, mas quanto ao resto, ficava numa grande impaciência, levantava-se, pegava — me pelo braço e "Ó meu amigo, deixemos isso para outra ocasião. Está um dia tão bonito! Olhe, vamos sair, convido-o para almoçar... Vamos conversar!" Eu lá ia, com muito prazer, mas, ao mesmo tempo, aflito, a ver quando o apanharia disposto a falarmos do tal assunto. A consideração em que era tido no Japão, pude verificá-la, num dia em que um ministro japonês (não posso garantir que não tivesse sido o Primeiro Ministro...) veio de visita a um qualquer país da Europa, com escala por Londres. Tinha tempo suficiente para sair do aeroporto e vir à cidade. Pois fez questão de dirigir-se à Embaixada de Portugal e cumprimentar o embaixador Armando Martins. Devo ainda ao embaixador Armando Martins o privilégio de ter conhecido pessoalmente, na Embaixada japonesa, em Londres, o grande escritor japonês Shusaku Endo (o Graham Greene do Japão, como se lhe chamava...), sobre cujo romance, Silêncio, eu faria mais tarde uma comunicação, num congresso realizado em Santa Barbara: um ensaio que me saiu das entranhas feridas, pela sondagem ao reino do horror que naquela ficção se faz. Armando Martins permaneceu no posto até Setembro, altura em que passou à disponibilidade. Eu vê-lo-ia, depois, algumas vezes, no Estoril, almoçando com ele, uma ou outra vez. Devo-lhe ter sido apresentado, pela primeira vez, a um peixe que de todo desconhecia: o tamboril! A embaixatriz, Ingrid Bloser, era uma senhora de origem alemã, bonita, magra, exímia especialista nos arranjos forais japoneses – ikebana – sendo até das poucas pessoas ocidentais a quem foi dada permissão de ensinar, no Japão, essa exigente arte floral linear e harmoniosa. Falava um português cantante, bonito, com algum sotaque que lhe acrescentava um sedutor condimento.

Fonte: Acta Est Fabula - Memórias -IV- Peregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres (1976 - 1995) de Eugénio Lisboa . Opera Omnia Editora

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