domingo, 27 de maio de 2012

“Toleradas em Mogadouro - O suicídio de Maria Carçôna” -Apresentação

Por: António Pimenta de Castro
Cabe-me a Honra apresentar aqui, nesta 25ª feira do livro de Mogadouro, o novo livro do meu Amigo Antero Neto, com o título: “Toleradas em Mogadouro - O suicídio de Maria Carçôna”.
É, para mim efectivamente um privilégio, poder apresentar este texto, que tanto gostei de ler e que vos vai deliciar, quando o lerem. Sobre este texto falarei detalhadamente mais lá para a frente.
Vou fazer esta apresentação, falando de dois aspectos distintos: 1º o Homem e o Autor (intrinsecamente indissociáveis um do outro) e finalmente, sobre a supracitada Obra.
Começando pelo homem: Antero Augusto Neto Lopes, nasceu em Bruçó, concelho de Mogadouro, duas terras que lhe estão gravadas profundamente no seu coração, como o tem demonstrado a sua obra e a sua paixão). Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cidade que lhe está também no coração, como não podia deixar de ser, uma vez que, quem foi estudante em Coimbra jamais a esquecerá. (apesar de ser benfiquista, eu bem vi como vibrou com a vitória da sua Académica, quando esta conquistou a última Taça de Portugal em futebol...) Como diz o poema: tem saudades dela quem nunca nela viveu. O Antero não “passou” apenas por Coimbra, não, lá viveu intensamente a vida de estudante, da velha boémia estudantil e da vida associativa (a sua Associação Académica de Coimbra).
Pimenta de Castro,Antero  Neto e Paulo Carvalho
            Exerce, actualmente a profissão de advogado em Mogadouro, terra onde vive e a quem dedica um amor profundo. Por falar em amor, aqui tem os seus amores: a Raquel, a Ritinha e o Rodrigo.
           Para além de um excelente causídico, o Antero colabora com as revistas “!Bô” e Epicur (onde tenho o privilégio de ser seu parceiro, numa colaboração regular desta revista de topo da sua especialidade). Publicou os livros “Serões do Planalto” (contos, Editora Labirinto, 2006), que tive a honra de apresentar em Bruçó e “Bruçó – Memórias Paroquiais de 1747 e 1758 – Notas Históricas e Etnográficas” (ensaio histórico, Editora Cidade Berço, 2010), que tive a honra de apresentar aqui em Mogadouro.

 Sei que tem pronto a publicar em breve, outro livro de contos, que aguardamos com grande expectativa. Para além desta vertente de escritor, o Antero criou um blog, intitulado Mogadouro (Ho Mogadoyro), com uma grande audiência e que tem levado o nome de Mogadouro a todo o país e ao estrangeiro. Quando fomos recentemente (no Carnaval) a Paris, muitos emigrantes conheciam-no e visitavam-no frequentemente.
As suas obras, com uma grande qualidade literária, tornaram-no membro da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Vamos agora analisar a obra de hoje aqui se apresenta: “Toleradas em Mogadouro – O Suicídio de Maria Carçôna”.
Antes de passar propriamente à obra, direi que, como nota prévia, este trabalho, extremamente importante para Mogadouro (em particular e Trás-os-Montes em geral), para mim se inscreve na linha de pensamento da escola dos Annales, ou seja, um novo género de história, não da história factual, dedicada apenas ás grandes personagens, mas á História das mentalidades e, como diria um meu grande professor a “História dos homens sem história”. Ou seja, sobretudo ao estudo das mentalidades. Como diz a Wikipédia: “Fundada por Lucien Fevre e Marc Block, propunha-se a ir além da visão positivista da história como crónica de acontecimentos, substituindo o tempo breve da história dos acontecimentos pelos processos de longa duração, com o objectivo de tornar inteligíveis a civilização e as "mentalidades (…) Annales visam ser como um retracto do espectro de '29, uma época de mutações, que iria ser como que a catapulta essencial para um novo tipo de história, a económica, a social...e empreender um corte na história política, na história individual, mas, sem a arredar de cena, como a vertente mais social vinha sendo vitima (era um pouco ostracizada, colocada num patamar secundário, bem no fundo da história política ou militar...)” fim de citação.
        Escreveu o grande historiador Georges Duby, no seu livro “Amor e Sexualidade no Ocidente”: “O que fazia vergonha às nossas mães não já faz vergonha aos nossos filhos. É aqui que se dá a ruptura”. É neste sentido que hoje, mais do que nunca, se faz a História.
A obra “Toleradas em Mogadouro – O Suicídio de Maria Carçôna”, assim chamada por ser natural de Carção (concelho de Vimioso), de seu nome Maria do Nascimento Lopes, foi dividida pelo autor em três grandes capítulos: 1º A prostituição ao longo da História; 2º A prostituição em Mogadouro – o caso de Maria Carçôna e finalmente o 3º e último capítulo Regulamento policial das toleradas no distrito de Bragança. Desde já uma pergunta se põe, porquê Toleradas? O Antero esclarece-nos dizendo o seguinte: Prostituta: substantivo feminino (o latim prostituta); mulher pública, rameira, meretriz. Tolerada: substantivo feminino; prostituta que tem o nome inscrito nos registos administrativos e está sujeita à inspecção e regulamentação policial; mulher pública. (in”Grande Dicionário da língua Portuguesa”, 25ª Edição, Bertrand Editora).
Na 1ª parte do texto o Antero Neto dá-nos uma perspectiva deste tema na Antiguidade Clássica (Greco-Latina), apesar de ser considerada a profissão mais velha do mundo, poderia ter recuado bem mais longe…Mas adiante…Também nos fala em Portugal na Idade Média, como veremos.
        Na Grécia Antiga, as prostitutas eram designas por “porné” e aos prostíbulos de “porneion”. Além das “porné” também existiam as “bacantes”, que ao contrário das “porné”, eram mulheres livres. Ainda havia as “hetairas”, que eram acompanhantes de luxo (aonde eu já vi isto?...). não nos podemos  esquecer que Afrodite era a deusa grega do Amor…e Vénus era a sua semelhante em Roma. Para não me alongar mais, passemos a Roma, das bacanais, do luxo e do deboche. Como escreveu o Antero:”A própria lenda da criação de Roma assenta numa prostituta. Efectivamente, e a crer em vários estudiosos que tentam racionalizar o mito da fundação, a “loba” que amamentou os gémeos Rómulo e Remo não terá sido um exemplar feminino do género “Lúpus canis”, mas antes uma prostituta, que exercia a sua profissão junto dos pastores da região, e que se chamava “Lupa”. Daí terá nascido a designação dos “lupanária”, que eram os prostíbulos romanos”. Tal como hoje, também os tempos oscilavam entre os “moralistas” e os mais liberais. Não resisto a citar o livro do Antero em duas passagens (ambas na página 7, do seu livro. Assim o Antero Neto escreveu: O moralmente rígido Catão, o Velho, ao encarar com um nobre da nobreza romana a abandonar as instalações de um lupanar, disse-lhe: Bravo! É aqui que os jovens devem satisfazer os seus ardores, em vez de se atirarem às mulheres casadas!” E mais á frente o Antero cita uma inscrição encontrada numa estalagem, que é deliciosa, senão reparem: “Estajadeira, vamos a contas!
-Bebeste um sexteiro de vinho: um ás.
- Comeste guisado: dois ases.
-Está certo.
-Pela rapariga: oito ases.
-Está correcto.
-Feno para o macho: dois ases.
-Este macho vai ser a minha ruína!”
            Depois descreve o que se passou em Portugal que, não vou descrever, senão não compravam o livro…A não ser dois “aperitivos”. Em 1170 Afonso Henriques faz publicar  a primeira norma a reprimir o exercício da prostituição, mandando prender as “barregãs dos clérigos”…E o que sucedeu a D. Nuno Álvares Pereira quando tentou expulsar do seu exército as “mancebas mundaneiras? Foi o diabo, pior que os Castelhanos… “O próprio condestável declarou depois que nenhum perigo ou batalha receara tanto, nem tivera inimigos que mais lhe custassem a vencer; mas, com a sua astúcia e prestígio, sempre conseguiu sair-se bem da arriscada empresa, logrando a expulsão desejada”. Mas isso devem ler neste livro, que cita Fernão Lopes e o Abade de Baçal.
               No cerne da questão, deste livro, está o suicídio da Maria Carçôna.
               Em Mogadouro não havia qualquer casa de tolerância. “isso não impediu, contudo, a presença de toleradas e o exercício da prostituição na vila. Tal facto é contactável a partir de uma leitura atenta e crítica do processo judicial de Maria Carçôna”, aqui a prostituição seria mais “sazonal”. Esta tolerada suicidou-se por enforcamento, cita o Antero “O cadáver pendurado da torsa da porta da cozinha, no dia 16 de Outubro de 1916” (nos Gorazes), por causa de um amor mal resolvido. Depois provou-se que foi mesmo suicídio. Diga-se que era nesta Feira anual que, segundo me contaram naturais de Mogadouro, uns já falecidos, outros, felizmente ainda vivos, que se dava a “iniciação sexual” da maioria dos jovens, sobretudo do sexo masculino, na terra de Trindade Coelho (no local dos castanheiros e nas Sortes). Mas quem eram estas prostitutas? Diz-nos o Antero” as prostitutas eram mulheres novas, abandonadas pela família ou a ela fugidas numa tentativa de escapar ao espectro da miséria. Depois diz: “Em jeito de conclusão, pode dizer-se que a prostituição no concelho de Mogadouro era, sobretudo, um fenómeno sazonal, não assumindo particular relevância, ao ponto de aqui se instalar uma casa de tolerância, permanente e organizada, existindo uma ou outra meretriz que por cá achava acolhimento, como o caso de Maria Carçôna, ao contrário do que sucede nos tempos que correm quando se constata a existência regular e habitual de casas de alterne, na vila e no concelho.”
Este é um caso interessante que não vou desenvolver mais pois senão, não compram o livro.
         Finalmente na 3ª parte está o Regulamento Policial das Toleradas no Distrito de Bragança, publicado em 18 de Janeiro de 1908. É interessante verificar a preocupação com a higiene e com a saúde pública. Este regulamento remete-nos para a mentalidade da época. Hoje, com a hipocrisia da proibição da “profissão mais antiga do mundo”, leva à sua “clandestinidade” e á propagação de doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a SIDA. Também, hoje as pessoas estão mais esclarecidas, nomeadamente nas escolas com a obrigatoriedade da educação sexual, contudo é preciso ter em atenção a este perigo permanente sobre a nossa sociedade,
Obrigado por me ouvirem, vão ter oportunidade de ler este livro que nos conta uma “história” diferente de Mogadouro e do nosso país.
Tenho Dito!
                                     António Pimenta de Castro,

 Mogadouro, 27 de Maio de 2012 

Nota: apresentação, feita por António Pimenta de Castro , do livro de Antero Neto  "Toleradas Em Mogadouro - O suicídio de Maria Carçôna",  na Casa da Cultura de Mogadouro.              

6 comentários:

  1. Gostei bastante de apresentar este livro. Parabéns Lelo, sempre em cima dos acontecimentos

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  2. Não é justo colocarem este texto e depois vamos às livrarias,quiosques e super e o livro não esá à venda.Como fazemos para o ler?Organizamos um passeio a Mogadouro,almoçamos na Lareira e fazemos uma ronda pelas cafetarias à procura dos dois autores.De castigo ,um assina e fala do livro ,o outro fala dos dois ;autor e livro. Regresso a casa com paragem no Artur.O professor Pimenta de Castro podia trazer uns livros para vender aos moncorvenses (medida troiquiana).Lá se vai o passeio.
    Lagar ,Carró e na papelaria do senhor Cardanha,dez exemplares em cada.Sugestões.O texto do professor abre o apetite.
    Leitor

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  3. Arraiais,feiras e putas sempre andaram ligados.Perdi (ou ganhei)os 3 na Senhora do Amparo à luz do luar e dois à espera.Voltei feliz e com uma blenorragia - descobri 15 dias mais tarde.
    Das minas de ferro às barragens do Sabor dava um bom trabalho de investigação.
    Marialva

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  4. Ora então, a pedido de várias famílias, lá encarregarei o Pimenta de Castro de colocar o livrinho à disposição dos amigos moncorvenses na Taberna do Carró. Um abraço a todos.
    Antero

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  5. O meus parabéns ao autor Dr. Antero Neto e também ao apresentador Dr. Pimenta de Castro.

    Para ambos um grande abraço.
    Júlia Ribeiro

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  6. Parabéns ao Meu querido amigo Dr. Pimenta de Castro

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