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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

TRINDADE COELHO E A LUTA PELA EMANCIPAÇÃO POPULAR

    Por: António Pimenta de Castro[1]

  Minhas Senhoras e meus Senhores:

É uma honra para mim poder participar activamente, nestas XIV Jornadas Culturais de Balsamão, pela mão amiga do Dr. Carlos Abreu, investigador e amigo, organizadas pelo Centro Cultural de Balsamão (Convento de Balsamão) e Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, com todo o mérito, oportunidade e justiça, salientando os 150 anos do nascimento de Trindade Coelho. 
            Estas breves palavras são a minha homenagem ao egrégio escritor de Mogadouro, nos 150 anos do seu nascimento (Trindade Coelho nasceu em Mogadouro, no dia 18 de Junho de 1861. Faleceu em Lisboa, no dia 9 de Agosto de 1908). Quero falar-vos de uma faceta importante da sua luta, que tanto me toca e que foi um dos seus grandes combates, ou seja, a sua luta, quer contra o analfabetismo, quer contra a exploração do povo e a sua militância por uma cidadania activa e consciente. Trindade Coelho, para além de ser o Mestre do conto rústico, como lhe chamou o meu amigo Antero Neto, foi um Homem que se apercebeu que é preciso que a Luz da cultura e do ensino vença as Trevas da ignorância e da superstição. O nosso escritor compreende verdadeiramente a alma do povo. Como escreveu Trindade Coelho: “Tudo o que é bom é simples[2]. E, mais á frente, reforçando esta ideia, escreveu: ”Tudo o que vem do povo interessa. O povo é o passado. O povo há-de ser também o futuro… Tudo o que vem do povo interessa: costumes, crenças, superstições, poesia, música – e até a sua própria culinária…”[3]. De facto, ele penetra bem fundo na alma popular. Trindade Coelho defende a cultura do Ser, e não a do Ter. Em Trindade Coelho, para além do aspecto estritamente literário, o seu empenhamento e obra abrangem muitas áreas de interesse, como por exemplo, o jornalismo, a elaboração de livros para a educação para o povo, bem como uma vasta obra sobre Direito. Após uma longa ponderação, escolhi para esta minha modesta palestra, o tema TRINDADE COELHO E A LUTA PELA EMANCIPAÇÃO POPULAR, na medida em que ele foi um incansável lutador pela Liberdade, pela emancipação popular e pela Democracia, pagando com a sua vida a incompreensão dos “políticos” e outros oportunistas do seu tempo.
Poderia falar-vos da sua biografia (aliás já sobejamente divulgada e estudada); poderia falar do ilustre jurisconsulto (formou-se e publicou vários livros de Direito); do insigne jornalista (escreveu incontáveis artigos em inúmeros jornais e revistas); do contista consagrado, da sua imensa correspondência epistolar (reunidas recentemente, a sua maioria, pelo grande investigador Hirondino da Paixão Fernandes e publicadas, em dois volumes, na revista Brigantia); do magistrado incorrupto e coerente; do activo cidadão interessado na situação e exploração dos analfabetos e dos simples; do eminente pedagogo, ou do lutador pela cidadania, entre outras facetas da sua multifacetada vida literária e de cidadão. Decidi-me por vos falar, em pouco tempo, para não vos aborrecer (pois muito mais haveria a dizer sobre este tema), do paladino da libertação do povo português do seu tempo, obviamente dentro do seu do seu contexto histórico. Como escreveu o Historiador Amadeu Carvalho Homem, Professor da Universidade de Coimbra: “O pequeno José Francisco identifica-se muito com a terra e com as gentes transmontanas e a sua prosa virá a expressar a candura rústica e a simplicidade campesina destas origens[4]”.
José Francisco Coelho, era assim o seu nome, só perto do final do seu curso em Coimbra passou a usar o apelido do pai então recentemente falecido, (o seu pai chamava-se João da Trindade Coelho, faleceu a 5 de Agosto de 1883, quando se encontrava nas termas de Longroiva[5]) e a assinar José Francisco Trindade Coelho, nome pelo qual é conhecido na Literatura. Nasceu em Mogadouro, no dia 18 de Junho de 1861, filho de um comerciante, que se interessou pela sua formação. A sua infância teve, como não podia deixar de ser, uma enorme influência na sua vida e no seu pensamento. Há episódios da sua infância que evidenciam o seu carácter, assim, na sua Autobiografia, escreve Trindade Coelho esta passagem, que não resisto a transcrever: “ De minha mãe (que ele perdeu bem cedo quando estudava em Travanca, aldeia do concelho de Mogadouro, foi para lá aos oito anos) eu pouco me lembro com a memória; mas eu quando quero muito a uma pessoa pouco me lembro dela senão com o coração – e não sou capaz de me representar mentalmente da sua figura, ainda que a veja a toda a hora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

(JOÃO BERNARDO SÁRREA DE BARROS),por António Pimenta de Castro*

 Lembrando O  SENHOR BARROS Dentista

                                                 
 DEDICATÓRIA

Quero dedicar este meu trabalho, à memória do meu saudoso amigo, João Bernardo Sárrea de Barros, mais conhecido por Sr. Barros dentista. Pelos muitos e memoráveis momentos de convívio, vividos em conjunto, juntamente com o meu querido e saudoso Tio Mário, junto à sua reconfortante lareira, em noites de longa invernia transmontana, em tardes de douta conversação, no seu consultório, quer ainda, em noites encantadas de luar, (como só em Mogadouro existem) perfumadas pelo aroma do meu cachimbo e pela sua agradável presença, sentados no pátio da sua casa, em amena e harmoniosa cavaqueira.
 Às suas filhas, Maria da Conceição Barros Afonso e Maria Júlia Guarda Ribeiro, pelo que me ajudaram na recolha de informação sobre a vida do seu saudoso pai.    

                                                      À LAIA DE INTRODUÇÃO

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CRÓNICAS DE MOGADOURO. Por: António Pimenta de Castro

                                                               CHEGOU O OUTONO  

                                Chegou o Outono...caíram já as primeiras bátegas de água...”Os Deuses” não se esqueceram dos homens e enviaram a chuva que vai fecundar a Terra-Mãe. A Natureza, depois da canícula tórrida do Verão, está desesperadamente amarela...ávida de chuva, com a “pele” gretada. Aqui e além vêem-se manchas negras de incêndios...a terra suplica por água que, como qualquer peregrino após longa caminhada, está cheio de sede...Cai a primeira chuvada...a água escorre pela face da terra, como lágrimas de gratidão em face humana...É este o milagre da vida!...
            Para trás ficou mais um Verão, lembranças de um tempo alegre em que descontraidamente se passaram férias junto ao mar...tempo de passeios com a família, de refeições ao ar livre, debaixo de sombras, à frescura de um rio...tempo em que recebemos amigos e visitamos terras lindas...
            Chegou o Outono...é tempo de regressar a casa...Agora ao vermos cair a chuva por detrás de uma vidraça, invade-nos uma estranha tristeza...como se a vida perdesse sedução, como se de repente se esfumasse a magia...ecoam ainda em nós as alegres canções ouvidas nas noites quentes de Verão, mas a “música” da chuva chama-nos à realidade, é tempo de voltar ao aconchego do lar, ao dia a dia, enfim, à vida...Mas estamos tristes...nem o perfume que exala da terra quente após uma chuvada, nos contenta...e no entanto, a vida chama-nos, o ciclo da vida continua, é o eterno retorno...
            Como por milagre, as ruas da vila enchem-se de estudantes, quais andorinhas que regressam todos os Outonos contagiando tudo e todos com a sua alegria...no campo, ouvem-se “roncos” de tractores, ao longe, nos montados, recolhendo lenha para a longa invernia que se aproxima. Nas vinhas ainda se ouvem vozes alegres, são as derradeiras vindimas...
            É sempre com uma certa nostalgia que encaro a vinda do Outono, não sei explicar bem porquê, no entanto, é uma das épocas do ano que mais gosto, talvez por ter nascido em Outubro...não sei, o que sei é que adoro sentir o perfume da terra após uma chuvada, de pasmar perante a imensidade das cores das folhas das árvores e das vinhas, com as suas mil tonalidades, antes de caírem (aqui a Natureza usa todas as cores da sua paleta), de ver os primeiros fumos das chaminés a subirem ao céu, como em súplicas ao Criador, enfim, de estremecer aos primeiros frios...
            Como dou graças ao Criador por viver aqui, em Trás-os-Montes, no meio desta Natureza linda, a quem o Santo de Assis chamou nossa irmã...Como tenho pena daqueles que vivem na cidade, rodeados de betão e que apenas sabem que é Natal porque na televisão aparecem os anúncios da sociedade de consumo, anunciando que é tempo de fazer compras, ou pelo homem vestido de vermelho, de longas barbas brancas, que saiu de um anúncio da Coca-Cola...Aqui na Província, com as raízes bem fundas, os olhos espraiando-se pelo horizonte, metemos a mão na terra, agarramo-la e sentimos o seu cheiro.
            Não, os “da cidade” não vão aos bosques colher cogumelos, não sentem o cheiro a mosto e a vinho novo nas adegas, não provam a aguardente quente a sair dos alambiques. Não, não ouvem a bucólica “música” do chocalhar dos rebanhos, nem estremecem na cama ao “cantar das almas”. Nem se apercebem da despedida das andorinhas, nem sentem, com vossa licença, o “reco” a medrar na loja, com a farta vianda, aguardando o ritual da matança.
            Como é verdade a vida aqui! Aqui ainda se olha o céu a pedir chuva, ainda se cospe nos calos das mãos para as esfregar uma na outra, antes pegar no cabo de um “sacho”. Ainda se passa pela horta para se levar para a ceia umas couves. Aqui, ainda se apanha azeitona à mão, como quem desfia um rosário...
            Não, quem nunca soube ouvir a “música” da lenha a arder numa lareira, nem apreciou o “bailado” do fogo em volta dos “rachos”, numa noite fria, nem a sinfonia modorrenta dos testos de uma panela a saltitar em cima de um pote ao lume, não pode saber o verdadeiro sabor da terra.
            Queremos convidar o amigo leitor a visitar Trás-os-Montes neste Outono. Convidamo-lo a vir connosco, aproveitando uma réstia de sol, ver os tons vermelhos, esverdeados e amarelos das folhas das vinhas, dos carvalhos e dos castanheiros. A vir comer uma boa posta, um arroz de lebre ou uma deliciosa perdiz, acompanhados por um bom vinho tinto. Convidamo-lo a vir connosco ao monte colher cogumelos, a beber um pouco de aguardente ou provar o vinho novo, esse “néctar dos Deuses”. Vir comer castanhas assadas, passear por montes e vales, em que a mãe Natureza, no seu “instinto” de eterna renovação, todos os anos cumpre o ritual, sempre novo, da metamorfose das cores e dos sabores. A vir saborear o sabor da terra, transformada em caça, castanha, pão, vinho...Enfim a vir provar a vida...


                                                               Mogadouro, princípios de Outono de 2013.  
                                                                 António Pimenta de Castro                    

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OS CAMINHOS DE SANTIAGO NO CONCELHO DE TORRE DE MONCORVO,por Pimenta de Castro

... como a lenda da Cabeça Santa da capela
 da Nossa Senhora da Teixeira.
Foto:Lb 
INTRODUÇÃO
I
            Antes de mais nada, desejo agradecer ao departamento de língua portuguesa, da nossa escola, o convite que me dirigiu para participar neste 4º Encontro de Professores de Português. É com todo o prazer que aqui estou convosco.
            Escolhi como tema da minha exposição Os Caminhos de Santiago no concelho de Torre de Moncorvo. É um tema que me parece interessante. É um tema, que se procura leve, mas que me parece interessante, que pode dar pistas para uma rota turística e cultural do nosso concelho e que se enquadra perfeitamente no tema deste Encontro, uma vez que é precisamente na Idade Média que estas rotas de peregrinos atingiram o seu auge.
            Ao contrário do que se possa pensar, o Homem Medieval era um grande viajante. Viajava por razões económicas, políticas e também religiosas. Havia 3 pontos fundamentais para onde viajava por razões religiosas: Terra Santa; Roma (centro da Cristandade) e SANTIAGO DE COMPOSTELA, onde, segundo a tradição se encontravam os restos mortais do Apóstolo Tiago (Iago, Tiago, Jacobus, Jacques).
            Na Europa, sobretudo na Inglaterra, França e Península Ibérica, viajava-se sobretudo para Santiago, para onde apontava a Via Láctea, também chamada de Estrada de Santiago.
            Também passavam, como veremos, por Moncorvo esses Caminhos.
            É um convite que lhes faço, para virem comigo, à descoberta desses caminhos perdidos, por velhas estradas romanas, pelos caminhos medievais “Já não movidos pelas indulgências papais mas por um estranho e persistente impulso de tentar compreender como nesse enorme cadinho de povos e culturas em que se gerou, afinal, a Europa Moderna”. É um caminho, por terras transmontanas, em busca de sinais de outros tempos, de memórias do culto jacobita, de estradas e pontes romanas e medievais, de ermidas românicas, do romanceiro popular, como a lenda da Cabeça Santa da capela da Nossa Senhora da Teixeira.
            Peço-lhes que peguem no bordão de romeiro, calcem umas sandálias, ou modernamente uns ténis, numa mochila e me acompanhem, por estes velhos caminhos poeirentos, mas tão cheios de História. Vamos viajar pelo passado, descobrir velhas pedras, cruzeiros ou igrejas alcandoradas no alto de montes.
            Peguemos na mochila e partamos.


HISTÓRIA

II

sábado, 26 de julho de 2014

A OBRA DO RESGATE DOS MARRANOS EM LAGOAÇA,por António Pimenta de Castro

Como é sabido de todos, Lagoaça foi sempre terra com muitos judeus e, após o decreto de expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente, judeus em Portugal, o culto manteve-se, sobretudo nas zonas mais afastadas do nosso país, como é o caso de Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, Vilarinho dos Galegos, Carção, Argozelo, entre muitas outras, só para falar de povoações transmontanas. Começa assim, a época dos criptojudaísmo, ou seja, praticavam o culto judaico às ocultas. Quem não se convertesse “oficialmente” ao cristianismo teria de sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além. Quem ficou, oficialmente eram os chamados cristãos-novos, praticando, no recato seu lar, ou no de correligionários, o culto hebraico, em muito segredo. Depreciativamente, começaram a chamar-lhes marranos. Como escreveu o meu amigo João Guerra: “A degradação das comunidades judaicas portuguesas acontece progressivamente, sobretudo a partir de 1536, quando é estabelecida a Inquisição.
Agora, a sobrevivência das comunidades judaicas, enquanto tal, impunha a preservação da sua religião e identidade, enfrentando e adaptando-se às novas circunstâncias de perseguição e terror. Assim, os judeus (marranos) portugueses, vivem o judaísmo possível, observado religiosamente na medida que lhes é possível, com um inequívoco sentido de identidade. Este processo passou por uma atitude de comunidade. Foram inventadas formas subtis e engenhosas de preservar e praticar a religião e tradições judaicas, ocultando essas práticas ao mundo alheio, transmitindo-se entre famílias de geração em geração até aos nossos dias”[1].
            Após séculos de discriminação, perseguição e tortura, em 1821, a Inquisição foi extinta, não querendo isso significar que o preconceito anti-judaico, deixasse de existir, mesmo em Trás-os-Montes, onde eram numerosas os criptojudeus. A mentalidade muda muito lentamente…O liberalismo e, mais tarde, a República, aliviaram algum sufoco quer físico, quer sobretudo psicológico em que viveram as nossas comunidades judaicas (marranas), procurando estas afirmarem-se como tal, continuando, no entanto a manter um rigoroso secretismo, marca que ficou gravada na sua memória colectiva, pela Inquisição, até aí sempre omnipresente e omnipresente. Esse medo fez-se sentir muito para lá da sua extinção, e, em certa medida, ainda hoje está presente no subconsciente de muitos descendentes de judeus.
            No século XX, deu-se ao crescimento da população judaica em Portugal, não só pela vinda de estrangeiro, à medida que o nazismo e o fascismo se iam instalando, mas, sobretudo, e é isso que mais nos interessa, pela OBRA DO RESGATE, fundada por um judeu português, o capitão Barros Basto (Ben-Rosh). Esta obra, destinava-se a restituir ao judaísmo português a grandeza de outros tempos, ajudando a: “resgatar as suas comunidades do cativeiro físico de dispersão e isolamento do mundo judaico e sobretudo do cativeiro espiritual para onde séculos de perseguições e clandestinidade os haviam atirado (…) A comunidade israelita do Porto foi fundada em 1923 pelo capitão Barros Basto. Também fruto do movimento judaico da “Obra do Resgate” foram constituídas formalmente nos anos 20 e 30 as comunidades judaicas de Bragança, Covilhã e Pinhel, as mais importantes, Macedo de Cavaleiros, Castelo Branco e outras, e ainda numerosas juntas judaicas (como a de Lagoaça, que falarei mais adiante), em aldeias e vilas do Nordeste, Douro e Beiras. (…) O infame processo contra o capitão Barros Basto e a perseguição do “Estado Novo” ao movimento da “Obra do Resgate”, levou a que nos anos 40 as sinagogas de judeu marranos fechassem as suas portas uma a uma, e as comunidades se desagregassem como instituições organizadas[2]”. 
            Antes de falarmos especificamente de Lagoaça, não quero esquecer o grande estudioso do judaísmo, nomeadamente nordestino, chamado Amílcar Paulo, com profundas raízes na vizinha freguesia de Fornos. Também o Abade de Baçal, no V volume, fala nos judeus de Lagoaça.
            Para não vos enfadar mais, vamos a Lagoaça.
 Na sinagoga do Porto, situada na rua Guerra Junqueiro, o capitão Barros Basto, criou uma “escola” yechiva, onde vários alunos aprendiam o judaísmo correcto e, após a sua formação, eram distribuídos pelas várias comunidades, sobretudo do interior do pais, para aí ensinarem os judeu marranos o autêntico judaísmo. Para esta zona de Trás-os-Montes veio o Reverendo Moisés Abrantes, natural da Beira (do Fundão ou da Covilhã). Eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes. Foi num encontro histórico, realizado em Trancoso, nos finais dos anos 80, sobre os judeus nas Beiras. Nas apresentações, eu referi que vivia em Mogadouro. Foi então que vi um ancião de cabelo completamente branco que, ao ouvir a minha residência, arregalou os olhos, num misto de espanto e de saudades. Então, num intervalo, ele disse-me “-Sabe? Eu já ensinei em Lagoaça e Vilarinho dos Galegos…”. Fiquei espantado…e, logo trocamos endereços e telefones. Soube, mais tarde que tinha uma livraria no Fundão (onde então residia) e que tinha vários livros publicados. Mandei vir os seus livros, pois pensava que falariam da sua experiência nas nossas terras mas, para desgosto meu eram de poesia…Penso que Deus já o levou para junto de si…
Quero partilhar convosco a noticia do jornal da comunidade judaica do Porto (Ha-Lapid), integrado no movimento da “Obra do Resgate”, publicado em 1934 ”- OBRA DO RESGATE EM TRÁS-OS-MONTES” – No dia 18 de Outubro passado partiu para Trás-os-Montes, como missionário da “Obra do Resgate” o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes.
Em Lagoaça aguardavam a sua chegada muitos marranos (cristãos-novos), apesar de ser dia de trabalho, e entre eles a família dos Talmidim, por estes avisados.
Fez em várias casas de marranos orações e homilias, esforçando-se e conseguindo reavivar a fé dos nossos antepassados já um tanto amortecida. Ali formou uma junta judaica e seguiu para Vilarinho dos Galegos onde criou duas escolas: uma para meninas, frequentadas por cerca de 20 alunas e outra para rapazes, frequentada também pelo mesmo número de alunos.
Às suas orações, parte em português, parte em hebraico, assistiam normalmente cerca de 80 pessoas, em média. As orações eram finalizadas por homilias nas quais fornecia o conforto espiritual.
Fadou em acto solene as seguintes meninas: Lucinda D’Almeida, Raquel Davim, Cândida D’Almeida, Raquel Guilhermina Lopes, Ester Branca Rodrigues e Ernestina Branca.
Na sua qualidade de preceptor israelita visitou as povoações de Vilar do Rei, Vila D’Ala, Mogadouro e Fornos, nas quais falou com vários marranos.
A 23 de Janeiro regressou ao Porto, tendo sido saudosamente sentida a sua partida sobretudo em Vilarinho dos Galegos, lugar em que mais se demorou.
As juntas ficaram assim constituídas:

LAGOAÇA
Presidente – Acácio D’Oliveira
Secretário- Manoel Augusto Carpinteiro
Tesoureiro- Acúrcio Moreira


VILARINHO DOS GALEGOS
Presidente- Manoel Lopes Rodrigues
Secretário – Francisco José Rodrigues
Tesoureiro- Artur Augusto Rodrigues”

A parte mais importante das habitações da gente judaica (sendo, possivelmente as mais ricas) eram no Bairro de Cima (na zona da Rebola), a da gente mais modesta (mas muitos também eram descendentes de judeus) no Bairro de Baixo, também conhecidos, creio, que por “penicheiros”. Conheço um amigo meu que ia, quando estava em Trás-os-Montes, celebrar o Shabbat a Lagoaça com um seu amigo, que praticava o judaísmo, mas que, infelizmente já faleceu. Espero ter contribuído, com este meu modesto trabalho, para se fazer alguma LUZ sobre a história dos judeu marranos de Lagoaça. SHALOM

                                                                       Por: António Pimenta de Castro  
         



[1] - João Guerra, na Introdução, página 16, ao livro Os Judeus na Obra de Trindade Coelho, de António Pimenta de Castro, Editado pela Câmara Municipal de Mogadouro, 1998.
[2] - Autor e obra citados na nota de rodapé nº1

quarta-feira, 16 de julho de 2014

VIAJANDO EM VIANA COM GUERRA JUNQUEIRO, por António Pimenta de Castro


 Guerra Junqueiro fez sempre parte do meu imaginário infantil. É daquelas personagens/fantasma que povoam a nossa imaginação de criança e nos deixam o seu cunho impresso na nossa memória. Parece que viveram desde sempre connosco. Na verdade, bem menino ainda, habituei-me a ouvir falar do grande poeta: em casa, a meu avô, seu incondicional admirador e a minha mãe, ouvindo-a recitar alguns poemas seus; na rua, aos amigos do meu avô e ainda a muitas outras pessoas de Viana do Castelo, terra onde viveu e deixou memória.
             Com que saudades me recordo de ir pela mão de meu padrinho e avô materno, não andava sequer na escola primária, para o Café Bar (actual Caravela), na Praça da República, onde meu avô se encontrava ritualmente com a sua habitual tertúlia de amigos, quase todos, como ele, reformados e aí assistir às suas longas e interessantes conversas! Chupando um rebuçado ou trincando um chocolate, brincava eu por entre as mesas do café sem, no entanto, perder uma única palavra do que meu avô e seus amigos diziam.
            Meu avô pertencia àquela velha e saudosa geração de professores primários que, pelo seu saber, verticalidade, dedicação e empenho profissionais, inspiravam o respeito e a consideração de todos. A sua geração venerava Guerra Junqueiro. E, como ele o admirava!...Guerra Junqueiro era para ele uma figura intocável, por quem tinha um verdadeiro culto, uma veneração quase sagrada. Não raras vezes, pegava-me pela mão e levava-me, como numa viagem iniciática, aos locais por onde costumava deambular o Poeta de Freixo de Espada à Cinta: - «- Vês? aqui, na Praça da República costumava o “nosso” Junqueiro passear e compor os seus versos». Depois, continuava: - «-Ali, na Casa Valença, era onde costumava conversar com os seus amigos e, no andar de cima ficava o atelier do seu alfaiate preferido, o Leão»: - «-Acolá, ficava a tabacaria Havaneza, onde o insigne Poeta comprava os seus charutos e passava a limpo os seus versos». - «Além, ficava o quiosque do Esteves, onde comprava o rapé». Da Praça da República levava-me pelas ruas da velha Viana e o nosso passeio terminava quase sempre, na estrada que vai para a Areosa. Aí, parava e dizia-me: - «- Olha, aqui compôs ele a “moleirinha”». E eu fitava a figura do meu avô, muito hirto, absorto nos seus pensamentos, como que sonâmbulo a imaginar o Poeta a passear na velha estrada da Areosa. Acordado desse breve, mas profundo sonho, pegava novamente na minha mão e iniciávamos a viagem de regresso a casa, passando pelo palácio do jardim D. Fernando, palácio que o Poeta vendeu ao Estado para aí ser instalada uma escola industrial. Era uma autêntica romagem de saudade à qual ele me levava, procurando, na sua doce ânsia de avô, transmitir-me o que tinha de mais precioso: as suas recordações, a sua memória, os seus valores...Com que carinho me desvendava esses locais, verdadeiramente sagrados para ele!
Em casa mostrava-me os livros do Poeta e detinha-se sempre, por breves instantes, a contemplar uma fotografia do autor de “A Morte de D. João”. Era uma fotografia de Guerra Junqueiro com as suas famosas barbas hebraicas, que lhe davam aquele aspecto de um venerável rabi. Nariz adunco e um olhar muito vivo, mas meigo, numa expressão quase de santo. Então, na minha imaginação de criança, “via” o Poeta na Praça da República a conversar com os seus amigos, a compor poemas pelas ruas da cidade, na estrada da Areosa, ou ainda com as suas venerandas barbas hebreias ao vento, a cogitar junto ao mar...É uma imagem que ficou gravada para sempre na minha memória, não sabendo eu, na altura, que nos tempos em que o egrégio Poeta viveu na velha Viana da Foz do Lima, não usava ainda aquelas venerandas barbas patriarcais, só mais tarde (1898) as deixou crescer, quando apanhou o paludismo na sua Quinta da Batoca, em Barca de Alva. Quando Guerra Junqueiro veio para Viana, era então um elegante jovem, amante de tertúlias, de farto bigode, todo janota, poeta já famoso e com uma promissora vida literária à sua frente. Tive o privilégio de viver em Viana do Castelo, na mesma rua em que o insigne Poeta viveu, na rua da Bandeira (viveu na casa brasonada dos Bottos e Calheiros).     
Foram tempos felizes, aqueles que Guerra Junqueiro viveu na Princesa do Lima. Em Viana do Castelo, teve o que sempre pediu à Vida: «casa com um berço, terra com água, verdura com pássaros, tudo a Vida generosamente me ofereceu.»[1]. Aí encontrou o grande amor da sua vida, Filomena Augusta da Silva Neves, a sua «Meninha», aí se casou, aí lhe nasceram as suas duas filhas e aí escreveu grande parte da sua obra. Foi em Viana do Castelo, com o meigo clima da capital do Alto Minho, onde se recompôs dos achaques do corpo e da alma. Junto do Lima, do feiticeiro Lethes, o rio do esquecimento da mitologia, inspirado pelas suas musas, esqueceu os tempos maus e o seu estro encontrou o clima psicológico e mesmo físico, propício à criação literária. Aqui, o egrégio Poeta sentiu-se feliz e despreocupado, sendo, em Viana do Castelo, que nasceu a sua paixão pelas antiguidades e pelo bricabraque, dando início à sua famosa e monumental, colecção de obras de arte.
            Para escrever este trabalho amparei-me no bordão da saudade e percorri os caminhos míticos do passado.
A Viana do Castelo, ficará sempre ligado pela saudade dos tempos felizes que aqui viveu. O Minho «delicado, doce e meigo», como ele escreveu, calará sempre bem fundo no seu coração de sonhador e no momento em que deixou este sofrido mundo, os “olhos da alma” do Poeta, viraram-se, mais uma vez, tenho a certeza, para a amena e verdejante paisagem do «Éden do Lima». Na Praça da Rainha, ainda ecoam os passos do Poeta, num contínuo «vai-e-vem» de marcha, compondo mais um poema. A sua alma ainda vagueia pelas ruas da velha Viana, ou junto à margem do Lima, do Lethes, em noites de luar. Na estrada da Areosa, ainda se ouvem os ecos do jumentinho da “moleirinha”:

“Pela estrada plana, toque, toque, toque,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toque, toque, toque,
A velhinha atrás, o jumentito adiante!...[2]

Fecho os olhos e “ouço” esta saudosa melodia, que a minha mãe tantas vezes me cantou na minha querida Viana do Castelo, quando eu era menino, junto da minha cama, antes de adormecer…
           
                                                                                        António Pimenta de Castro


[1] Luís de Oliveira Guimarães, Junqueiro e o Bric-à-Brac, página 9, Lisboa, 1942. 
[2] - Guerra Junqueiro, Poema “A Moleirinha”, do Livro “Os Simples”, Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora, Rua Augusta –  44 a 54, 9ª Edição, Lisboa, 1924.   

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O SR. PADRE REBELO – O HOMEM, O COLEGA E O MESTRE, por António Pimenta de Castro

   “Mestre, meu Mestre”, revejo-te na poeira do tempo e nas palavras que dizem saber de ti. Sossego as tuas mãos trementes na memória de um perfil gregoriano, atento à vida e aquém do que ela te oferecia. Ávido do Saber e da alma genuína das gentes transmontanas. Do teu olhar, qual janela para além do infinito, sinto a angústia da existência. Como se fosse ontem. Como se fosse agora…[1]
   
                                                                         António Alberto Barbosa Areosa
                   
Padre Rebelo e Leonel Brito .Felgar 1979
            Tive o privilégio de conhecer o Sr. Padre Rebelo, logo no ano em que fui colocado a leccionar, pela primeira vez, na então denominada, Escola Secundária de Torre de Moncorvo no, já longínquo ano lectivo de 1984/85. Vinha eu da cidade de Beja, onde fui docente na Escola Secundária da referida cidade alentejana. Torre de Moncorvo, só a conhecia de passagem. No início desse ano lectivo, tudo era novo e estranho para mim. Quando entrava na sala dos professores, não conhecia nenhum colega, pelo que me encostava no meu “cantinho”, a ler um livro ou simplesmente num silêncio algo acanhado. Num belo dia, ao reparar na minha atitude um pouco envergonhada, um senhor, já de certa idade, dirigiu-se a mim e começou a “meter conversa”, nitidamente para me ajudar a adaptar á minha nova escola. Esse Senhor era o Sr. Padre Rebelo. A partir dessa altura, em quase todos os intervalos escolares, o Sr. Padre Rebelo passou a ser a minha companhia. Pouco tempo depois éramos amigos e, com o decorrer dos anos, a nossa amizade tornou-se cada vez mais profunda. Jamais me esquecerei desta sua atitude generosa, tão importante para mim. Foi ele que, nessas conversas na sala dos professores, na biblioteca escolar, no seu escritório no Asilo Francisco Meireles, ou simplesmente no café, me iniciou no estudo da cultura Transmontana e Alto Duriense. Foi ele que me incutiu o gosto pela defesa do património cultural, artístico, histórico e arqueológico da nossa região. O Sr. Padre Rebelo foi registando em letra de forma, ao longo de toda a sua vida, tudo o que foi encontrando de interesse em Trás-os-Montes e Alto Douro e mostrava-me esses registos, quase todos eles repletos de anotações, feitas à mão, nas margens do texto. O Sr. Padre Rebelo gostava de partilhar os saberes, não os guardava egoisticamente só para si. Que diferença de outros que se auto intitulam investigadores e pensam que são donos exclusivos do património cultural…com ele, aprendi que a cultura deve ser partilhada.
 Por tudo isto, fiquei marcado para sempre pela sincera amizade desta incontornável personagem da cultura transmontana. Era um homem de bem, de uma simplicidade invulgar, com uma ironia fina e uma cultura assombrosa. Demonstrando a abertura do seu generoso coração e uma indesmentível amizade, quantas vezes desabafou comigo. Para além da partilha de saberes, contava-me das invejas de que era alvo, das incompreensões de que era vítima, e dos falsos amigos que o rodeavam, mas a esses, conhecia-os ele muito bem… O Sr. Padre Rebelo foi um verdadeiro Mestre para mim, bem como para as muitas gerações que com ele tiveram o privilégio de conviver, pelo que nunca mais o esquecerei. Como muito bem escreveu o meu amigo e escritor Rogério Rodrigues:”Mas será sempre reconhecido como um homem justo que, através dos caminhos complexos da simplicidade, atingiu a harmonia. Chamem-lhe perfeição, chamem-lhe proximidade com Deus. Eu chamo-lhe plenitude. (…) Hoje, à distância destes anos todos compreendo que a tolerância não se prega, antes se pratica. Foi esta a mensagem que o padre Rebelo nos deixou (…)[2]. Ou, como o reconheceu o Dr. Mário Soares, então Presidente da República: “ (…) ao serviço da comunidade como padre, historiador, etnólogo e docente, especialmente de português, deixando atrás de si uma obra importante, que emana de um homem de recta consciência”[3]. Ou, ainda como deu testemunho o seu antigo aluno, Dr. Álvaro Leonardo Teixeira: “Ele foi o professor de Português que me ensinou a amar a língua, o gosto pela literatura e por escrever”[4]. Penso que estas palavras, ditas por pessoas que o conheceram bem, traduzem magnificamente a personalidade a cultura e a sabedoria do Sr. Padre Rebelo. Era um homem profundamente estimado.   

quinta-feira, 27 de março de 2014

CRÓNICAS de MOGADOURO. BANDAS DE MÚSICA – CONSERVATÓRIOS DO POVO.Por: António Pimenta de Castro

Banda de Carviçais
Muito se tem falado do património cultural do nosso país e cada vez mais se tem valorizado o muito que há a preservar, contudo muito pouco se tem falado das nossas bandas de música (filarmónicas), que são os verdadeiros Conservatórios Musicais do nosso Povo. As Filarmónicas têm desempenhado um papel único e extraordinariamente importante, sobretudo na região interior do nosso país, ao dar educação musical, ou simplesmente sensibilizar a nossa juventude para a música. A este papel fundamental não se tem dado o devido relevo, ou não tem sido devidamente reconhecido e é urgente fazê-lo!
  Todos sabemos que os tempos atuais estão difíceis, sobretudo no aspeto financeiro, ao qual se junta um escasso número de jovens disponíveis nas nossas regiões para estas atividades, por isso estas instituições estão em crise ou, simplesmente a passar por muitas dificuldades. Daí a urgência de as ajudar. Não tenhamos dúvidas, às Bandas de Música não lhes é reconhecido o seu verdadeiro valor, o seu papel junto da nossa juventude, ajudando-a a desviar-se de vícios e maus costumes e a dar-lhes uma oportunidade de “conhecerem” a verdadeira música, sensibiliza-los para a aprendizagem e prática de um instrumento musical (ou mais de um) e o prazer de a executar. Como sou professor (de História), conheço muitos ex-alunos meus que, devido a estas Academias do Povo, hoje tocam em bandas musicais do exército ou forças policiais ou mesmo em orquestras. No interior, não temos muitas ofertas para a juventude e a música é uma das mais apelativas para eles. Este é um autêntico serviço público e um benefício que a nossa juventude merece. Tudo o que se poder fazer pela cultura popular, deve ser feito. Quem não gosta de ouvir uma filarmónica tocar na rua ou a “animar” um arraial popular? Quem, como disse Chico Buarque de Holanda, não sai à rua: “Pra ouvir a banda passar, tocando coisas de amor”? Penso que ninguém, mas mesmo ninguém fica insensível ao ouvir os acordes de uma banda filarmónica!
Ajudemos a salvar este património, incentivemos a nossa juventude a “inscrever-se” na banda da sua terra.
 Quero agradecer, em nome do povo português às bandas das nossas terras (quer sejam dos Bombeiros, quer de associações Culturais e/ou recreativas), pelo excelente serviço que prestam ao nosso país e aos nossos jovens, que o Criador dos ajude e proteja.  
Por tudo o que foi dito, faço um apelo, a quem de direito, para ajudarem a nossa juventude a “desviar-se” dos vícios que a “destroem” e a praticarem a “nobre arte” da música e assim cultivarem o seu espírito, a sua sensibilidade e, quem sabe, a poder habilitar-se a um emprego.     

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

DUAS CARTAS INÉDITAS DE TRINDADE COELHO E CAMPOS MONTEIRO

Por:António Pimenta de Castro

Nas minhas investigações sobre Trindade Coelho e Campos Monteiro para a elaboração de futuros trabalhos sobre estes escritores transmontanos, tenho deparado com muitas coisas interessantes, algumas delas inéditas, outras pouco conhecidas. Na verdade estou a recolher dados para a elaboração de algumas publicações sobre estes meus «dois amores» e a cada passo (felizmente) encontro coisas novas e interessantes que, na devida altura, terei todo o prazer de partilhar consigo. Foi o que aconteceu com estas duas cartas que agora vou partilhar com o leitor.
            Estas duas cartas fui descobri-las, posso bem dizer que, ainda praticamente inéditas. A primeira carta é de Trindade Coelho para Camilo Castelo Branco a Segunda de Campos Monteiro para Trindade Coelho.
            Vamos à primeira que, como referi, é de Trindade Coelho para o seu venerado Camilo. Para se perceber bem esta carta tem de se saber o contexto em que foi escrita. Trindade Coelho, findo o curso de Direito, concorreu para o cargo de Delegado régio do Ministério Público e com a ajuda de Camilo Castelo Branco foi colocado no Sabugal e pouco depois em Portalegre. Portanto, Trindade Coelho para além da admiração pelo escritor Camilo Castelo Branco devia-lhe esse favor que jamais esqueceu. Eis a carta:

                             “Ilustríssimo e excelentíssimo Senhor e
meu Grande e Querido Mestre:

            Hoje tem sido para mim um dia alegre...a ler nos jornais a simpatia afectuosa e o sincero entusiasmo com que todos recebem a sua visita a Lisboa.
            Eu também queria ir aí, mas o Tesoureiro- pagador não me deixa...Brindou-me hoje com o ordenado do mês que passou há 22 dias. E deu-me a fabulosa quantia de 16 mil reis com 625tostões(?) (1) Em compensação ainda não há 12 horas que promovi em 84 processos crimes! A sinceridade do meu desejo exige a sinceridade desta desculpa...De resto sou eu o primeiro...a não me conformar por elas. Mas enfim, é poderosa.
            Já gritei contra isto no Diário Ilustrado, analisando a última reforma judicial, mandaram-me calar, - sob pena de “me ser tolhido o futuro”.
Calei-me, quando não, tinha mais a dizer. Mas agora dão-me ganas de desferir nova carga, vendo-me privado de o ir visitar, em virtude de “gravidade das circunstâncias”. Daqui lhe envio porém as minhas afectuosas boas-saúdes, desejando vivamente que a visita à sua terra natal marque na saúde de V. Ex.a um período de vigor.
Se a doença fosse coisa que se pudesse repartir, eu oferecia-me para lhe ficar com metade. E não ficaria amortizada a minha enorme dívida de gratidão.
Palavra de honra!
Os meus respeitos a seu Ex.mo Filho cuja mão já uma vez apertei em Coimbra no quarto do Eduardo Carvalho, meu companheiro de casa.
Sempre, sempre às ordens de V Ex.a, como
                                     Discípulo, Amigo e criado
                                      Muito grato

                                        Trindade Coelho

                                  Portalegre, 22 de Setembro de 1887

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

CRÓNICAS DE MOGADOURO - É Tempo de Natal. Por: António Pimenta de Castro

Hoje, quando estava a ver televisão, vi a publicidade a um brinquedo para o Natal. Estamos a dois meses e muito do Natal...Isto fez-me reflectir sobre o significado que tem hoje o Natal e os valores que representa. Hoje com o individualismo do mercado, a obsessão do consumo, a globalização da cultura (o mesmo é dizer a “americanização” ou como eu mais gosto de dizer a “macdonalização” da cultura), os valores alteraram-se, para utilizar uma frase feita “a tradição já não é o que era”. Hoje nesta cultura do stress (a vida transformou-se num verdadeiro fast-food), não interessa o que se é, mas antes aquilo que se tem. Hoje diz-se: “Diz-me o que tens, dir-te-ei o que vales”. Não interessa saber como se conseguiu o dinheiro, interessa, sim, é saber se se tem ou não tem, como o conseguiu, não interessa... É nesta sociedade sem valores, ou melhor, com falsos valores que se educa a nossa juventude. Apetece dizer que, algo “vai podre no Reino da Dinamarca”. E depois dizemos que esta juventude é uma “geração rasca”...”rasca” é a sociedade que transmite estes “valores”...Até mesmo o significado da dádiva de presentes pelo Natal se alterou. Hoje dão-se presentes caros para, qual “novo-rico” ostentar o seu poder económico e não pelo seu verdadeiro significado que é o prazer da partilha, no sentido nobre da dádiva.
Os verdadeiros valores do Natal são a Tolerância, e a Fraternidade. É por isso que o Natal é lindo, é por isso que nos toca tão fundo. Não é por um “homem vestido de vermelho e de barbas brancas” distribuir presentes à entrada de um Centro Comercial (que tem origem, nos anos trinta, quando a Coca-Cola Company decidiu usar São Nicolau nas suas campanhas de publicidade de Inverno), é pelo sentido de fraternidade, pelo calor humano de, pelo menos uma vez no ano, nos sentirmos irmãos, de fazermos parte dessa grande família que é a HUMANIDADE.
São estes os verdadeiros valores do Natal, são estes os valores que devemos ensinar aos nossos filhos e aos nossos alunos. Só assim seremos educadores.
Basta ver a televisão ou ler os jornais para nos apercebermos da violência e da desumanidade que reina no mundo. A violência e a desmoralização que vemos não são obra do acaso. Elas crescem “como cogumelos” no mundo podre que todos nós ajudamos a criar, com o nosso egoísmo, com a nossa cegueira e com a nossa sofreguidão do dinheiro.
Esqueceram-se os valores, hoje só se pensa no “conforto”, no carro novo que se quer comprar, no novo telemóvel, nas férias...Não se pensa na fome que vai no mundo, na miséria que se vive, às vezes ao nosso lado, não se pensa nos que sofrem, nos velhos sem carinho e sem o conforto de uma família. No nosso egoísmo não se “atura” o pai e a mãe que nos criou, com tanto carinho, com tanto amor e, às vezes com tanto sacrifício...Não temos “tempo” para eles...
E os nossos filhos? Quando falamos com eles? Sabemos os problemas que têm? Quem são os seus “amigos”? Como vão os seus estudos? Damos-lhes dinheiro! Sim mas o dinheiro às vezes é o que menos interessa...Quantos problemas se evitariam se os pais dessem mais atenção aos filhos!
São estes os verdadeiros valores do Natal: a Tolerância, o Diálogo, o Amor e a Fraternidade. Não nos iludamos, o Natal está dentro de nós. Devemos reflectir sobre isto e fazer uma saudável autocrítica. Os pensamentos devem fazer-nos voltar a casa...à nossa casa em que ainda meninos e sonhava-mos com um mundo novo em que não havia fome nem miséria. Regressemos aos valores do Natal da nossa infância, à boa e saudável ruralidade, à festa da família, ao amor ao próximo. Só assim poderemos fazer de cada dia NATAL
António Pimenta de Castro

terça-feira, 8 de outubro de 2013

CRÓNICAS DE MOGADOURO - por: António Pimenta de Castro


CULTURA POPULAR – UM PATRIMÓNIO A PRESERVAR

Numa conversa de café, um amigo meu convidou-me, em modos de desafio, a escrever um pequeno artigo sobre cultura popular para ser publicado no jornal “ O Guerra –Zoelae”, perguntando-me se eu estaria disposto a tal empreendimento. É evidente que sim, pois não tenho preconceitos para falar do que penso ser importante e para mim preservar o património do nosso povo é fundamental, sobretudo numa época de “globalização” em que ele é sistematicamente destruído. Não trato as pessoas pelo seu «estatuto» social. Para mim as pessoas têm ou não valor por si próprias, por aquilo que valem e não pelo partido em que militam ou pela «classe» a que pertencem. Posto isto vamos ao nosso assunto.
A Carta Europeia do Património Arquitectónico (Conselho da Europa, Amsterdam, 1975) chama a atenção para o seguinte: “(...) O património está em perigo. Está ameaçado pela ignorância, pelo envelhecimento, pela degradação sob todas as suas formas, pelo abandono”. Infelizmente isto aplica-se também ao nosso património, quer seja oconstruído quer seja o imaterial. É urgente preservar o que ainda vai existindo, sobretudo o património não construído, que por isso mesmo, é mais fácil de desaparecer.
Costumo dizer que, sempre que morre um velho (ou uma idosa) desaparece  um arquivo. A vida moderna com a globalização da cultura, o pouco tempo para se falar com os filhos e os netos, a televisão, o desfazer da família tradicional, entre outros, despreza o “saber da experiência feito” dos mais velhos, daqueles que ouviram histórias, contos, lendas e outros saberes transmitidos por seus pais e avós, à lareira nas longas noites de invernia ou no amanho dos campos. Hoje, qual novo rico, despreza-se esta cultura dita «atrasada», «velha», «pobre», «que já não interessa». Desprezamos esta nossa cultura genuína e substituímo-la pela cultura da televisão, das telenovelas, da “casa dos segredos”, dos mass media, contribuindo assim para a macdonalização da cultura. Não tenhamos dúvidas de que ficamos muito mais pobres.
 É urgente sensibilizar, sobretudo a nossa juventude, para a recolha e preservação da cultura popular. Não para a «mumificar» em arquivos que se irão encher de pó, mas para a «viver» naquilo que ela tiver de interessante. Nesta sensibilização tem um papel fundamental as autarquias, as associações culturais e, sobretudo, as escolas.
Na nossa região o Parque Natural do Douro Internacional ( e no Minho, o Parque do Gerês) têm uma grande responsabilidade na sensibilização das populações para a preservação da arquitectura popular. Os pombais (no Parque do Douro Internacional), já estão a ser restaurados mas têm também de se «salvar» as casas tradicionais (adaptando-as, como é evidente, ao conforto da vida de hoje), as curraladas, os moinhos, etc, etc...Um Parque Natural com as paisagens e as aldeias todas «desfiguradas» não será um Parque atraente. Deve-se explicar ao povo que o turismo rural poderá ser uma boa fonte de rendimento, que poderá ser um complemento importante para a sua economia numa época em que a agricultura está como está, ou seja, em que é difícil viver do que dá a terra. Também a culinária tradicional é outro património a preservar. As receitas e os pratos tradicionais têm de ser registados e divulgados. Para isso, os nossos restaurantes, tasquinhas, têm que oferecer aos turistas (nacionais e estrangeiros) pratos diferentes da região donde eles vêem, receitas que façam parte da nossa cultura genuina…é que um povo sem História é um povo sem cultura! Por isso temos o dever de salvar a nossa cultura genuína, ou seja a nossa História.    
Muito mais haveria a dizer mas, o artigo já vai longo...
Para terminar faço daqui um apelo a todos os portugueses, a todos os «homens de boa vontade» para que colaborem na salvaguarda do nosso património, os nossos filhos agradecem, podem ter a certeza.

António Pimenta de Castro                   

sábado, 21 de setembro de 2013

CRÓNICAS DE TRÁS-OS-MONTES - Por António Pimenta de Castro

AS CORES NEGRAS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO


Foto de José Rodrigues
            Após umas retemperadoras férias na minha querida Viana do Castelo, regressei a Mogadouro, terra onde resido. Ontem, dia 30 de Agosto, desloquei-me a Torre de Moncorvo, terra em que exerço a função de professor de História, para apresentar a minha participação de retorno ao serviço, após as minhas referidas férias retemperadoras. Faço isto todos os anos, mas ontem custou-me imenso, uma vez que a paisagem estava “pintada de negro”, tão dramáticos foram os fogos que aqui consumiram as florestas, os campos de cultivo, as oliveiras, as amendoeiras, os haveres, enfim, quase tudo o que a terra dá. É uma paisagem verdadeiramente dantesca. E os incêndios continuam aí tendo feito já inúmeras vítimas, algumas delas, infelizmente, mortais. Mas uma vez nestas vilas, a expressão das pessoas também são negras ou, quando muito cinzentas. O futuro apresenta-se dramaticamente incerto para os jovens e para aqueles que não tendo idade para a reforma, são já considerados “velhos” para arranjar novo emprego. É dramático e frustrante para alguns colegas meus (contratados ou com horário zero) não terem perspectivas de futuro (alguns deles com muitos anos de serviço e encargos, alguns deles com o futuro dos seus filhos ou da sua habitação), vejo os seus olhos a marejar de lágrimas bem salgadas. Também em Viana do Castelo, onde passei férias, vi faces tristonhas perante um futuro, cada vez mais incerto. A paisagem em Trás-os-Montes é negra, bem como negra é a vida que se tem ou avizinha. Portugal está, todo ele, literalmente a arder…
            Ligo a televisão e só vejo notícias tristes. Ligo a rádio e só ouço desgraças. Vou ao café e só ouço lamentações. Triste País este…Após tantos e tantos sacrifícios, o “buraco” está cada vez mais profundo. Não há a mais pequena “luz” ao fundo do túnel…Dizem que Portugal é um País triste, para mim é um triste País…

quarta-feira, 25 de julho de 2012

SOPA DE XIS, por António Pimenta de Castro[1]

  «Tudo o que vem do povo interessa. O povo é o passado. O povo há-de ser também o futuro…Tudo o que vem do povo interessa: costumes, crenças, superstições, poesia, música – e até a sua própria culinária…»

                      Trindade Coelho



COMIDA DO MATA-PORCO

                                            As Sopas de Xis são um prato tradicional do concelho de Mogadouro, que tem de ser, ou deve de ser comido no próprio dia da matança do porco, devido ao ingrediente essencial deste delicioso manjar (o sangue do reco). Neste verdadeiro baluarte do “Reino Maravilhoso” temos uma cultura e uma gastronomia ancestral, genuína, a preservar e a divulgar. O povo simples aprendeu a tirar o máximo proveito de alimentos simples, do que a terra dá e a transformá-los em deliciosos pitéus. Conseguiu conviver bem com um clima hostil, associando-se com os seus vizinhos, numa festa de abundância alimentar e num clima de torna-jeira, de convívio franco e aberto. Era uma agricultura de subsistência. Parafraseando alguém, «a necessidade estimula o engenho» e o isolamento desta região permitiu, por um lado salvar muito que é genuíno e por outro “fazer milagres” com o que se tem na horta, na floresta (cogumelos, etc.) e o que uma cultura multimilenar conseguiu transmitir aos familiares e vizinhos. É que a matança, ou mata-porco, é muito mais do que “matar um porco”. É antes é um exemplo do verdadeiro e autêntico convívio comunitário. É impossível compreender a gastronomia de uma região, sem a enquadrar numa dieta de história alimentar dessa terra. Como muito bem escreveu Alfredo Saramago:”As matérias-primas da alimentação e os modos de cozinhar estão ligados ao modo de vida de uma população, à sua economia, à sua ecologia”. E o porco foi sempre, desde tempos imemoriais a principal base da alimentação das nossas gentes. Não é por acaso que foi um dos primeiros animais a ser domesticado. Criado com todo o “mimo”, o “reco” era criado com as melhores viandas (antigamente com castanhas, folhas de olmo, mais recentemente com batatas, farelos, nabiças, beldroegas, nabos, couves, batatas, etc.).Quem não se lembra de entrar numa velha cozinha transmontana e não ver a caldeira da vianda para os porcos, presa nas velhas correntes de ferro na lareira, curiosamente (ou talvez não) chamadas “Lares”, onde se estava a cozer permanentemente a comida para o reco? Será por acaso que, o povo desta região “venera” desta maneira esta generosa carne? Acreditamos bem que não, uma vez que do porco tudo se aproveita. E nisto, como no resto, a História é Mestra. Podíamos ir até tempos muito mais recuados, mas quero lembrar que aqui era a terra dos Zoelas, tribo pré-romana, pertencente ao “Convento Asturicense” onde “aparecem” muitos berrões esculpidos em pedra. Para concluir esta introdução, e estaria aqui horas a falar convosco, vou citar a palavra esclarecida do “Mestre” e amigo, Alfredo Saramago: “ A criação de porcos e o javali tinham muita importância na sua alimentação, era de facto tanta que os Zoelas deificaram o porco, sendo testemunhos seguros as múltiplas figuras zoomórficas (como os citados berrões) que têm sido encontradas no seu território. (…). No entanto, o principal culto era a do porco, e as estátuas que têm aparecido no Planalto Mirandês (o Planalto Mirandês é constituído pelos actuais concelhos de Mogadouro, Vimioso e Miranda do Douro), disso são prova (como o berrão de Vilar dos Sinos, concelho de Mogadouro). O porco era a carne mais consumida, o alimento de maior valor nutritivo e, por isso, divinizado.”Muito mais haveria a dizer.      

                                                             RECEITAS

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A OBRA DO RESGATE DOS MARRANOS EM LAGOAÇA, por António Pimenta de Castro

 Barros Basto
            Como é sabido de todos, Lagoaça foi sempre terra com muitos judeus e, após o decreto de expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente, judeus em Portugal, o culto manteve-se, sobretudo nas zonas mais afastadas do nosso país, como é o caso de Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, Vilarinho dos Galegos, Carção, Argozelo, entre muitas outras, só para falar de povoações transmontanas. Começa assim, a época dos criptojudaísmo, ou seja, praticavam o culto judaico às ocultas. Quem não se convertesse “oficialmente” ao cristianismo teria de sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além. Quem ficou, oficialmente eram os chamados cristãos-novos, praticando, no recato do seu lar, ou no de correligionários, o culto hebraico, em muito segredo. Depreciativamente, começaram a chamar-lhes marranos. Como escreveu o meu amigo João Guerra: “A degradação das comunidades judaicas portuguesas acontece progressivamente, sobretudo a partir de 1536, quando é estabelecida a Inquisição.
Agora, a sobrevivência das comunidades judaicas, enquanto tal, impunha a preservação da sua religião e identidade, enfrentando e adaptando-se às novas circunstâncias de perseguição e terror. Assim, os judeus (marranos) portugueses, vivem o judaísmo possível, observado religiosamente na medida que lhes é possível, com um inequívoco sentido de identidade. Este processo passou por uma atitude de comunidade. Foram inventadas formas subtis e engenhosas de preservar e praticar a religião e tradições judaicas, ocultando essas práticas ao mundo alheio, transmitindo-se entre famílias de geração em geração até aos nossos dias”[1].

sexta-feira, 29 de junho de 2012

ADRIANO VASCO RODRIGUES – UMA REFERÊNCIA

António Pimenta de Castro[1]

 Conheci pessoalmente o Senhor Professor Adriano Vasco da Fonseca Rodrigues, já há alguns anos, vão quase para trinta, quando me encontrava a fazer uma visita habitual ao meu saudoso amigo, Dr. Armando Pimentel, na sua casa situada nos Estevais de Mogadouro. Sempre que me era possível, quando terminava as aulas na Escola Secundária de Torre de Moncorvo, a caminho do meu domicílio, Mogadouro, fazia um pequeno desvio e parava sempre na casa do Dr. Armando Pimentel, aristocrata no sangue e fidalgo de fino trato, para uma amena cavaqueira, direi mesmo, uma pequena tertúlia, com este grande intelectual transmontano e, por vezes, com ilustres intelectuais, que o visitavam, ou mesmo gente do povo, que ele tanto estimava. Digo pessoalmente, porque alguns dos seus trabalhos já os conhecia e muito me falava dele o meu querido amigo e colega na Escola de Moncorvo, o saudoso Sr. Padre Rebelo. Aquando da homenagem feita ao Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado, escreveu o Sr. Padre Joaquim Manuel Rebelo:”(…) Creio que foi em 1960 que encontrei, novamente, o Dr. Casimiro no Vale da Vilariça, num acampamento de alunos de um liceu do Porto, dirigido pelos meus ilustrados amigos, Padre Dr. Domingos de Pinho Brandão e Dr. Adriano Vasco Rodrigues (…). Estes estudantes estavam a realizar escavações arqueológicas, superiormente orientados pelos referidos professores. O Dr. Adriano escreve primorosamente na língua de Camões e sobre incontáveis temas, salientando eu os regionais. De facto as raízes são fundamentais para a identidade de um povo e de um país. Para mim é, também por isto, uma verdadeira referência.