terça-feira, 12 de maio de 2015

REVISTA À PORTUGUESA - 1944/45

A propósito da notícia postada pela Carina em 26 de Janeiro : “ Moncorvo – Fornecimento de Luz Eléctrica (1929) “, recordo uma teatrada, tipo revista, pelos idos de 1944/45 (ainda a 2ª Grande guerra não tinha acabado e eu ainda não andava na escola primária).

Abria o pano e no palco estavam três homens à volta de uma mesa: um lia o jornal e os outros dois comentavam as notícias :
1º homem - Desta vez é que é, vamos ter luz eléctrica.
2º homem - Já ouço dizer isso há mais de 20 anos...
3º homem – Ah, então os buracos pelas ruas são p’ra isso.
2º homem – A Ti Ana Balouca já caiu num e partiu uma perna ...
1º homem – Coitada da Ti Ana... Mas bai ser p’ro bem da bila.
Etc , etc. Entrava então um grupo de raparigas, todas bonitas, vestidas com uns vestidos aos folhos, já bem curtinhos (que era tempo de guerra e o tecido era caro) e chapelinhos de grinaldas na cabeça, todas de igual, que cantavam e dançavam aquela toada que a Beatriz Costa cantava na “Aldeia da Roupa Branca”, mas a letra era sobre a luz eléctrica em Moncorvo.
Eu tinha uns 6 anitos e não me lembro da letra, mas o refrão ficou cá gravado:
“De novo só tem os canos,
De resto já tem 100 anos,
Vai haver LUMINAÇÃO .
E, saracotendo-se, as puxavam duas fitinhas atrás das orelhas e acendiam umas luzinhas que estavam presas nas grinaldas dos chapelinhos. Baixavam a cabeça todas ao mesmo tempo para o público ver bem as luzes, voltavam a saracotear-se , repetiam o refrão e os passos de dança.
Toda a gente ria às gargalhadas, batíamos palmas e , de pé, cantávamos com as dançarinas.
Lembro-me de tudo isto nitidamente, talvez melhor que do que fiz ontem.

Júlia Ribeiro

Reedição de posts desde o início do blogue

23 comentários:

  1. Memória prodigiosa a da Julinha!E a maneira graciosa e aparentemente simples que utiliza para nos contar episódios como este ,cativa-nos e abre-nos o "apetite" para a leitura de outras estorinhas.Faça o favor de continuar a dar-nos esse prazer!
    Abraço de

    Uma moncorvense

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  2. Aqui está uma bele recordação. Pois não fica sem resposta, tal revista eu não vi, porque só tinha uns 2 ou 3 anos, mas ouvi a minha avó e as minhas tias cantarem essa que ´de novo só tem os canos´ , mas ninguém me explicou a origem da cantiga.

    João da Torre

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  3. Quem se lembra da canção?Onde foi o show?O ALMA DE FERRO TEM QUE FAZER UMA ANTOLOGIA AO VIVO DE TODO O NOSSO TEATRO.Doutora Julia,nunca escreveu para o teatro?

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  4. Memória de elefante (salvo seja) e jeito para contar.Onde foi o espectáculo?No antigo teatro que ardeu e onde hoje são os correios?Se se lembra da revista com pormenores, a Júlia deve saber informar-nos.

    Maneldabila

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  5. Quase iria afirmar - mas jurar não posso - que essa teatrada teve lugar onde hoje é o cinema. Recordo que tinha chovido muito e havia lamaçal por todo o lado . Para eu não sujar os sapatos, o "Nosso Senhor" levou-me ao colo. E a ideia que me ficou é que subimos a Rua das Teixeiras... ( "Nosso Senhor" é alcunha: muitos nomes passam, mas as alcunhas ficam).

    Quanto à revista da "Luminação", duas das meninas bonitas de que me lembro bem eram a Irma (que foi criada pela Santana Zirra e pela Aurora Zirra, que viviam no r/c da casa dos Flavianos, quase à esquina do adro, e a filha do Álvaro Chalaça e de uma senhora gorda que morava onde hoje é a loja da Júlia Nunes, de frente para a Praça das Regateiras).
    Lamento não vos poder dar mais dados. A memória regista o que mais a marca. A minha memória registou a lindeza daquelas duas cachopas.
    Quem me dera ter escrito uma "Caderneta de Lembranças"...

    No mesmo teatro passaram-se coisas muito curiosas: uma vez foi levado à cena o "Amor de Perdição" . E quando, de um varandim ao fundo do palco, que representava o convés de um navio, Simão é lançado ao mar, ouviu-se um grito de dor e a voz do Simão vinda lá de baixo: "Ai, cabrões , que me matastes". Um dos dois actores que tinham de atirar o Simão ao mar depois de o balouçarem duas vezes, largou-o não ao terceiro balouçar, mas ao segundo. No dia seguinte andava o Todu de muletas.

    Também me lembro da Ceia dos Cardeais. Esta teve muita piada. Fica para a próxima.

    Caro Anónimo das 14:23 :
    Não, nunca escrevi teatro; mas gostava de tentar.

    Um abraço
    Júlia

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  6. Rezam as crónicas que Constâncio Arnaldo de Carvalho era o celebrado autor de peças de teatro que se representavam em Moncorvo no velho teatro do Castelo... E também um consagrado actor. O sr. Adriano Fernandes tinha alguns desses textos manuscritos que estavam no escritório que ele "herdou" do sr. Marcolino Ferreira e eu cheguei a ler...O texo a que se refere a amiga Júlia talvez não fosse a Ceia dos Cardeais mas sim A CEIA DOS QUINTANISTAS, exactamente da autoria deste nosso conterrâneo. J. Andrade

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  7. Olá, António Júlio:

    Talvez fosse como o meu amigo diz. E então seria uma paródia à Ceia dos Cardeais .
    Eu era muito pequenita, mas lembro-me da mesa muito bem posta, com uma toalha de renda, e sobre ela pratos e copos e um belo galo (a sério) assado no forno, bem tostadinho, que até fazia crescer água na boca. E, claro, vinho, pão e um grande açafate com uvas. Um dos cardeais(?)/ quintanistas(?) era muito comilão. Tirava uma coxa do galo à mão e desatava a comer sem faca nem garfo. Acompanhava com copos de vinho e depois com um cacho de uvas e ia debitando o seu papel.
    Nessa peça entrava o Sr. Adriano Fernandes, ou talvez fosse ele o ensaiador, não sei. Mas fartou-se daquela cena de comezaina e na noite seguinte lá estava o galo assado (outro galo). Só que o Sr. Adriano Fernandes tinha-o besuntado com as malaguetas mais queimosas que encontrou.
    Eu não estava lá nessa noite. Quem conta agora é o meu pai:
    'Após a enorme dentada que costumava dar, o dito comilão ficou a arfar, de boca escancarada, quase deitava fumo pelas orelhas, bebeu o vinho pela garrafa, não conseguia falar ( toda a gente de olhos fixos, em suspense) e, quando conseguiu articular umas palavras disse :
    " Quem foi o carvalho, filho da puta que me fez isto?"
    O pano fechou à pressa e nessa noite não houve mais teatro. Na noite seguinte a sala estava cheia que nem um ovo. O maralhal todo a dizer que estava lá na noite anterior mas tinham perdido o bilhete... Ele eram pessoas sentadas nas coxias, encostadas às paredes...'
    Calculai: um enorme sucesso !!

    Abraços,
    Júlia

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  8. Esqueci-me de dizer que a D. Idalina Martins, mãe do Quim Morais, lembra-se do tal refrão que eu referi. Mais palavra aqui menos palavra ali, cantou-o de imediato ao telefone.
    A senhora está no Lar Francisco Meireles. Talvez outras pessoas que lá estão também se lembrem de algumas destas coisas...

    Júlia

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  9. Já não me ria assim desde há muito tempo atrás. Foi melhor do que ir ver o Charlô.

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  10. O culpado foi o Todu,sempre voluntário, pois estava programado que o actor era o Adelino Menezes ,o perna d'aço.Como o nome indica nunca coxeava!

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  11. Como estamos em maré de teatrada, palmas para a nossa contadora-mor,a Julinha Biló.Os episódios que relata,recheados de comicidade e picardia (tão característica do humor moncorvense)proporcionaram-me momentos de bom riso.Espero que todas as estórias que a sua espantosa memória retém venham até aqui,que, em tempo de crise como o que atravessamos, o riso é a melhor arma para afastar preocupações.Vale?

    Uma moncorvense

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  12. Eu também já não me ria assim desde que o outro caiu da cadeira. Ah! Ah! Ah!

    João da Torre

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  13. Andava eu pelos meus sete aninhos, decidiu a minha irmã mais velha levar-me pela primeira vez ao cinema. O filme, do António Lopes Ribeiro, contava a história dos amores de D. Pedro e Inês e a trágica morte daquela que depois de morta foi rainha. Completamente rendido e fascinado pelo desenrolar da história ,a comoção é tão intensa ao ver a cena do assassinato, que desato a chorar como uma madalena. Busco nos bolsos das calças um lenço para limpar as lágrimas e esfrego com ele os olhos e o rosto. Acabada a sessão ,as luzes acesas, dou com a minha irmã a rir a bandeiras despregadas .a minha cara estava coberta de pedaços de marmelada. O que eu tinha tirado do bolso era o guardanapo com o resto da sandes que a minha mãe me tinha preparado para o lanche desse dia na escola.

    Diasporano

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  14. Olá, Amigos Blogueiros:

    Venho agradecer-vos as duas boas gargalhadas que dei ao ler estes últimos comentários.

    Abraços
    Júlia

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  15. A fotografia que acompanha o texto da Júlia,com alguns dos utensílios de iluminação anteriores à luz eléctrica,fez-me lembrar um episódio que em tempos ocorreu e que, no seguimento do espírito de leveza e divertimento dos comentários anteriores,resolvi contar:
    Andava um dia uma das carrinhas da biblioteca itinerante da Gulbenkian pelas nossas aldeias com a nobre intenção de fomentar a leitura entre quem a ela não tinha acesso,quer por falta de meios económicos,quer pelo distanciamento dos grandes centros .
    Um dos muitos curiosos que se juntaram à volta da improvisada biblioteca,perguntou ao funcionário da Fundação como é que“aquilo”funcionava.
    -O senhor requisita até três livros,leva-os para casa,e tem umprazo para os entregar,foi a resposta.
    -E quanto se paga?,quis saber o homem.
    -Nada,isto é oferta da Gulbenkian.
    -E o que é isso?
    -Calouste Gulbenkian foi um estrangeiro que deixou a sua fortuna a Portugal,para o desenvolvimento das artes e das letras,tentou,em breves palavras, explicar o funcionário.
    -E o que é que ele fazia para ser tão rico?
    -Fez fortuna no comércio e na indústria do petróleo.
    -Ah!O cabrão quer é que a gente leia à luz do candeeiro,porque sabe que não temos electricidade…
    Diasporano

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  16. Ah, grande Diasporano, que já me fez rir outra vez. Como diz "Uma Moncorvense" : " nestes tempos de crise, uma boa gargalhada dará para afastar preocupações " .
    Pelo menos, enquanto se solta a gargalhada ...

    Júlia

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  17. Quem conta mais estórias dos seus tempos de raparigo em Moncorvo ou nas aldeias do conselho?Podia-se fazer um livro de lembranças. A ideia é nuito má? Se não é vamos a isso, porque as pessoas não duram pra sempre.

    Antócio C.

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  18. A ideia é excelente.Vamos todos contar as histórias do nosso tempo de raparigos até bloquear (atafulhar)o blog.Força António C..Aguardamos as suas!Como diz o Rui Carvalho:botai lá!
    um blogueirodependente

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  19. Atão botem lá mais...Bem ou mal escritas,não interessa.O Justiniano não ligava ao acordo ortográfico da época e deixou-nos lembranças preciosas.

    Maneldabila

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  20. Lembro-me bem de todos estes objectos de iluminação! Na aldeia dos meus avós, onde a electricidade só chegou teria eu uns 6 ou 7 anos, havia de todos os tipos. O candeeiro alto de bronze e com 3 tochas, julgo que de origem judia, usava-se para "alumiar aos mortos".

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  21. Ainda referente à "teatrada / revista" de 1944/45, a minha mãe ainda se lembra de mais umas palavrinhas do dito refrão, que seria asssim:
    "Ai Moncorvo,
    Terra das mulheres gaiteiras,
    Todas são alcoviteiras,
    Já lhe vem de geração...
    Ai,ai,ai,
    De novo só tem os canos
    O resto é de há cem anos,
    Vai haver iluminação!"

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  22. Lembro-me bem de todos estes objectos de iluminação! Na aldeia dos meus avós, onde a electricidade só chegou teria eu uns 6 ou 7 anos, havia de todos os tipos. O candeeiro alto de bronze e com 3 tochas, julgo que de origem judia, usava-se para "alumiar aos mortos".
    Amândio Rebanda

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  23. Candieiros e candeias, todos tiveram a mesma função, alumiaram muitas ideias a homens e mulheres da nossa geração.
    Manuel Pires Velas,

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