terça-feira, 8 de março de 2016

OS MARRANOS EM TRÁS OS MONTES, de AMÍLCAR PAULO

A GUISA DE ABERTURA


O éxodo israelita e sua fixação na Ibéria iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o território peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase totalidade, por habitual mister ou obrigatória disposição, às artes, aos ofícios mecânicos, ao comércio de toda a espécie, à usura e contrabando, mas obri­gados ao pagamento de pesados impostos, além da antiga sisa judenga.
O povo oriundo, católico, de rudimentar preparação mental e precária economia, como lhes invejava a prosperidade, odiou-os sempre, mas os réprobos, intelectualmente superiores e voluntariosos, resistiram estoicamente a impostas conversões, a todos os vexames e ataques, suportando sucessivos roubos e extorsões, com impressionante persistência e resignação. Nem os bárbaros processos de Santo Oficio, perpetrados nas pavorosas masmorras, nem os ferinos autos-de-fé, executados com lúgubre publicidade, conseguiram obliterar, no ânimo perseverante dos pei seguidos, a obstinada ideia religiosa, mantida com custo constante e doloroso, com a oferta suplicante da própria e preciosa vida, em verdadeiro holocausto.
Apesar de tamanhas perseguições e desgraças, conseguiram sobre­viver, e ainda hoje, em algumas dessas localidades, Bragança, Vimioso, Carção, Argozelo, Asinhoso, Vilarinho dos Galegos, Lagoaça... se apontam muitas pessoas, como portadoras da ominosa mácula e, mesmo, como devo­tados praticantes da antiga fé.
Seus usos privados, práticas O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase
e rezas, mantêm-se vivos, na actualidade, em muitas famílias onde a indiferença ou a apostasia não puderam vencer; modificadas pelo tempo, deturpadas pelo receio do ouvido atento de pro­fanos delatores, transmitem-se, quase sempre, de uns a outros, por tra­dição verbal.
O conhecimento destes e outros pormenores interessa fundamentalmente aos estudos etnográficos e folclóricos, constituindo precioso material de difícil aquisição, pela manifesta relutância, que os adeptos sentem em transmiti-las, para pública revelação.
Assunto interessante, mas pouco versado, bem merece a atenção dos entendidos, para que possa narrar-se a verdadeira acção deste povo estranho, sempre malquisto e atacado, na colectividade nacional.
O consciencioso e vasto trabalho, que Amílcar Paulo conseguiu elaborar, ê muito curioso e útil, e abrange, em grande parte, o leste trasmontano, onde nasceu e a que muito quer.
Mostra, claramente, inteligente e penoso esforço de investigação oral, realizado em ambiente fechado e receoso, em diferentes e distanciadas povoa­ções, que nem sequer possuem os indispensáveis recursos para regular estadia, ião necessária a fatigado peregrinador.
Trata-se de valioso estudo monográfico, que o Autor completou com esclarecedoras notas e citações, comprovativas de vincada origem hebraica, de preceitos e orações, ainda em uso naqueles núcleos de provecta idade, mas de feliz lembrança e memória pronta.
Um boa hora, o apreciável jornalista se inclinou para esta especialidade, e tesolveu revelar, a todos aqueles a quem agrada o conhecimento da nebulosa matéria, o resultado das suas indagações.
Afinal, quero anotar o facto invulgar de, com a publicação destas «novas achegas», se ter realizado o voto do erudito escritor, distinto polígrafo, Doutor Eugénio da Cunha e Freitas, expresso em artigo publicado neste acolhedor «Boletim», e manifestar o desejo de que o Autor continue a árdua tarefa de salvar do esquecimento o copioso manancial de noticias ainda existente na nossa região.

Porto, 1956.
Casimiro de Moraes Machado

Nota do Editor:
Reedição dos posts publicados no blog :
http://marranosemtrasosmontes.blogspot.pt/

3 comentários:

  1. Há cerca de dois anos fomos surpreendidos pela notícia do falecimento de Amílcar Paulo.
    Soubemo-lo tempo depois do seu trespasse. Chorámos o Amigo e Colaborador. Ao reatar-se o fio cortado de AMIGOS DE BRAGANÇA não podemos deixar de recordar a sua estatura voluntariosa que se impunha à própria doença que o minava. Profissionalmente delegado de propaganda médica para Trás-os-Montes e Beira interior, a sua inteligência arguta foi colhendo valiosa documentação sobre a raça judaica estabelecida há séculos nesta província, e daí o dedicar-se Amílcar Paulo à história do povo hebraico e suas vicissitudes. Estudioso e investigador, publicou várias obras como «Os Marranos em Trás-os-Montes — Reminiscências judio-portuguesas», «A inquisição no Porto — Achegas para a sua história», «Os Cripto-judeus», e colaboração abundante em AMIGOS DE BRAGANÇA, além de jornais corno «O Primeiro de Janeiro», a revista «O TRIPEIRO», e numerosas comunicações em Congressos de História. Foi Presidente do Instituto de Relações Culturais Portugal — Israel. Amílcar Paulo nasceu em Fornos (Freixo de Espada à Cinta), em 27 de Janeiro de 1929. Faleceu no Porto, onde residia, em 1983. Homenageando postumamente a sua memória extraímos da 2.8 série de «AB» um dos seus artigos sobre uma personalidade judaica nascida em Bragança no século XVII, com nome na toponímia da cidade.

    Fonte: Revista "Amigos de Bragança" - Outubro de 1984

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  2. Há cerca de dois anos fomos surpreendidos pela notícia do falecimento de Amílcar Paulo.
    Soubemo-lo tempo depois do seu trespasse. Chorámos o Amigo e Colaborador. Ao reatar-se o fio cortado de AMIGOS DE BRAGANÇA não podemos deixar de recordar a sua estatura voluntariosa que se impunha à própria doença que o minava. Profissionalmente delegado de propaganda médica para Trás-os-Montes e Beira interior, a sua inteligência arguta foi colhendo valiosa documentação sobre a raça judaica estabelecida há séculos nesta província, e daí o dedicar-se Amílcar Paulo à história do povo hebraico e suas vicissitudes. Estudioso e investigador, publicou várias obras como «Os Marranos em Trás-os-Montes — Reminiscências judio-portuguesas», «A inquisição no Porto — Achegas para a sua história», «Os Cripto-judeus», e colaboração abundante em AMIGOS DE BRAGANÇA, além de jornais corno «O Primeiro de Janeiro», a revista «O TRIPEIRO», e numerosas comunicações em Congressos de História. Foi Presidente do Instituto de Relações Culturais Portugal — Israel. Amílcar Paulo nasceu em Fornos (Freixo de Espada à Cinta), em 27 de Janeiro de 1929. Faleceu no Porto, onde residia, em 1983. Homenageando postumamente a sua memória extraímos da 2.8 série de «AB» um dos seus artigos sobre uma personalidade judaica nascida em Bragança no século XVII, com nome na toponímia da cidade.

    Fonte: Revista "Amigos de Bragança" - Outubro de 1984

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  3. Há cerca de dois anos fomos surpreendidos pela notícia do falecimento de Amílcar Paulo.
    Soubemo-lo tempo depois do seu trespasse. Chorámos o Amigo e Colaborador. Ao reatar-se o fio cortado de AMIGOS DE BRAGANÇA não podemos deixar de recordar a sua estatura voluntariosa que se impunha à própria doença que o minava. Profissionalmente delegado de propaganda médica para Trás-os-Montes e Beira interior, a sua inteligência arguta foi colhendo valiosa documentação sobre a raça judaica estabelecida há séculos nesta província, e daí o dedicar-se Amílcar Paulo à história do povo hebraico e suas vicissitudes. Estudioso e investigador, publicou várias obras como «Os Marranos em Trás-os-Montes — Reminiscências judio-portuguesas», «A inquisição no Porto — Achegas para a sua história», «Os Cripto-judeus», e colaboração abundante em AMIGOS DE BRAGANÇA, além de jornais corno «O Primeiro de Janeiro», a revista «O TRIPEIRO», e numerosas comunicações em Congressos de História. Foi Presidente do Instituto de Relações Culturais Portugal — Israel. Amílcar Paulo nasceu em Fornos (Freixo de Espada à Cinta), em 27 de Janeiro de 1929. Faleceu no Porto, onde residia, em 1983. Homenageando postumamente a sua memória extraímos da 2.8 série de «AB» um dos seus artigos sobre uma personalidade judaica nascida em Bragança no século XVII, com nome na toponímia da cidade.

    Fonte: Revista "Amigos de Bragança" - Outubro de 1984

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