quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Fernando Assis Pacheco e o Felgar

  ANTÓNIO LOUCEIRO

 Uma das coisas realmente bonitas do Felgar foi ver trabalhar o sr. António Rebouta, louceiro, e trabalhar só para o jornalista admirar as suas mãos férteis de volta do barro.
«Eu agora no Inverno não trabalho com o barro» - explicou o sr. António - «Há muito frio, é a travessia.»
Dos quatro ventos que sopram por essas bandas, o cieiro e a travessia são os que gelam os dedos. Há também o sul, o vento de Mós, do lado de lá do cabeço, e o lousão, ou da lousa, que «traz água a murros».
Mas o sr. António tinha um pedaço de barro e sentou-se à roda.
«Vou-lhe fazer uma cantarinha de cinco litros. Estou nervoso, não tenho trabalho nada… Só trabalho desde que canta o cuco».
Sentou-se, amaciou o barro com água, começou a modelar a cantarinha. E a danada da cantarinha não é que se põe por ali a tomar forma, primeiro a boca à parte, depois o bojo de cinco litros, sempre com o mesmo barro e umas demãos de água da fonte de Maria Miga?
O sr. António, único de dois louceiros («pucareiros») que ainda há pouco existiam na aldeia (o outro era o irmão, sr. Manuel, hoje retirado), faz cântaros, cantarinhas, púcaras, bilhas de encher por baixo, bilhas de segredo: o que lhe sai das mãos é obra perfeita, e ele sabe-o e sorri-se, mudando de pé na roda. Nos dias de muito trabalho chega a modelar vinte cântaros; cantarinhas de 5 litros, vai às vinte e cinco; das de litro e meio ou 2 litros, umas trinta ou quarenta. O que é preciso é não estar «nervoso».
Secadas as peças, atacado o forno com molhos de lenha ou mato metidos a forcada, coze-se o barro em seis ou sete horas, tanto faz o forno estar cheio ou «meado». Depois resta vender a produção pelas feiras – de Moncorvo, de Mogadouro e de Carviçais. Outra boa ocasião é a festa do orago local, Senhora do Amparo, quando o santuário fica assim a modos coalhado de gente.

DESDE OS ROMANOS
Para dar uma ideia de como a sua arte é antiga, o sr. António louceiro advertiu-me gravemente:
«Saiba o senhor que isto é do tempo dos romanos».
Já disse que a louça lhe sai perfeita, mas sobre isso não hà como dar a palavra ao artista:
«Olhe que num talhão de barro dos meus o senhor pode por azeite com nove décimas de acidez, tem-no lá o tempo que quiser, e ao fim está na mesma!»
E o mel? O mel, numa pucarinha do sr. António, até tem outro gosto.
Aos 60 e tal anos o sr. António, ajudado pela mulher, procura o barro no rio, mói-o e peneira-o. Gasta de 4 a 5 mil quilos e barro todos os anos. Barro sem areias.
«Fica fino que parece massa!»
A mulher conta:
«O barro está fundo, é preciso tirar uma barranca assim para lhe chegar» (o «assim» é a altura de dois ou três palmos).
«Estou então a fingir uma cantarinha de cinco litros».
O avental preso por um braço, que a «sigurança» estava lassa, os pés alternando na roda, ao de leve: eis o sr. António louceiro do Felgar com o seu barro mágico.
«Estou a fingir o barro. Trabalho com esta palheta, que é esta tabuinha de madeira, e com duas alpanatas como esta, que são de carneiro. As alpanatas são para fazer os bordos da cântara. A tigela de água? É o augueiro, o que havia de ser!»
Cantarinhas daquelas, se o sr. António não estivesse nervoso, fingia-as ele umas cinco ou dez. Mas em menos de dez minutos apresentou-me a obra.
Desaparecido o sr. António, quem o substitui? Isso não faz ele ideia: o filho está em França, e tão cedo não volta.
«O rapaz foi para Angola para a tropa, e na tropa e na polícia esteve dez anos. Ele e a mulher arranjaram lá uns cento e vinte contos, segundo ouvi dizer, mas aquele dinheiro que se cambeia tão mal! Quando ele mo mandava de lá, só um comerciante o queria, e era meio por meio. Não mercê, não merece. Agora em França ganha bem, está numa fábrica de carros a dez quilómetros da fronteira com a Alemanha».
No último Verão os netos do sr. António, os «raparigos», entraram-lhe pela oficina dentro na brincadeira e quebraram-lhe umas ferramentas. O avô sorri-se à recordação:
«O raparigos do diabo!»
E a cantarinha pronta, levada ternamente para uma arrecadação, guardada até que volte o cuco a cantar e a travessia ou o cieiro não soprem lá de trás das serras…
In "República"- Março de 1974
Ver:
http://www.youtube.com/watch?v=H5gaGBD0WbQ   

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4 comentários:

  1. O texto fala do meu avô!!! :)

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  2. ESte é um video sobre o meu avô. Se quiser publicar acho que complementaria mt bem este artigo. http://www.youtube.com/watch?v=9Sdmgkm5Jf8&feature=related

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  3. A belíssima escrita do meu saudoso colega e amigo Fernando Assis Pacheco !

    Júlia

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  4. António Espírito Santo escreveu: "...este Assis Pacheco....era fenomenal...."

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