A capa é em tecido preto de algodão, e a etiqueta está desgastada mas legível.Foi o 393 da 6ª Companhia do Batalhão de Metralhadoras 3, aquartelado no Porto, no edifício onde funciona agora o ICBAS -Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, que foi também o CICA (2 ou 3 ?).
Um ano após a sua morte, relato aqui um episódio da sua vida de taxista, ainda no tempo da PVT – Policia de Viação e Trânsito - com as suas motos BMW, que ilustra algumas das suas facetas: agilidade mental e rapidez na decisão.

As clientes que transportava, duas idosas conhecidas do meu pai de que não recordo os nomes, nem da aldeia para onde iam, estavam no banco traseiro . . .
Na Vilariça, depois de uma curva, vê a brigada da PVT a uma distância que já não lhe permitia colocar o boné, que repousava no banco dianteiro direito, sem que os agentes não vissem. De imediato e sempre a olhar para a estrada, pediu para se começar a rezar o terço, e que só deixassem de rezar quando o meu pai dissesse. Ele mesmo começou, com um “Pai Nosso, que estais no Céu . . .” no que foi acompanhado pelas duas idosas.
Como era de esperar, a Brigada de Trânsito fez sinal para parar e encostar o carro à berma, e o meu pai insistiu: “Por amor de Deus não parem de rezar!” E as duas velhotas, obedientemente, sem saber o porquê de tanto fervor religioso, continuavam a rezar o terço.
O agente aproxima-se do carro, faz o cumprimento da praxe, e entra logo a matar, quando vê o boné no banco: “Então e o boné, não sabe que tem de trazer o boné na cabeça?” e a preparar-se para a autuação.
O meu pai, matreiro, retorquiu: “Sr. Agente, por respeito às orações que as clientes estão a rezar, tirei o boné quando começaram o terço.”
O polícia, recuou, virou-se para o meu pai e disse: “Vá lá com Deus que você já sabe muito . . .” Pisca da esquerda, e lá foi com Deus.
As orações pouparam-lhe uma multa, mas não o pouparam às pragas e raios das duas clientes quando se aperceberam da artimanha do meu pai.
Era assim o meu pai . . .
F. Garcia
Post pubicado a 22/02/2011
Post pubicado a 22/02/2011
Fui vizinho durante oito anos do Sr. Garcia e recordo a fotografia que ele me tirou, quando tinha dez anos, para o meu primeiro Bilhete de Identidade. Fotografia "á laminute".
ResponderEliminarMatreiro,desenrascado,mas também profissional competente nas suas duas ocupações -a de fotógrafo e a de taxista.E também excelente pessoa.
ResponderEliminarEpisódio delicioso este,contado pelo filho.Sabe-se que houve muitos mais passados com ele.O dr.Fernando pode continuar a escrever (e fá-lo tão bem!)as estórias do seu Pai?
Uma moncorvense
Olá, Fernando:
ResponderEliminarEstas memórias deixam-me comovida. A nossa saudosa Mizé era quem sabia montes de estórias dos nossos pais.
Grandes amigos: o Barros dentista e o Xico Cabeças. Um gostava de ensinar o que sabia e o outro era ávido por aprender.
"Estava um para o outro: eram ambos inteligentes, honestos e generosos", costumava dizer a Mizé.
Um dia, de grande calamidade (ciclone ou trovoadas e ventanias) para os lados de Celorico, carregaram os dois o velho Fiat amarelo com cabertores, colchões, tachos, panelas, arroz, farinha, etc. etc. e lá foram ambos distribuir esses artigos aos que mais necessitavam. A carga dentro do carro e no tejadilho era de tal maneira, que as pessas na nossa praça lhes perguntaram se iam montar algum circo ...
Um grande abraço, Fernando
Júlia
Mais informação em:
ResponderEliminarhttp://lelodemoncorvo.blogspot.com/2010/09/torre-de-moncorvo-carros-de-aluguer.html#comments
e:
;http://lelodemoncorvo.blogspot.com/2011/02/torre-de-moncorvo-efemerides-0202.html#comments
Entre muitas outras "estórias" admito que esta não era do meu conhecimento. Mas não me surpreende este tipo de "espertice" .. era uma época de desenrasca e cada um por si :) mais valor tenho de dar ao meu avô que criou três filhos lindissimos, um dos quais tem sorte de ser meu pai :)
ResponderEliminarRecordar é viver
beijo saudoso p/ meu avô homónimo e um maior para o senhor meu pai!!!
beijinho
amo-te
Emiliana Silva Guarani-Kaiowá Amei.
ResponderEliminarIniciei a minha carreira profissional em Vila Flor . E todas as semanas ia a Torre de Moncorvo, ao Noitibó. A Vilariça é uma das aldeis de VF?
Beijo