terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Os Marranos em Trás os Montes

A GUISA DE ABERTURA


O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dEstacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase totalidade, por habitual mister ou obrigatória disposição, às artes, aos ofícios mecânicos, ao comércio de toda a espécie, à usura e contrabando, mas obri­gados ao pagamento de pesados impostos, além da antiga sisa judenga.
 Ali  pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores
 .
O povo oriundo, católico, de rudimentar preparação mental e precária economia, como lhes invejava a prosperidade, odiou-os sempre, mas os réprobos, intelectualmente superiores e voluntariosos, resistiram estoicamente a impostas conversões, a todos os vexames e ataques, suportando sucessivos roubos e extorsões, com impressionante persistência e resignação. Nem os bárbaros processos de Santo Oficio, perpetrados nas pavorosas masmorras, nem os ferinos autos-de-fé, executados com lúgubre publicidade, conseguiram obliterar, no ânimo perseverante dos pei seguidos, a obstinada ideia religiosa, mantida com custo constante e doloroso, com a oferta suplicante da própria e preciosa vida, em verdadeiro holocausto.
Apesar de tamanhas perseguições e desgraças, conseguiram sobre­viver, e ainda hoje, em algumas dessas localidades, Bragança, Vimioso, Carção, Argozelo, Asinhoso, Vilarinho dos Galegos, Lagoaça... se apontam muitas pessoas, como portadoras da ominosa mácula e, mesmo, como devo­tados praticantes da antiga fé.
Seus usos privados, práticas O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto  deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase
e rezas, mantêm-se vivos, na actualidade, em muitas famílias onde a indiferença ou a apostasia não puderam vencer; modificadas pelo tempo, deturpadas pelo receio do ouvido atento de pro­fanos delatores, transmitem-se, quase sempre, de uns a outros, por tra­dição verbal.
O conhecimento destes e outros pormenores interessa fundamentalmente aos estudos etnográficos e folclóricos, constituindo precioso material de difícil aquisição, pela manifesta relutância, que os adeptos sentem em transmiti-las, para pública revelação.
Assunto interessante, mas pouco versado, bem merece a atenção dos entendidos, para que possa narrar-se a verdadeira acção deste povo estranho, sempre malquisto e atacado, na colectividade nacional.
O consciencioso e vasto trabalho, que Amílcar Paulo conseguiu elaborar, ê muito curioso e útil, e abrange, em grande parte, o leste trasmontano, onde nasceu e a que muito quer.
Mostra, claramente, inteligente e penoso esforço de investigação oral, realizado em ambiente fechado e receoso, em diferentes e distanciadas povoa­ções, que nem sequer possuem os indispensáveis recursos para regular estadia, ião necessária a fatigado peregrinador.
Trata-se de valioso estudo monográfico, que o Autor completou com esclarecedoras notas e citações, comprovativas de vincada origem hebraica, de preceitos e orações, ainda em uso naqueles núcleos de provecta idade, mas de feliz lembrança e memória pronta.
Um boa hora, o apreciável jornalista se inclinou para esta especialidade, e tesolveu revelar, a todos aqueles a quem agrada o conhecimento da nebulosa matéria, o resultado das suas indagações.
Afinal, quero anotar o facto invulgar de, com a publicação destas «novas achegas», se ter realizado o voto do erudito escritor, distinto polígrafo, Doutor Eugénio da Cunha e Freitas, expresso em artigo publicado neste acolhedor «Boletim», e manifestar o desejo de que o Autor continue a árdua tarefa de salvar do esquecimento o copioso manancial de noticias ainda existente na nossa região.

Porto, 1956.
Casimiro de Moraes Machado

1 comentário:

  1. ... em 1974, Amílcar Paulo, no seu “Prefácio” ao livro de Elvira Cunha Azevedo, O Sefardismo na Cultura Portuguesa, lançava o repto que o sefardismo português necessitava de ser investigado não só através das comunidades judaicas marranas das Beiras e de Trás-os-Montes, como sobretudo através das comunidades portuguesas espalhadas pela Europa e América[19]. E ao fazê-lo estava a colocar uma questão de matriz e de advir. As comunidades judaicas marranas são aqui implicitamente consideradas as comunidades contemporâneas. Que têm de comum com aquelas assumidamente judaicas em terras de Diáspora? Que podem revelar sobre o passado destas, visto que revelam indícios visíveis e palpáveis do Judaísmo em criptoreligiosidade? Evoluirão como aquelas? Os agora denominados “judeus marranos” são encarados como um vestígio arqueológico vivo, um laboratório de análise sobre as práticas religiosas e vivências das comunidades que mantêm no seu âmago elementos da remota origem conversa, e até como um elemento de elucidação sobre o verosímil[20] da realidade judaica que brota nos processos inquisitoriais.
    Foi precisamente devido a esse apelo que a historiadora brasileira Anita Novinsky se juntou a Amílcar Paulo, numa visita à comunidade de Belmonte, em 1965, de que resultou o artigo “The last marranos”, publicado na revista Commentary. Na parte inicial do artigo, ambos consideram que os “marranos” no sentido de judeus que guardam uma criptoreligiosidade é um achado para o mundo, visto que se reportam a uma realidade que se julgava completamente aniquilada:
    “By the time the Inquisition was finally abolished, however, at the beginning of the 19th century, so many Marranos had been killed, or had emigrated, or had been assimilated, that they were spoken as a curiosity, a forgotten element of Portugal`s past. It was not until the end of the first quarter of the 20th century that Jewish historians and ethnologists in general became interested in the phenomenon of crypto-Judaism in Portugal; several communities of New Christians were discovered, whose members still lived and behaved as they had under the Inquisition. One of the last know communities is Belmonte”[21].
    Tratava-se praticamente do anúncio de uma morte anunciada – para usar as palavras de Maria Antonieta Garcia - pois Anita Novinsky no artigo “Belmonte 30 anos depois”, publicado na revista Menorah,mostra-se desiludida pelo facto de, segundo ela, não ter encontrado na geração jovem qualquer interesse no movimento de retorno ao Judaísmo, devido à ignorância e falta de empenho da comunidade judaica de Lisboa e do Estado de Israel
    http://www2.iict.pt/?idc=102&idi=14867

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