segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria (1974)


CINCO ADOLESCENTES FALAM DA VILA



     São quatrocentos estudantes na Escola Secundária, mais de trezentos no ciclo preparatório. A vila parece não ter ainda pesado bem o que isto significa.

    A vila, como ficou escrito na abertura desta série de reportagem, tem cerca de 2400 habitantes, ou tinha-os em 1970 e hoje contaria mais uma ou duas centenas (por influência da escolarização). Sentirá ela a vaga de fundo juvenil? E esta, o que pensa do «sítio» onde está nitidamente de passagem? Cinco adolescentes aceitaram o convite da «República» para uma conversa em redondo: o texto é, pois, deles e de mais ninguém.

 Falam cinco representantes do escalão etário 10/18 anos. Por motivos de (boa) vizinhança vieram à colação rapazes entre os 14 e os 17, um vivendo com a família, os restantes (filhos de emigrantes) aboletados em casas particulares. Eles queixam-se das condições de vida, estudo incluído, que consideram precárias. Lamentam a falta de divertimentos, o reduzido convívio com as raparigas, o vazio dos fins de semana.

    Refira-se, entre parêntesis, que centenas de rapazes e raparigas vivem ligados à escola Secundaria de Moncorvo mais do que a Moncorvo propriamente dito. Há, claro, os que vêm diariamente das aldeias próximas. Mas a maioria tem a vila por local de inserção permanente. Em casa de familiares, ou na modalidade de pensão, o seu horizonte é mínimo quando comparado ao dos jovens das mesmas idades nos grandes centros urbanos. Ainda entre parêntesis: os estudantes-pensionistas ajustam um regime de cama, mesa e roupa lavada, ou trazem da aldeia a roupa da cama, ou também (mais raro) asseguram inclusive géneros alimentícios e dão-nos a cozinhar à dona de casa.

    Isto estava para ser uma mesa-redonda convencional. Porém o gravador, que uma outra vez – por generalização da conversa – não registou passagens de menos interesse, começou por inibir os participantes: só ao fim de uma hora, depois da merenda, é que tudo animou, sem ultrapassar nunca um certo nível de distância para com o jornalista, o estranho da vila.

ANTÓNIO

    «Tenho 15 anos e sou natural de Santa Maria do Zêzere. Vivo em Moncorvo; vivi alguns anos na minha terra, já vivi também em Aveiro e depois vim para cá. O meu pai era empregado da C.P. e andava de um lado para o outro. Agora trabalha na subestação do Pocinho, ganha à volta de três contos, três contos e pouco, não tenho a certeza. A minha mãe não trabalha. Estou no quinto ano, terceiro A.C. (administração e comércio). Tenho aulas das nove às seis, estudo das seis às sete e depois à noite, depois do jantar, às vezes uma hora. Estudo no meu quarto ou na sala. Não pago os estudos. Compro os livros, mas o meu pai nunca diz nada sobre essas despesas: uma vez ou outra lembra que é preciso eu passar de ano, não me atrasar.»

    VOZES – Ele é muito bom aluno!

    «O meu pai tem a terceira classe, a minha mãe tem a quarta. Somos três irmãos, os outros também andam a estudar, um no primeiro A.C., o outro no ciclo. O meu pai já esteve imigrado, emigrou duas vezes: a primeira vez por volta de 1968, para a França, esteve lá uns cinco meses, como carpinteiro e voltou, não se dava com os ares; nessa altura já não regressou à C.P., estabeleceu-se por conta própria; depois emigrou segunda vez de novo para a França, e esteve lá três meses, voltando pela mesma razão. Agora cá, passou uns meses por conta própria, até que se empregou na Conduril, que está a fazer a subestação do Pocinho.»

ABÍLIO

    «Tenho 17 anos, ando no segundo ano do curso geral dos Liceus, quarto antigo. Sou se Ligares, o meu pai e a minha mãe estão em França. Tenho um irmão também aqui a estudar em Moncorvo. O meu pai, em França, quando eu fui lá nas férias, ganhava cerca de dez contos e pouco, a trabalhar na construção civil fora de Paris. Vivem, ele e a minha mãe, numa casa particular; a minha mãe trabalha numa fábrica, numa grande empresa. Custa-me tê-los lá, longe de mim.

    Em Moncorvo vivo na casa de um contínuo da escola, fiquei entregue a ele. O ano passado estava com uma tia minha, que entretanto teve de se ir embora. O contínuo não é conhecido do meu pai, fui eu que o escolhi. Pago um conto e cem. Como lá em casa, não tenho que ir à cantina.»

    VOZES: Como aluno é assim assim, é regular. Não é mau.

    «Somos três estudantes lá em casa. Um é sobrinho do dono da casa, que já lá está há cinco anos. Eu nas férias do Verão vou a França ter com os meus pais, nas férias do Natal vêm cá eles. O meu pai em Ligares já comprou um prédio regular. Quando voltar, tem onde trabalhar. Eu é que não me vejo metido na lavoura: vou ver se tiro o curso e ganho a vida sem ser na lavoura, aquilo custa – eu sei o que custava ao meu pai! Se um dia ele precisar, e eu ainda não estiver com um curso, vou-lhe dar uma ajuda.»

CRISTINO

    «Tenho 16 anos e ando no terceiro geral de comércio. Sou do Felgar, fiz lá a escola primária, depois vim para Moncorvo para o ciclo. O meu pai está na França; mãe já não tenho, o meu pai está casado segunda vez. Tenho um irmão que está a estudar em Alfândega da Fé, no ciclo, vive em casa duma prima. Eu vivo em casa do Sr. Amílcar, aqui em Moncorvo: pago um conto, o dinheiro manda-o o meu pai. Somos dois estudantes em casa do Sr. Amílcar. Estudamos no quarto, estamos ambos no mesmo quarto. Temos duas camas armadas, há uma outra por armar, tem lugar para três camas. Há uma mesinha.

    Eu não vou de férias à França, vem cá o meu pai, sempre no natal. Onde ele trabalha, não sei: cá trabalhava na lavoura. Não faço ideia de quanto ele hoje ganha. Ele manda o dinheiro para eu estar em Moncorvo a estudar, mas não manda para mim, manda para a minha tia, quer-se dizer: a minha tia vem cá, dá o dinheiro ao Sr. Amílcar, e ele, o meu pai, depois lá lho dá. Não, esta tia não está em Alfândega, lá quem está é uma prima: esta tia está nos Picões, uma aldeia ao pé do Felgar.»

JOSÉ

    «Tenho 16 anos e sou se Urros. Estou no segundo do liceu, antigo quarto. O meu pai e a minha mãe estão em França; uma irmã minha está aqui em Moncorvo, também a estudar; em Urros estão outros dois irmãos pequenos a viver coma minha irmã mais velha, que está lá casada. Em Moncorvo estou em casa de um polícia, pago um conto e cem. Somos quatro estudantes nessa casa: três num quarto, uma rapariga (é a minha irmã mais nova) no outro. Os rapazes estudamos mais à noite, todos no quarto. Às vezes utilizo a biblioteca da escola.

    O meu pai não está em Paris. Não sei ao certo onde está. Trabalha numa fábrica de mobílias, a minha mãe também, na mesma fábrica, mas noutra secção. Se têm dinheiro? Eles é que sabem… o meu pai está lá há oito anos, a minha mãe vai fazer quatro. Nunca fui lá passar férias, eles é que vêm cá no Verão. A minha irmã casada esteve lá dois anos, junto com os meus pais.»


AMÂNDIO

    «Sou do Peredo, tenho 14 anos. Ando no segundo do liceu, antigo quarto. Já não tenho quase família em Portugal: tenho um tio em Lisboa, e isso. Os irmãos, e pai, e mãe, estão todos em França. Em França são o meu pai, a minha mãe, a minha irmã casada (com o meu cunhado) e o meu irmão. No Peredo tenho só um primito pequeno, que também tem os pais em França. Os meus pais vivem a três quilómetros de Paris. Eu vivi com eles até vir para cá fazer a escola primária, tal como o meu primito. Em França a casa dos meus pais tem três divisões: o quarto deles, o quarto do meu irmão e a cozinha. Antes vivíamos numa barraca em São Dinis, uma barraca com quatro divisões. A casa é melhor! Na barraca a gente conhecia mais gente, é diferente. Jogava-se à moedinha… o meu pai trabalha na construção do «metro», a minha mãe trabalha na S.N.C.F. (caminhos de ferro) a fazer limpezas. Ganham quinze contos os dois. Têm comprado uns bocadinhos no Peredo, uns para um lado, outros para outro. Voltarem para cá? Se calhar… o meu irmão não, faz mecânica e no Peredo não há carros, não se vai meter ao Peredo! Eu não sei – para a França não vou. Bem, é conforme.

    O meu irmão era para estudar cá: estudou em França porque foi na altura em que o meu pai foi para a França, fomos todos para a França, o meu irmão não quis ficar cá. Eu é que já estava cheio daquilo, já conhecia aquilo e vim para cá estudar, cá não conhecia nada. O meu pai está lá há nove anos.

    Em Moncorvo vivo numa casa particular. Pago um conto trezentos e cinquenta. Somos dois estudantes. Não se come mal, é mais ou menos o que se comia no colégio daqui, no Campos Monteiro. É talvez um pouco melhor que no colégio.»


CONVERSA EM REDONDO

    ABÍLIO – À noite às vezes vou estudar para a escola, vou com o Sr. Abel, o contínuo. Para ele não estar sozinho… o Sr. Abel faz lá serviço também à noite, com o curso nocturno.

    ANTÓNIO – Estudantes são mais no prado, na corredoura… alguns na vila, cá em cima. Na minha parte do prado há luz.

    JOSÉ – Há um que estuda à luz da candeia, não tem luz em casa.

    VOZ NÃO IDENTIFICADA – O Gastão.

    OUTRA VOZ – O Gastão e a irmã. E uma outra moça, a prima deles.

    VOZ NÃO IDENTIFICADA – Já sei, o Abílio e os outros dois moços… ledes uns «cowboy» e uns «caprichos» como é que podeis estudar todos no mesmo quarto?

    (risos)

    CRISTINO – Os dois lá de casa estudamos na mesa, estudamos juntos. Às vezes na cama.

    JOSÉ – Em minha casa há dois garotos, às vezes começam a fazer barulho e os pais batem-lhes. De resto não estorvam. Se dizem alguma coisa quando temos a luz acesa até mais tarde? Não, não dizem. A mim desligaram a electricidade foi uma vez que eu estava a secar o cabelo com o secador. Faltou a luz, fui ver e tinham eles, os da casa, que a tinham desligado…

    (risos)

    ABÌLIO – A comida? Se como peixe muitas vezes? Ora deixa-me ver: das catorze refeições da semana talvez umas três de peixe, o resto é carne.

    JOSÉ – Na minha casa come-se muito porco. Eu gosto. Mataram o porco…

    ABÍLIO – Eu hoje foi batatas cozidas com peixe do rio, bogas.

    (Gravação imperfeita; depois:)

    ABÍLIO – Bebe-se vinho, pois. E o melhor é que em casa dos meus pais não se bebia vinho…

    JOSÉ – Em minha casa bebo só eu, o dono da casa faz dieta.

    CRISTINO – Eu hoje almocei batatas com bacalhau.

    AMANDIO – Eu bogas com batatas, e doce. Doce cabaça.

    ABÍLIO – Eu, a pagar um conto e cem, eles não podem dar melhor comida. Como as coisas estão…

    JOSÉ – Na casa onde eu estou eles fabricam batata, feijão, carne de porco. Há uma certa fartura.

    AMANDIO – O Morais pagava um conto e tal, agora queriam-lhe subir para dois contos e quatrocentos sem roupa. Lá arranjou uma casa particular por um conto e quatrocentos.

    (Gravação imperfeita; depois:)
ABÍLIO – O que é que eu faço ao fim de semana? Ao domingo levanto-me às onze horas, venho para a rua e não encontro ninguém. Depois vou almoçar; lá para essas três, quando acabo de almoçar, se arranjo alguém que tenha rádio vamos ouvir o relato, senão passa a gente assim uma tarde a olhar… Também vejo televisão em casa. E vou ao café.
ANTÓNIO – Eu vivo com a família, mas é quase a mesma coisa. Levanto-me à volta das onze, meio dia, venho para cima, depois vou para casa almoçar,
Às vezes já não volto para cima, fico a ver televisão. Isto ao domingo. Outras vezes venho ao café, ter com uns amigos.
ABÍLIO – Andar com as colegas? Elas ao domingo nem se vêem na rua!
AMANDIO – No domingo levanto-me para jantar…
(risos)
AMANDIO – Para almoçar, vá; levanto-me, vou dar umas voltas até que chega a noite. Isto é quando fico, porque normalmente vou passar o fim de semana ao Peredo ou a Foz Côa. Relatos? Não gosto de futebol.
CRISTINO – Eu passo toda a tarde de domingo no café a ver televisão. Almoço e venho toda a tarde para o café. À noite vejo o «Domingo à Noite».
 (risos)
  JOSÉ – No sábado vou às vezes ao cinema; depois no domingo levanto-me por volta do meio dia, lavo a cabeça, saio com os meus colegas e vou até ao café jogar uma partida de bilhar. E acabou o domingo…


Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria , texto de Fernando Assis Pacheco,fotografias de Leonel Brito. Jornal República , Março de 1974
In TORRE DE MONCORVO , Março de 1974 a 2009. De Fernando Assis Pacheco ,Leonel Brito, Rogério Rodrigues. Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo

   

   


3 comentários:

  1. O Abilio recentemente através do facebok descobriu alguns amigos dessa época de Moncorvo e contactou-nos actualmente vive nos Estados Unidos e há muito tempo que não vem a Portugal agradeço ao Lelo de Moncorvo os belissimos artigos que tem publicado todos os dias quando vou á Internete é um dos primeiros saites que abro estou a tentar ter coragem para publicar algumas fotos de 1968 a 1975 tiradas nessa terra.

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  2. Eram tempos difíceis. Durante dois anos a viajar entre Felgar e Moncorvo de comboio com o saco dos livros ao ombro e o da merenda ao outro, saindo de madrugada e entrando com a noite cerrada. Não havia cantina ou bar na Escola, comia-se naquele espaço destinado ao futebol debaixo das amendoeiras. Por vezes almoçava-se na Taberna do Ti Zé Reis marido da Tia Adilia protectora dos Felgarenses onde nos aquecíamos á lareira sempre acesa no inverno. Mais um ano de autocarro e mais dois a residir em Moncorvo.
    Nesse tempo não era fácil adolescentes serem aceites no café sobretudo não fazendo despesa. No café Central sorte em um empregado ser de Felgar, o Longo, permitindo-nos ali passar algum tempo e sobretudo ver jogos de futebol. Moncorvo progrediu mais nestes últimos 38 anos do que até ali.
    Fernando Assis Pacheco, Leonel Brito e Rogério Rodrigues foram os protagonistas que contribuíram para acabar com o marasmo e conservadorismo que assolava Moncorvo.
    AC

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  3. Ganhe lá coragem amigo e publique Sá fotografias desse tempo. Eu também vivi e estudei em moncorvo e é um prazer reviver esses tempos e esses amigos..amo moncorvo e todos os que passaram na minha vida.. Eu vivi na querida rua nova..rua cheia de garotada, risos, cantigas e brincadeira..

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