domingo, 18 de dezembro de 2016

Máscaras e Danças Rituais,de António Pinelo Tiza

O autor desta obra “conseguiu reunir uma imensa quantidade de material etnográfico e identificar o seu significado antropológico. Tem também o grande mérito de analisar a atitude dos alunos dos vários graus de ensino para com a cultura popular. O seu interesse como base de uma estratégia para a preservação da cultura popular é enorme”.
José Mattoso

«António Pinelo Tiza, nesta brilhante tese de doutoramento – escrita numa linguagem perfeitamente acessível ao não-especialista – transmite-nos conhecimentos, reflexões e factos de grande interesse identitário para as regiões de Bragança e Zamora, território que partilha raízes milenares ainda hoje vivas nas tradições das mascaradas e das danças dos pauliteiros, ou paloteo, que, como festividades cíclicas, têm lugar no período do solstício de Inverno ao equinócio da Primavera.
Por outro lado, o intenso trabalho de campo do autor revela que os jovens destas duas regiões da Raia mantêm uma forte ligação afectiva a este rico património intangível.» 
                                                                                                 Paulo Alexandre Loução

Prefácio
Pinelo Tiza,
Um investigador sobre a raia
            No ano de 1911, Miguel de Unamuno, esse “filósofo da existência” que pensava e sentia e escrevia a partir de Salamanca, a partir das nossas terras, publicou um livro que fez questão de intitular Por tierras de Portugal y España. Naquela altura, há quase exactamente cem anos, o título parecia estranho a toda a gente porque essas terras não se afiguravam comparáveis. Mais ainda: não pareciam compreensíveis como um todo. Basta pensar que, por exemplo, a zona que separava (ou que ligava?) essas terras se chamava e ainda se chama “a raia”. Os espanhóis e os portugueses entendiam e talvez ainda entendam hoje o termo “raia” com uma conotação negativa. Era a fronteira por onde passavam contrabandistas escondidos nas sombras da noite e era o limite que se transpunha “para fazer compras” de um dia. Mas, as gentes dessa chamada fronteira não o sentiam desta forma, como nos daremos conta pela leitura do livro, caro leitor, que agora tem em suas mãos. Para elas, a raia não era uma fronteira.


            E, o que é uma “raia”? A Real Academia da Língua Espanhola tem quatro acepções fundamentais para o termo “raia”. Por um lado, ponerraya quer dizer que se põe termo ou final a alguma coisa e quer dizer também limite ou fronteira de separação. Mas, por outro lado, quer dizer, e esta é a primeira acepção do Dicionário da nossa R. A. E.:,sinal longo e estrito que, por prega ou fenda pouco profunda, se produz natural ou artificialmente num corpo. Vejamos: não é um limite mas um “sinal”; é “longa”, mas também é “estreita” e é “pouco “profunda”, somente uma “prega”; e faz-se, declaradamente, no que constitui “um corpo”. Nas longínquas terras de um lado e do outro da raia, para a grande maioria dos espanhóis e dos portugueses essa raia é um limite, uma separação e uma fronteira. Mas, para os que vivem nas terras próximas da raia é apenas uma prega, estreita e pouco profunda, que se faz sobre um corpo, que se traça sobre o mesmo corpo.
            Por isso, António Pinelo Tiza, que vive literalmente em cima da raia, e eu próprio, que vivo nas terras à volta dessa raia, colaboramos juntos, há já alguns anos (1995) num mesmo livro intitulado: Portugal y España, vidas paralelas. Quando esse livro foi publicado, António e eu tínhamos acabado de nos conhecer no Departamento de Didáctica de las CienciasSociales da Universidade de Valladolid. Ele tinha-se deslocado de Bragança para dar início à elaboração da tese de doutoramento porque se sentia participante das vivências de uma mesma terra. Por isso, este prefácio podia ter o mesmo título daquele livro, ou outro parecido: Vidas paralelas, las de España y Portugal, sobre la raya. Mas, o que é importante neste prefácio é falar da pessoa que é o autor das páginas que se seguem.
            António Pinelo Tiza levou a cabo um grande trabalho, directa ou indirectamente, sabendo disso ou não, por acção imediata ou pela repercussão das suas acções. Foram acções realizadas nesta tarefa, que a todos nos compete, de eliminar erróneas ideias que todos nós, espanhóis e portugueses, temos sobre a vinculação de homens e terras portuguesas e espanholas. Essa vinculação é contínua, é enorme, é profunda, é longa. Quero eu dizer que tem séculos de vigência (é longa), quero eu dizer que não é superficial nem ligeira (é profunda), quero eu dizer que é muito grande, muito extensa, muito ampla (é enorme) e, finalmente, quero eu dizer que não parou nunca: é contínua.
            Dessa continuidade, portanto, foi ponta de lança Pinelo Tiza. Na verdade, atrás dele e da sua primeira “viagem iniciática” a Valladolid em 1992, seguiu um conjunto de professores e amigos portugueses, oriundos sempre do mundo da educação, vindos de Bragança, de Macedo de Cavaleiros, de Mirandela, de Viseu ou, inclusive, de Vila Real, para trabalharem em conjunto com muitos professores de Valladolid que começaram a dirigir-se, por seu lado, para trabalharem, sem carácter de continuidade, em terras portuguesas. Assim se iniciou uma frutífera relação (longa e contínua) que já dura muitos anos e que foi proporcionando, nesse tempo, e está produzindo ainda hoje, frutos dignos do maior apreço. Desta relação iniciada por Pinelo Tiza nasceram livros, teses doutorais, cursos, mestrados… ano após ano.
            Fui eu a âncora espanhola de Pinelo Tiza naquela altura e sou testemunha permanente até aos dias de hoje dos frutos dessa relação. E os dias de hoje são os de Novembro do ano de 2012, ano em que se defenderam duas das últimas teses de doutoramento criadas no calor desta relação. Sou, pois, testemunha da existência de uma fluida corrente de continuidade educativa, cultural, científica e universitária que quotidianamente circula de Espanha para Portugal e de Portugal para Espanha, por cima dessa prega, desse sinal estreito e pouco profundo, a que chamamos raia.
            Foi por ser a testemunha mais fidedigna de tudo isto que o autor me solicitou que escrevesseestas linhas para que servissem de prefácio ao seu livro que, basicamente, corresponde à sua tese de doutoramento: O conhecimento mútuo das tradições etnográficas na educação espanhola e portuguesa. Mascaradas e pauliteiros em terras de Zamora e Bragança.
            Mas não sou eu quem vai falar sobre o que este livro significa (tarefa que quero deixar a cargo da pena da Dra. SánchezAgustí, já que foi ela quem dirigiu a sua elaboração como tese doutoral), mas, como tenho vindo a fazer, do que representa Pinelo Tiza para o crescimento dessa relação mútua entre espanhóis e portugueses.
            Desde 1975, Pinelo Tiza, oriundo do mundo científico da Filosofia, exerceu a docência como professor do ensino básico, secundário e superior, tendo exercido também responsabilidades educativas no distrito de Bragança. É de destacar que igualmente assumiu responsabilidades no sector do turismo. Quero destacar este facto porque, mesmo que procedente do campo filosófico, a acção científica de Pinelo centrou-se no mundo das Ciências Sociais e, muito em especial, no campo etnográfico no qual poderíamos dizer, com certeza, se tornou uma autoridade, reconhecida e prestigiada, tanto em Espanha como em Portugal.
            E, assim, participou em numerosos congressos sobre Etnografia de Espanha e Portugal, do Brasil e da África. Participou em projectos de recuperação do património imaterial na Galiza e Norte de Portugal (Projecto RONSEL) ou na organização do Museu Ibérico da Máscara e do Traje de Bragança. Foi director da revista “Amigos de Bragança”. É avaliador externo da prestigiada revista “StvdiaZamorensia”. É vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes e Presidente da Direcção da Academia Ibérica da Máscara, uma associação de âmbito internacional dedicada ao estudo, divulgação e preservação dos rituais festivos das mascaradas.
            Os seus estudos, expressos em livros e conferências, exactamente sobre as mascaradas e, como corolário, sobre as festas tradicionais, as danças, os mitos, as tradições, os mistérios, a música popular, os ciclos festivos, os diabos, a morte, o artesanato, a religiosidade… são conhecidos e reconhecidos no mundo científico. E a sua versão para a importância educativa que isso tem na formação da consciência regional, para a procura da identidade colectiva nas crianças e jovens das nossas terras, torna mais valioso este trabalho enorme de recuperação e difusão de tradições. Uma recuperação que em Pinelo não é apenas interesse do científico social, não é curiosidade de entomólogo histórico, porque Tiza é também participante directo, com sua gaita-de-foles portuguesa, na vivência e na permanência da etnografia da comunidade hispano-portuguesa.
            Porque, não esqueçamos, em tudo isso, a visão de “comunidade” de “tradição colectiva” que afecta um lado e o outro da “raia”, terras portuguesas e espanholas, que o labor de Pinelo disponibiliza, projecta-o a uma altura que ultrapassa o trabalho de recolha ou preservação científica para transmiti-la ao campo da história e, a partir daí, ao campo do social. É uma tarefa que nós, portugueses e espanhóis, nunca lhe vamos agradecer convenientemente nesta época em que os nossos jovens de ambos os lados se afastam a cada dia que passa, transportados pelas atraentes asas do virtual e da informática, daquilo que as suas terras representam.
            Este livro oferece-nos a imagem desta realidade, ainda viva, e luta para que nunca deixe de o ser, para que continue a ter significados, para que não se converta num fóssil do qual vagamente se fale em qualquer livro de história.                                                                                   Isidoro González Gallego
Reitor da Universidade Internacional 
Introdução
Os Valores do Conhecimento mútuo das Tradições Etnográficas na Educação Espanhola e Portuguesa
Realidade de hoje e realidade do futuro
            Foi uma satisfação para mim dirigir o trabalho de doutoramento de António Pinelo Tiza. Mas, foi não só uma satisfação, como o é sempre o facto de ajudar a trazer ao mundo da investigação um novo ser científico, mas também o foi porque, mais do que a orientadora de um trabalho, me sinto a colaboradora de Pinelo Tiza no seu labor criativo.
            Colaboradora, porque a sua tese não é a obra de um investigador novo, nem tão pouco é uma obra que nasce “ex novo”. Pinelo Tiza não é um novo investigador, mas um etnógrafo de reconhecido prestígio. E a sua obra não é uma criação sem antecedentes, mas o culminar, para o seu reconhecimento universitário, de uma longa e ampla tarefa de estudo. Foram, os de Pinelo Tiza, estudos sobre a sociedade tradicional, os costumes, os ritos, a cultura popular, as máscaras e o folclore que permanecem vigentes num lado e no outro dos limites que a história traçou, sobre um território, para definir dois diferentes estados políticos. Mas estes limites, e esta definição política diferenciadora, não são já tão diferentes quando se trata de estudar a sociedade que vive nestas terras.
            O valor mais notório que agora se apresenta em livro fundamenta-se, em minha opinião, na análise dos costumes que sobrevivem, tão similares, de um e outro lado da fronteira numa perspectiva comparativa e, no âmbito dessa comparação, estudando, justamente, se os jovens espanhóis e portugueses que vivem num lado e no outro da fronteira estão conscientes desta comum identidade.
            Sê-lo-ão? E se o forem? Como o serão? Mas, se não o forem? Porque já não vivem as tradições, em geral? Porque não estão conscientes de que são as mesmas? Porque, ainda que o sejam, as diferenças da história, da política e da cultura entre espanhóis e portugueses encobrem e obscurecem a visão de uma tradicional realidade comum? Definitivamente, as fronteiras políticas introduzem também fronteiras mentais entre os nossos jovens? São as perguntas que colocamos neste livro, um livro que mostra o labor de um autor que vê com um olho a sua tarefa científica, a do etnógrafo, e com o outro um campo também adequado ao seu múnus profissional: o de educador.
            O trabalho abrange a situação geográfica e cultural dos dois espaços, um de Portugal (Bragança) e o outro de Espanha (Zamora) e concentra-se em duas tradições de ambos os espaços: as mascaradas e os pauliteiros. As mascaradas analisam-se fundamentalmente a partir do “quando?”. E os pauliteiros abordam-se basicamente a partir do “como?”. Mas ambos os espaços e ambas as tradições são enquadrados pelo autor no âmbito de um marco e de um contexto: o da história local. É este enquadramento que lhe vai permitir entrar no cerne do seu estudo: a análise comparativa. E a análise comparativa na educação, nas escolas zamoranas e brigantinas, nas vivências dos jovens nos quais reside o protagonismo futuro das tradições, a garantia da sua preservação… ou do seu desaparecimento. Por isso é tão importante este trabalho.
            A análise comparativa faz-se estudando o grau de conhecimento da cultura, da tradição e da história espanhola e portuguesa, pelos jovens portugueses e espanhóis. O seu grau de valorização. E a sua realidade aplicativa, quer dizer, a sua participação nestas tradições e a existência ou não (na escola ou fora dela) de grupos activos que mantêm as mascaradas e os pauliteiros. O estudo comparativo aprofunda ainda mais, tendo em conta os contactos reais existentes entre os jovens de umas e outras terras, o seu conhecimento da história local, dos monumentos significativos das várias localidades. Tudo isso, porque estamos perante um estudo muito rigoroso, considerando diferentes variáveis escolares, sociais ou etárias.E detém-se, por fim, no conhecimento e compreensão mútuos das línguas espanhola ou portuguesa no outro território.
            Os resultados são deveras interessantes. As suas conclusões estão repletas de atractivo para nós, espanhóis e portugueses enamorados por Portugal ou por Espanha, conscientes da quantidade de coisas que nos unem e, inclusive, nos identificam. Quais são esses resultados e essas conclusões? Qual é a realidade de hoje? E, em função do que este livro nos dá a conhecer sobre os nossos jovens, como poderá ser a realidade do futuro?

MaríaSánchezAgustí
Professora Catedrática da Universidade de Valladolid

 Isabel I de Castela, Valladolid

2 comentários:

  1. António Pinelo Tiza : Obrigado, Lelo. Palavras simpáticas, agradáveis de ler/ouvir para quem quer que se tenha dedicado a um trabalho de investigação que veio a lume e está disponível para quem se interessa pela temática desenvolvida. Bem-haja.

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  2. Obra notável que devia ser de leitura obrigatória no ensino em Trás-os- Montes.Rega as nossas raízes,encontramos a nossa identidade,orgulhamo-nos de ser trasmontanos.Abençoada terra que tal filhos tem.
    Alberto Gomes

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