terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Natal na minha aldeia ,por Irene Massa

No Natal na minha aldeia emanava no ar o perfume a rabanadas,a filhós,a milhos doces com canela...Recordo com saudade o meu tempo de menina,em que acreditava que o MENINO JESUS descia pelas chaminés enegrecidas e,sem que eu compreendesse,vinha misteriosamente colocar-me no sapatinho os sonhos que eu ia acumulando ao longo de todo o ano...Escrevia-Lhe um bilhetinho,sem erros de ortografia,não fosse Ele zangar-se comigo,metia-o num envelope selado com dois tostões,já que podia ir aberto, e,depositava-o na caixa do correio.Prendas simples as pedidas,comparadas com as dos tempos que hoje vivemos.Uns chocolatitos,um Pai Natal vestido de folha de prata,uns lencinhos com bonecos para assoar o nariz e,se não fosse pedir demais,uma boneca que abrisse e fechasse os olhos.Tive algumas,mas a "Sissi" que teve honras de baptismo à porta da igreja,em Maçores,com bolos e tremoços à mistura, é uma das que ainda guardo na memória,sem esquecer a "Mimi",uma boneca de trapos,da qual ainda lhes hei-de falar um dia...Mas aquele Natal foi para mim especial...Em Urros,na montra da sra Ester,vi um lindo cachecol amarelo que me deixou fascinada,não sei se pelo seu toque macio,se pela cor que era igualzinha à do "Farrusco"que andava lá por casa e que tinha o hábito de se ir deitar aos meus pés, tornando-me as noites daqueles rigorosos invernos mais quentinhas e,ao mesmo tempo,tranquilizando-me ao ouvir-lhe o seu ronronar suave que,em caso de perigo iminente,com as suas garras afiadas,iria pela certa defender-me dos "papões" da minha infância.Confesso que aquele lindo cachecol me roubou algumas horas de sono.Quanto mais o olhava,mais encantada ficava...Um dia, num gesto irreverente e atrevido, pedi à bondosa da sra Ester se ao menos lhe podia tocar.-Que sim...respondeu-me ela num sorriso afável e cordial.Até o podia levar para casa; a mamã lá o iria pagar como e quando pudesse.Foi longa aquela NOITE ABENÇOADA em que todos somos irmãos! Manhã cedo,quando uma luz ténue entrou pela friesta da janela do meu quarto,levantei-me de mansinho e,em pontas de pés descalços, dirigi-me à lareira da cozinha.Que desilusão! Então eu que tinha redobrado as minhas orações ao deitar,não "respingava" nas minhas idas ao "soto"e até ia dormir com a minha avó,o que para mim era um sacrifício inimaginável,devido ao feitio azedo que ela tinha e,Ele, AQUELE MENINO, a quem tratava por Tu,porque bem vistas as coisas,devia rondar a miha idade,Ele que era tão Bom e Poderoso,tinha-me feito aquela desfeita!!! À saida,com as lágrimas a bailarem-me nos olhos ,reparei no pinheiro enfeitado com bolinhas de algodão em rama,dando-lhe um ar de frio e neve ao qual a minha mãe colocava no chão um minúsculo presépio iluminado com uma lamparina de azeite que só se apagava na noite em que os "raparigos" nos iam cantar os Reis. E...Oh! que alegria! Afinal o MENINO JESUS era mais esperto do que aquilo que eu pensava...Colocara-me o cachecol não no sapatinho, mas sim ao lado do pinheiro, embrulhado num papel colorido,com receio que algum "cibo"de fuligem se tivesse desprendido do "chupão",que a noite tinha sido ventosa e, não fosse ficar "enfurretado" antes do estrear.Senti-o a aconchegar-me o pescoço, de mão dada com a minha mãe e, na missa de Natal, cantei mais afinadinha os cânticos ao DEUS MENINO em sinal de gratidão.Pela memorável lembrança ainda hoje ,já mãe e avó, sempre que peço uma prenda, é ao meu filho que lhe mostro a intenção de que me ofereça um cachecol,não amarelo,de qualquer cor,não sei se por saudade ou nostalgia do tempo que passou e teima em não mais voltar...Ele sempre que se lembra faz-me a vontade.-Bem hajas Luis. FELIZ NATAL...

Irene Massa-(Ireninha)-Urros

27 comentários:

  1. Otilia Borges disse:Tão bem retratados esses nossos natais de antigamente...

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  2. Olá Ireninha!
    Parabéns por esta prendinha, que também nos aquece, o teu lindo texto.
    Obrigada por me trazeres, de novo a nossa aldeia e as pessoas, por quem tenho uma grande estima.
    Com amizade,
    Tininha

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  3. Que emoção tão grande senti ao ler este conto de Natal.A senhora Ester é a minha mãe( já partiu, mas gosto de me referir a ela sempre no presente),a minha bondosa mãe, obrigada Irene.
    Maria José Garcia Fernandes. (Misé)

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  4. Natais felizes que a Ireninha, menina afortunada, tinha.
    Fico feliz quando isso acontece, pois " o melhor do mundo são as crianças" , como diz o poeta.

    Um abraço amigo
    Júlia

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  5. LINDOOOOOOOOOOOOO!

    Fez-me voltar aos tempos de menina e a toda a magia do Natal dessa época...
    Amiga obrigada por este presente.
    Um beijinho grande
    Isabel

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  6. Olá minha querida Mízé!Era de facto uma sra. bondosa a sua Mãe.A história é verídica pode crer,e nunca mais esqueci esse gesto generosa daquela bondosa Senhora.Já agora esse "Garcia" não será também da minha família?Beijinhos.Irene

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    1. Olá Irene, acredito que a história é autentica, pois a minha mãe era mesmo assim, passados 21 anos após a sua morte todos a recordam com essa bondade.

      Em Urros só havia uma família Garcia, a nossa, em Urros e Moncorvo ( O Fernando Garcia, a Maria José, Teresa, filhos do António Garcia - taxista e fotógrafo), em Urros havia muitos outros :)
      Misé - Maria José Garcia Fernandes

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  7. Minha amiga Tininha!Que bem que me fez saber-te a adormeceres embalada em fantasias e ilusões vividas na nossa infância na nossa terra em Urros...Beijinhos.Ireninha

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  8. Ireninha, mais uma vez deste um ar da tua graça literária, com este belíssimo texto sobre o Natal,um retrato muito real do que se vivia na nossa infância.
    Uma das coisas que aprecio na tua escrita são as palavras que tão bem retratam a linguagem utilizada na nossa Aldeia.
    Aproveito para saudar a Misé.
    Parabéns.
    Manuel Sengo

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  9. Olá Irene
    Penso que somos família sim, os Garcia de Urros e Moncorvo são todos família.
    Talvez se lembre da minha avó, a senhora Maria José.Em Moncorvo, o senhor Garcia (taxista e fotógrafo, a Maria José, o Fernando...)Obrigada minha querida, ainda hoje estou emocionada...Que bom saber que a minha mãe ficou para sempre na vida de uma criança...Marcas boas de recordar...Beijinhos:)
    Misé

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  10. Olá Mizé!Eu é que agradeço a gentileza que tens em leres os meus simples textos nos quais tento relatar dias felizes passados na nossa pequena aldeia,mas a felicidade é redobrada quando "coisas"destas me acontecem.Perdoa-me se te fiz chorar outra coisa não é de esperar,mas Saramago dizia que a vida não vale mais que duas lágrimas eu digo-te:
    As nossas mães valem as lágrimas todas da nossa vida.As pessoas que me mencionas algumas ainda as recordo,nomeadamente o sr.Garcia e se te contasse...dava uma história e tanto...Beijinhos minha querida da Ireninha de Urros.

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  11. Ireninha, gostamos muito da seu conto de Natal. Está muito bem, pois faz-nos lembrar os nossos pedidos de prendas ao Menino Jesus. Continue a deliciar-nos com os seus escritos que achamos maravilhosos.Beijos do Lima e Sabina.

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  12. Tão doce e ternurento este conto de Natal!! (a Irene tem esse dom com as palavras).
    Muito obrigada pela partilha.
    Um beijinho e bom natal.
    São.

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  13. António Espírito Santo ‎....Comovente...pela beleza das coisas ...simples....gosto muito das suas histórias, Irene..

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  14. Olá minha querida Irene, o Senhor garcia era primo carnal da minha mãe, também tenho algumas histórias memoraveis com ele...
    Beijinhos
    Misé

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  15. Lindo este conto de Natal,Natal este que tanto recordo dos meus tempos de criança...
    Um bom Natal. beijinho
    Fernanda Almeida

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  16. Olá meus amigos!Obrigada pelos vossos comentários.São histórias simples contadas por alguém que as viveu e nunca as esqueceu...Irene

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  17. Muito bonito... Tem de facto a arte e engenho de nos transportar para tempos idos fazendo-nos recordar as memórias mais queridas e estimadas que todos temos. Obrigada por isso e continue a inspirar-nos. Feliz Natal.
    Fátima M.

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  18. Amiga, gostei muito do seu Conto de Natal, principalmente porque faz parte dele!
    Agora, fico um bocadinho com cíumes. Pois a menina Ireninha de Urros,também já é, e muito, a menina Ireninha da Régua. Por isso, quero um conto aqui da "Nossa Terra".Combinado?Beijinho da
    Branca

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  19. Olá BRANQUINHA!Muito obrigada.
    Da Régua e com muito gosto,que me adoptou e, onde tenhoamigas que merecem toda a minha gratidão...Quer que lhe conte uma história?
    -Era uma vez uma menina atravessada e brincalhona que tinha um coração doce,recolhia gatinhos vadios e tratava-os com amor...e,imaginem que quando era pequenina sonhava que queria ter um papagaio de papel...Beijinhos.Irene

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  20. Olá Mizé!Peço desculpa por não ter respondido mas por aqui a net tem andado a modos que"a fugir ao vai-te embora".O meu marido respondeu à mensagem do Facebook mas...quando as férias começarem o meu neto já trata disso.Beijinhos da Irene

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  21. Outro (mágico) cachecol neste Natal,capaz de a fazer(quase) tão feliz como naquele da sua meninice- são os votos sinceros de quem também desejaria voltar à infância.

    Uma moncorvense

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  22. Olá Sra de MONCORVO!Tenho que lhe pedir mil perdões por não lhe ter agradecido o comentário que fez ao meu primeiro texto mas sabe...eu ainda sou novata nestas modernices da internet.Um beijinho de gratidão e um FELIZ NATAL .Irene

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  23. Minha querida sra.de Moncorvo!Era bom era!Esses tempos nunca mais voltam são tempos de magia ,tempos inesquecíveis que guardamos para sempre.Beijinhos e um FELZ NATAL.Com um beijo de amizade.Irene

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  24. Fui incentivado a ler este "conto", num maravilhoso dia de praia qdo estava eu com a minha família. Era o único no areal com um computador ... Engraçado como as coisas são, era apenas a segunda vez que o tinha retirado da mochila, pois nao era do meu habito levar tecnologias para lugares "sagrados". Enfim, mas valeu a pena. Pelo menos desta vez fez a diferença, e termino com uma das frases que mais me tem guiado na vida. "A Felicidade nao vem de se obter algo que não se tem, mas de reconhecer-mos algo que afinal ja temos". Tudo de bom ... Luis Pessoa

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  25. Sempre ouvi dizer que o meu avó era de urros ! O nome dele era jose joaquim Garcia e era Barbeiro! Gostava de conhecer melhor essa parte da história da minha família materna ...
    A data de nascimento do meu avó .. Presumo que por volta de 1900 ! Agradeço. A quem esse nome lhe disser algo ! Que faça o favor de entrar em contacto comigo através do meu email ferreiraberta@hotmail.com
    Berta Garcia costa Ferreira

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  26. Muito bonito! Não se esperava outra coisa.
    Fátima Marques

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