quarta-feira, 6 de julho de 2016

Trasmontanos Sefarditas e marranos



 Freixo de Espada à Cinta
João de Castilho. Foi um dos mais celebrados arquitectos portugueses. O seu nome está ligado a várias das mais grandiosas e emblemáticas obras de arquitectura nacionais, como sejam: o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, o convento de Cristo em Tomar, a sé de Viseu, a fortaleza de Marzagão em África… Menos conhecida é a sua ligação à gente da estirpe hebreia e a Trás-os-Montes. A terra de seu nascimento, porém, foi Santander, em Espanha, por 1490. Dois anos depois, foi promulgada a lei de expulsão dos judeus de Espanha e os seus pais tê-lo-ão trazido para Portugal e mais concretamente para a vila de Freixo de Espada à Cinta. Nesta terra viria a casar, com Maria Fernandes Quintanilha, filha de um outro fugido da inquisição espanhola chamado Garcia Fernandes que, por sua vez, tinha casado na família Varejão, porventura uma das mais ricas e poderosas do burgo. E estes Quintanilha – Varejão aparecem-nos ligados à fundação da Misericórdia de Freixo. E não seria por acaso que um grande “milagre” aconteceu exactamente na igreja da Misericórdia onde os pés de uma estátua de Cristo Crucificado entraram repentinamente a largar gotas de suor, em tempo de verão e de uma prolongada seca, logo se seguindo uma enorme chuvada, que encheu de alegria os lavradores. E de gratidão aos céus. E também na mesma igreja se conserva ainda hoje o retrato de António Francisco Varejão que, por esses tempos, foi missionário em terras do Oriente e o povo de Freixo elevou a “santo”.
Temos, pois, o arquitecto João de Castilho casado em Freixo de Espada à Cinta, na família dos Quintanilha – Varejão que certamente esteve na vanguarda do movimento para a construção da belíssima igreja da Misericórdia. E também da extraordinária igreja matriz, que tem a dignidade de uma sé episcopal e que os estudiosos da arte apelidam como os “Jerónimos de Trás-os-Montes”. E também as famílias promoveram a construção de belas casas, umas mais solarengas que outras, mas todas casando-se em harmoniosos arruamentos, em típico estilo manuelino, o estilo em que João de Castilho foi o expoente maior. E a minúscula e pobre terra adoptiva deste grande mestre de arquitectura, situada no mais recôndito dos lugares do reino, para além da fronteira duriense e para trás dos montes, tornou-se na mais emblemática das terras Manuelinas de Portugal. E torna-se hoje imperioso dar a conhecer e rentabilizar este património, fazer de Freixo de Espada á Cinta um ponto de partida (ou de chegada) para uma Rota do Manuelino. E torna-se igualmente imperioso fazer de Freixo de Espada à Cinta um ponto obrigatório de passagem numa Rota de Judeus e Marranos, promovendo-se o estudo da simbologia judaica que ornamenta portas, janelas e muros de casas, bem como a leitura e estudo dos processos que a inquisição moveu contra os Marranos de Freixo de Espada à Cinta. Estas duas Rotas de Turismo Cultural serão essenciais para o desenvolvimento da terra.
António Júlio Andrade
Nota – Sobre este assunto pode ver um conjunto de 4 textos publicados no jornal Terra Quente (nº 227, de 2001-03-01 e seguintes) de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Os Judeus e a Renascença Manuelina em Freixo de espada à Cinta.

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