sexta-feira, 8 de julho de 2016

O tesouro de M.A.P. em Vila Nova de Foz Côa


Com uma homenagem a Manuel António Pina (M.A.P.), a edição deste ano do Festival de Poesia de Vila Nova de Foz Côa teve na diversidade estética a sua grande mais-valia. Para o ano, o objetivo é a internacionalização.
 
Dois dias sobre a celebração da palavra, dois dias de (re)encontros em que as afinidades e cumplicidades não colidiram com a diversidade estética apresentada. No último fim de semana, mais de uma dezena de criadores literários acorreram a Vila Nova de Foz Côa para mais uma edição de um festival de poesia situado à margem dos ditames do 'establishment' literário, mas não, seguramente, da essência literária.
 
Manuel António Pina foi a figura central do certame. Quase 15 anos depois de ter lançado no mesmo local a sua segunda reunião poética, o festival rendeu-lhe homenagem, dedicando-lhe boa parte das iniciativas. Em tom e intensidade diferentes, mas sempre imbuídas de uma genuína vontade de celebração da obra e da figura de um dos autores portugueses mais marcantes das últimas décadas.
Além de uma performance multimédia (a cargo do coletivo de poesia Sindicato do Credo) e da projeção parcial do documentário "Um sítio onde pousar a cabeça" (realizado por Ricardo Espírito Santo), o tributo passou ainda pelo lançamento nacional do segundo volume de "Dito em Voz Alta", uma recolha de entrevistas concedidas pelo escritor ao longo dos anos.
 
Sousa Dias, coordenador da edição, salientou "o acontecimento" que representa a edição desta obra, ao mostrar "um Manuel António Pina diferente do que aparece nos livros". Nestas conversas agora reunidas numa edição, é possível verificar que existia da parte do poeta uma evidente humildade quando dizia que "a minha poesia é tudo o que penso sobre ela", ao teorizar de forma admirável sobre o mundo e os homens. "Ele conseguiu resumir esse paradoxo nos versos 'já não é possível dizer mais nada, mas também não é possível ficar calado'", acrescentou.
 
Profícuo foi também o diálogo sobre a obra literária de M.A.P., em que participaram Ernesto Rodrigues, Sousa Dias e João Luís Barreto Guimarães. O também poeta partilhou com os presentes o absoluto encantamento que representou a descoberta da obra de Pina. "Quando li pela primeira vez 'Esplanada', poema que teve sobre mim um efeito extraordinário, a minha primeira reação foi perguntar se, afinal, era possível escrever poemas que não fossem sobre Olimpo ou Parnaso, em que poderia falar mal de Saramago e dissertar sobre pernas", disparou.
 
Barreto Guimarães confessou ainda a admiração pela vertente de cronista do homenageado, na qual "conseguia ser uma espécie de Robin dos Bosques": "Com ironia e humor, conseguia acompanhar a atualidade. A brevidade destes textos fazia com que tocasse um número extraordinário de leitores. As crónicas não ficavam a dever nada à sua poesia".
 
Centrada também na obra foi a intervenção de Ernesto Rodrigues. O ensaísta e professor universitário salientou que tanto nas crónicas como na poesia é possível destrinçar "um certo pessimismo", que, todavia, vem acompanhado "de esperança e uma certa resiliência".
 
A "arte da inventiva vocabular" foi uma das facetas "singulares" destacadas pelo autor do recente "Uma bondade perfeita". Presente nos livros para os mais jovens, estendeu-se também à poesia e à crónica. "Ele foi dos primeiros a criticar o eduquês, sobre o qual hoje tantos falam", considerou.
Amigo muito próximo do poeta, Sousa Dias confessou "a dívida eterna de gratidão" por ter feito parte "do restritíssimo grupo de intimidade, convívio esse que lhe permitiu descobrir "uma pessoa excecional". "Encontrar boas pessoas e bons escritores é muito raro. Não exagero se disser que nunca conheci ninguém como ele. Ele era o exemplo máximo de nobreza humana, com uma generosidade absoluta que o levava a pensar antes de mais nos outros", partilhou.
 
Por muito pertinente que tenha sido a homenagem a M.A.P., o festival esteve longe de esgotar-se nestas iniciativas. Das restantes, merece particular relevo a conversa sobre as "tradições, transgressões e desassossegos da poesia portuguesa".
 
Quatro académicos debateram, de modo vivo e com intervenções acaloradas da plateia, o caráter renovador da poética portuguesa através dos tempos. E embora tenha prevalecido a ideia de que "não há revoluções mas transgressões", os intervenientes divergiram quanto ao rumo seguido. Maria João Cantinho apontou "o lado mais performático da poesia" e "a recuperação do surrealismo" como tendências dos novos poetas; A. Dasilva O. elegeu Alberto Pimenta como um raro exemplo de rutura e renovação no meio, ao concentrar diferentes facetas, como a de performer ou criador, enquanto Ernesto Rodrigues adiantou, por outro lado, que "as vanguardas são sempre as primeiras a entrar nos museus".
 
Em jeito de balanço da edição, o diretor do Festival de Poesia de Vila Nova de Foz Côa, Jorge Maximino, louvou "o grande dinamismo e potencial" do projeto, fazendo votos para que seja possível concretizar "já no próximo ano" "uma dimensão prometida desde 2010: a internacionalização".

Fonte: http://www.jn.pt/cultura/interior/o-tesouro-de-map-em-vila-nova-de-foz-coa-5269796.html
 
 
 

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