quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Zulmira morreu -Crónicas da sobrevivência e da morte IV,por Virgínia do Carmo


O Natal sem a Zulmira

 Este vai ser o primeiro Natal da família sem a Zulmira. Na verdade, talvez este seja, antes, o primeiro Natal de todos sem família.
Dizem que as mulheres têm uma enorme capacidade de se desdobrarem em mil e uma tarefas. E assim se tornam a malha que une todos os pontos. A consistência que dá sentido à dispersão. A sábia substância que torna coesos os dias. A Zulmira era um exemplo dessa paradigmática vocação feminina. E muito mais. Como um dado atirado sobre a vida dos outros, Zulmira tinha o dom de cair sempre com a face certa para cima. Porque não obstante ter o seu tempo para mergulhar na dormência profunda do seu veneno incolor, e vasculhar nas entranhas da inconsciência até encontrar os contornas da sua paz, Zulmira emergia depois à superfície com um vigor que contagiava a atmosfera com aqueles cheiros alquímicos a bolo quente e a arroz doce. Vinha carregada de ternura. Uma sensação que se lhe granulava nos olhos e a fazia sentir-se segura na paisagem dos seus filhos entregando-se ao prazer de uma fatia de bolo com leite morno. Aquele era sempre o retorno a uma espécie de génese da alegria. Ao momento de uma certa criação. Aquele momento que durou os primeiros sete anos da sua vida.
O filho mais novo de Zulmira terá, por essa lógica, completado ontem o ciclo da sua criação. Fez sete anos. Zulmira teria desejado estar presente para lhe fazer um bolo. Para lhe lembrar que, não obstante o universo estar viciado na programação septenária de todas as coisas, ele era ainda, e apenas, uma criança. Colocar-lhe um copo de leite morno nas mãos e dizer-lhe
toma o leitinho todo, meu amor, para seres um homem grande.
E, quem sabe, talvez essas precisas palavras lhe vão fazer falta. Talvez, por causa da falta que lhe vão fazer, o pequeno Tomás não cresça tanto quanto devia.
A mãe do Tomás era a sua família. A sua família toda. E Tomás não perdeu apenas a sua mãe. Porque sem Zulmira, a sua filha mais velha deixou de saber para que serve e não se lembra que é a irmã mais velha de alguém. E o seu pai anda tão ocupado a pensar no que vai fazer com a raiva que já não pode dar a Zulmira, que não se lembra que tem filhos. E o outro irmão de Tomás queria muito oferecer-lhe, como prenda de natal, um céu que lhe fosse azul. Mas o pequeno José não conhece as cores.
Assim, este será o Natal de uma única surpresa: a perceção doída de cada um estar tão só. 

Virgínia do Carmo
Ver:http://lelodemoncorvo.blogspot.com/search?q=virginia+do+carmo
 
http://crescendonaspalavras.blogspot.pt/

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2 comentários:

  1. Os meus dedos não estão nada bons para escrita. Mas não posso deixar passar este texto sem dizer o quanto me comoveu , o quanto me arrepiou.
    Notável, Virgínia. Brilhante.

    Um abraço
    Júlia

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  2. Júlia, muito grata pela sensível leitura deste texto, como sempre :) Bem haja! Um beijinho e, seja o que for que lhe "prende" os dedos, as melhoras!

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