terça-feira, 1 de novembro de 2016

SABORES E SABERES PERDIDOS,por Irene Garcia Massa

O vento galego dava os primeiros sinais de vida lá para as bandas da igreja nova, situada no cimo de um pequeno monte ao lado do cemitério, a aconselhar-nos lareira acesa e abafos apropriados para a época.
Era chegado o Outono.
Urros (S.Júnior)
Com ele o dia de Todos os Santos, era para todos nós um dia alegre e festivo, não igual ao da grande festa que se fazia em finais de Agosto ao nosso Santo Padroeiro, que, esse sim, era coisa que se visse, com banda de música e foguetório a estalar, como castanhas em fogueira de S. Martinho.
Manhã cedo a pequenada, vestida de domingo, calções de cotim, botas de pneu a cheirar á última feira de Outubro, enchiam a aldeia em enorme algazarra no pedido do” Santório”.
Não havia casa, fosse ela pobre, remediada ou rica, que não se visse invadida por aquele bando de catraios, que mais pareciam pardais em dia morno de Primavera.
Ó tia Maariia dê-nos cá o Santório! A dona da casa,  avental colorido, lenço atestado no alto da cabeça, sentia-se rainha no seu humilde palácio de soalho e telha vã. Ainda vejo a minha mãe, sorriso aberto, alma cheia num pedido de desculpas como se dar pouco merecesse punição divina.Um punhado de figos secos, amêndoas, nozes, castanhas, enchiam de alegria as taleigas coloridas, feitas de restos de riscado e chita daquelas
crianças, tisnadas pelo último rebusco em amendoal de proprietário rico.

Mãos pequenas, calejadas pelo cabo da enxada, estendiam-se na esperança de uma moeda a saber a rebuçados, comprados ao fim do dia no comércio da senhora D. Beatriz. Com o toque das trindades chegava a hora do regresso a casa. O dia que se seguia era de recolhimento. Serenamente, dirigíamo-nos ao cemitério, em sinal de gratidão para com aqueles que á custa de muito suor e trabalho, nos tinham deixado como herança uns pedaços de terra trabalhada com ardor, única razão do nosso sustento. Lágrimas sentidas, de dor, pela perda daqueles que tínhamos amado em vida, e, que continuavam vivos nos nossos corações. Com simplicidade e humildade, apanágio de todos os Transmontanos, de que tanto me orgulho de ser, pois foi nessa pobre região, que Deus quis que um dia eu visse nascer o sol pela primeira vez. Hoje tudo mudou. Para pior, penso eu. Já não vejo os crisântemos criados com amor nas nossas pequenas hortas, que protegíamos da torreira do sol escaldante do verão, como se um tesouro se tratasse a enfeitar as sepulturas. Até os cravos semeados no canteiro mais mimoso caíram em desuso. Nostalgia?! Talvez!..Não dos tempos difíceis que outrora passámos, mesmo nos lares que possuíam algo de seu, comparados com a fartura e bonança em que hoje vivemos, mas das tradições que, sem dar mos por isso se foram perdendo no tempo…Irene Garcia Massa – (Ireninha de Urros)
Publicado em 11/12/2011

20 comentários:

  1. Também me lembro muito bem desses dias de pedir o santório, infelizmente não me deixavam participar, não entendia porquê..... Mas lá ia obedecendo á minha avó Maria José....
    Gostei muito....
    Beijinhos
    Misé

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  2. Olá minha querida prima Mizé!
    Origada pela atenção com que lês sempre o pouco que sei escrever.Era o "santório" e era bonito de ver não era?Quando é que me envias o numero do teu telefone para falar-mos da nossa terra e não só?Beijinhos para ti e um Feliz e Santo Natal.Ireninha

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  3. Olá Sro. Lelo de Moncorvo!
    Obrigada pela fotografia que colocou no meu texto,e,sendo tirada pelo DR.Santos Junior o melhor amigo da minha tia Irene a gratidão é redobrada...Com um bj de amizade e votos sinceros de Feliz Natal e Próspero Ano Novo.Irene

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  4. Olá SR. LELO de MONCORVO!
    Muito obrigada pela foto que fez o favor de colocar no meu texto.A gratidão é redobrada quando vi que foi tirada pelo DR. Santos Junior professor e mais tarde amigo,como toda a família,da minha falecida tia Irene.Com amizade desejo um Feliz Natal e um Prospero Ano Novo.IRENE

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  5. Mais um texto da nossa Ireninha: mais um belo texto sobre as velhas tradições , hoje quase perdidas. É muito importante que alguém as lembre! Ficamos todos a ganhar.

    Abraço
    Júlia

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  6. Olá minha querida Ireninha!
    Obrigada por mais um bonito texto a recordar hábitos que se vão perdendo, mas que nos lembram o que nos é muito especial, a nossa terra!
    Beijinhos para todos e, sobretudo, para o meu grande amigo, Luís.
    Boas Festas. TININHA

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  7. Minha querida amiga de infância!Nem sabes o bem que me faz ouvir os teus elogios.Sempre a recordar a nossa terra que tinha "sabores" que infelizmente se foram perdendo no tempo mas ficaram gravados nas nossas memórias...Beijinhos.Ireninha

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  8. Olá querida Julinha que um dia espero vir a conhecer!Valeu a pena a minha escrita que é tão simples como eu para ganhar uma amiga generosa .O sr. Lelo vai colocar no blogue uma fotografia do Luís para todos o conhecerem.Beijinhos da Irene

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  9. Os homens não escrevem ?Só senhoras mas de grande qualidade.Nunca tinha lido nada de Irene Massa e estou encantado pelo seu rigor e pela sua escrita.Onde posso comprar os seus livros?
    Leitor

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  10. Olá Tininha!Vai aos FARRAPOS DE URROS e lê o que te escrevi na ribeira do Arroio...Já disse à Julinha que o Sr. LElo ia colocar uma foto do Luís no blogue e olha que vai ser uma surpresa.Bjs de mim...

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  11. Olá SR. Leitor!Obrigada pelo seu elogio!Olhe que assim ainda vou ficar com vaidade!Os meus livros estão na minha memória...Muito obrigada.Irene

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  12. Minha querida Julinha que espero um dia vir a conhecer!Muito obrigada pelas suas palavras e por todo o carnho que tem demonstrado pelo meu neto.O sr. Lelo vai colocar uma foto do miúdo no blogue e,não lhe digo mais para não estragr a surpresa.Beijinhos da Irene.
    A Net por aqui está quase impossivel por isso peço desculpa se me repeti

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  13. Ireninha.
    Mais um texto, onde descreves com mestria os usos e costumes da nossa aldeia e de outras do nosso concelho.
    A tua escrita sobre a nossa aldeia, as pessoas que referes,adultos na época tão queridas por todos, fazem parte do meu, mundo de criança.
    Um bom Natal para ti e familia.
    Manuel Sengo

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  14. Minha querida Julinha que um dia espero conhecer!Muito obrigada pela atenção que tem tido ao ler e comentar o pouco que sei escrevere e ,sobretudo o carinho que tem demonstrado com o meu neto que já a trata por Avó Julinha ou Avó Julia tal é a admiração que sente pela SRA.Um beijo de amizade e gratidão da Irene.

    Já lhe tinha respondido mas,a Net tem estado impossível oor isso peço desculpa por me estar a repetir.

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  15. À desertificação das aldeias se deve,em grande parte,o desaparecimento das velhas tradições.É graças a textos como este que elas se vão mantendo na nossa memória e,quem sabe,serão retomadas pelas gerações futuras.
    Um bem haja à autora,a quem damos sinceros parabéns.

    Uma moncorvense

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  16. Olá, encantadora senhora!
    Já não é a primeira vez que tenho o prazer de ler os belos textos que escreve. Os anteriores foram dedicados aos meus alunos ( a um em especial)! Este tema, que agora li, está fantasticamente bem retratado, levando-nos a tempos já passados, tão bonitos, que não deveriam ser esquecidos!
    Um beijinho da Marília, uma sua admiradora!

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  17. Olá minha muito querida SRA. de MONCORVO!
    Que lhe hei-de eu dizer?Simplesmente muito obrigada!Um bj com amizade da IRENe

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  18. Maria de Fátima Sarmento/amiga do café Sírius2 de fevereiro de 2012 às 18:52

    Neste conto, a Autora, pareçe querer soltar dentre essas aventuras alguns "quadros" da sua infância, e "pintar-lhe" a encantadora figura de uma menina curiosa, observadora e deveras inteligente e perspicaz, que fez das Gentes e costumes da sua terra os seus alicerces para tua a sua vida. Essa menina, cuja adoração pelas coisas simples e autênticas da sua terra Natal,sopeou a imaginação e personalidade da menina agora mulher. A inexpugnável e inevitável "queda" à realidade, pelos caminhos da aspereza da vida, é "amaciada" e "amparada", pelos contos da Autora, que nos faz emergir em "viagens" com a capacidade de "ressuscitar" em cada um de nós a magia da inocência. Sem sonhos de ilusão e esperânça, sem o toque mágico da semente que "carregam" as crianças, a nossa "passagem" como pessoas adultas pouco sentido e beleza contem. Torna-se imperioso, não perder-mos o elemento capital que a Autora, através de vários contos, tão bem sabe descrever e conduzir-nos: a magia da inocência. Irene, bem haja por nos fazer transportar para um mundo melhor. Bem precisamos.

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  19. Maria de Fátima Sarmento/ amiga do café Sírius2 de fevereiro de 2012 às 19:48

    Neste conto, a Autora, pareçe querer soltar dentre essas aventuras alguns "quadros" da sua infância, e "pintar-lhe" a encantadora figura de uma menina curiosa, observadora e deveras inteligente e perspicaz, que fez das Gentes e costumes da sua terra os seus alicerces para toda a sua vida. Essa menina, cuja adoração pelas coisas simples e autênticas da sua terra Natal,sopeou a imaginação e personalidade da menina agora mulher. A inexpugnável e inevitável "queda" à realidade, pelos caminhos da aspereza da vida, é "amaciada" e "amparada", pelos contos da Autora, que nos faz emergir em "viagens" com a capacidade de "ressuscitar" em cada um de nós a magia da inocência. Sem sonhos de ilusão e esperânça, sem o toque mágico da semente que "carregam" as crianças, a nossa "passagem" como pessoas adultas pouco sentido e beleza contem. Torna-se imperioso, não perder-mos o elemento capital que a Autora, através de vários contos, tão bem sabe descrever e conduzir-nos: a magia da inocência. Irene, bem haja por nos fazer transportar para um mundo melhor. Bem precisamos

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  20. Maria de Fátima Sarmento/amiga do café sírius2 de fevereiro de 2012 às 20:41

    Olá Irene, no meu primeiro comentário por lapso, em vez de escrever: alicerces para toda a sua vida, escrevi alicerces para tua a sua vida.Peço desculpa. Escrevi o segundo comentário,já corrigido.Tanto para a Irene como para prováveis leitores, leiam só o segundo comentário.

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