domingo, 13 de novembro de 2016

Moncorvo - Amêndoa coberta, por Campos Monteiro

- Então, a trabalhar? - preguntou o Caramês, no intuito de fazer derivar a con­versa para outro rumo.
- Que remédio! Tenho de dar pronta p'ra a semana uma encomenda de nove arro­bas, p'ra a romaria da Senhora da Esperança. - Só de amêndoa coberta?
- Olarila! E houvesse êle tempo p'ra mais!
Achava-se sentada em sólida cadeira de faia, diante de uma grande talha de barro vidrado que quási obstruía tôda a largura da porta, e dentro da qual ardia um fogo de brasas. Sôbre o rebordo, estalado aqui e ali pelo calor, assentava uma larga bacia de cobre onde as mãos expeditas da vélha, mangas arregaçadas até ao eotovêlo, reme­xiam sem cessar os grãos oblongos, de um tom castanho claro, que a sedimentação do açúcar ia escondendo e forrando. De cinco em cinco minutos, tomava na mão direita uma colhér de pau, introduzia-a na tigela de louça branca que tinha cêrca, retirava-a cheia de um líquido viscoso e ambarino que era açúcar em ponto, regava com parcimónia as amêndoas, - e outra vez os seus dedos nodos os, que pareciam cober­tos de neve, se enterravam naquele aglome­rado de concreções alvacentas, - agitan­do-as, trazendo ao de cima as que jaziam na profundidade, fazendo mergulhar as que se encontravam à superfície, e pondo de lado aquelas em que já avultavam grandes granulações opalinas dando-lhes o aspecto de mórulas vistas através de uma lupa.




- Vai ser rija, então, a festa? - frisou o Caramês.
-De arromba, meu rapaz! Vai ser a festa maior que se tem feito no concelho.
E na tagarelice própria do sexo e da idade, pôs para ali tudo quanto lhe havia contado a doceira que viera fazer-lhe a en­comenda. Aquele ano, era juiz da festa o Tomazinho Montenegro, que corria com tôdas as despesas.
-Mas êle tem dinheiro p'ra isso?-in­terrogou o Caramês. - Quando eu parti p'ra a tropa, já êle tinha pôsto em pantana a legítima da mãi e andava à divina. Depois sube lá em Bragança da morte do pai, que não deixou cinco réis ...
A vélha meneou a cabeça, em ar de dúvida. Parece que não Iôra bem assim­explicou. Decerto, o Eusébio Montenegro, que tinha sido o maior negociante do dis­trito, vira-se atrapalhado no fim da vida, com os negócios a correrem-lhe de mal em pior. - Emfim, coisas que acontecem; e aconteceu a muitos depois da guerra.
- Disseram-me até - ajuntou o rapaz­que tinha chegado a chamar os credores.
- Foi certo. Mas, antes de isso, ao que dizem as más línguas, fêz por aí umas ven­das fantásticas, de alguns prédios que tinha, a certos amigos. A verdade é que os credores pouco levaram. Também, acho que as dívi­das eram tantas, que calhava dez réis de mel coado a cada um.
João Caramês endireitou o busto, indi­gnado.
- Mas isso não é direito, ti' Ana!
- Não é, não, mas que queres, se os tempos vão assim? E vamos lá, que, apesar de tõdas essas traficâncias, o Tomazinho, acostumado a tudo do bom e do melhor, não ficava com fortuna que chegasse p'ra o trem de vida que levava. Só as amásias e o jôgo lhe custavam uma continha calada. Mas morreu-se também a tia ...
- Que me diz? A Dona Oristina de Fel­gueiras morreu-se?
 - Ó rapaz! - volveu a cobrideira, com uma indignação cómica. - Tu parece que nem és de êste mundo!
In "Ares da minha Serra" - Campos Monteiro
Fotos do Arquivo F.M.

2 comentários:

  1. Quem , em Moncorvo, ainda não terá lido "Ares da minha Serra" ? Pois é boa altura para o fazer nestas férias de caloraça , em que só apetece estar à fresca e ler um livro que nos agrade. É uma sugestão.

    Júlia Ribeiro

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    1. Quando eu ofereci, num encontro sobre judeus, à embaixadora de Israel, Colete Avital, um saquinho com amêndoas cobertas de Moncorvo ela, ficou espantada e disse:"Isto também se faz em Israel!"

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