quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos

A generosidade é para mim uma das características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam, eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos, no trato comunitário.
Cortiços -Foto de Luís Coelho
E isto acontece também quando lidamos com a história. Há Trasmontanos que foram grandes e são considerados em todo o mundo, mas completamente desprezados por nós, ignorados pelos que entre nós escrevem a nossa história e pelos que nos governam e têm obrigação de defender e valorizar o nosso património. Sim, este património, o património humano é bem mais importante que o património arqueológico, arquitectónico e etnográfico.
Exemplar, a este respeito, é o que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:
Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já tomei lugar, por mão alheia.
José Cortiços. Nascido em Antuérpia em 1656 e falecido em Londres em 1742, foi outro dos membros da mesma família fugida de Trás-os-Montes. Virado para o abastecimento das tropas, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, eles colocou-se do lado do Arquiduque Carlos, futuro imperador da Alemanha. Depois da guerra, a viver já em Londres,, José Cortiços queixar-se-ia de que a Inglaterra lhe ficou devendo 25 000 libras (de géneros fornecidos aos militares estacionados em Gibraltar) e Portugal 70 000, de provimentos ao exército do Marquês das Minas. Também o seu nome não consta das listas publicadas de notáveis Trasmontanos e nenhuma lembrança tem na terra de seus ascendentes Trasmontanos.
António Júlio Andrade

Nota do Editor:
Reedição dos posts publicados no blog :
http://marranosemtrasosmontes.blogspot.pt/

Sem comentários:

Enviar um comentário