sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TORRE DE MONCORVO - MEMÓRIAS DO REGRESSO A CASA (2)

Passei a tarde de hoje a arrumar papéis ( o hoje é tão circunstancial que podia ser ontem ou anteontem). Sou como um camponês (acho mesmo que sou um camponês falhado), avaro em tudo o que são recordações.
E que inutilidades nós guardamos!
De ano a ano é salutar a selecção no excesso, na esperança, desesperada de tão inútil, que aqueles papéis um dia nos vão a ser úteis, quando sabemos, no fundo de nós, que nem sequer vão ser lidos.
Depois, temos poemas de que já não nos lembramos ( e todos nós enquanto jovens sonhámos ser poetas), diários tão datados que nos fazem sorrir de conceitos e de tantos julgamentos errados – quer para o bem quer para o mal – para os quais hoje dificilmente encontramos justificação.. E só pelo que escrevemos temos a noção de como o tempo passou. E lembramo-nos das camisas que deixámos de usar, dos lugares que já não frequentamos, dos amigos que partiram ou de que nos despedimos, ainda hoje sem saber porquê.
O Tempo é a nossa maior ilusão.
Recolho livros, papéis e memórias neste regresso a casa. Livros que há muito não folheava e que hoje, ao folhear, falam de mim, do que então fui, nos sublinhados e nas notas, livros medidores do meu conhecimento. Trago-os comigo para casa. Alguém um dia os há-de ler, depois de uma releitura minha, nostálgica da juventude em que foram lidos pela primeira vez, mais com paixão do que reflexão. Ficam bem em estantes improvisadas. São eles a fotografia da minha juventude.
E os muitos cadernos de explosões verbais, de sentimentos de circunstância mas que eu achava profundos, da arrogância e soberba de me julgar incompreendido, como se o mundo não me merecesse, todo este trânsito de memória me reduz a um ser frágil e vulnerabilizado neste regresso a casa, como filho pródigo sem acolhimento mas com as cautelas de pescador de barco ainda ancorado.
Recolho livros para meter na mala do carro. Alguns pesam pelos anos, outros pela gratidão que lhes devo. Sem eles não seria nada. Aliás, não sei se sou alguma coisa. Lembra-me o diálogo de Sócrates, o grego, quando diz: “Só sei que nada sei”. E o outro, o Pirro de Eleias, lhe responde: “Eu nem sequer sei isso”.
Na vila, onde até as próprias ruas adormecem por falta de movimento, algum novo e rasca riquismo risca a paisagem, com o meteoro ou palavra inflamada pelo euro.
Conhecemo-los no discorrer do tempo.
Ninguém lhes proporia um futuro feito de truques, malvadezas e deslealdades. A outros, ninguém, quando a juventude é tão egoísta quanto generosa, seria capaz de assinar tamanha transformação, trocado um saco de ilusões e utopias por um suculento prato de lentilhas.
E quem me diz que não tiveram razão quando se traíram a eles mesmo antes de traírem os outros?
Regresso a casa. De quando em quando regresso a casa. Recolho livros, selecciono os papéis e revejo as palavras como a imagem de uma adolescência angustiada, como se o futuro não estivesse à beira.
Mas o Tempo é como uma miragem. Incita-nos à ilusão e provoca-nos à ruptura, estabelecidos no vazio que julgamos o princípio da plenitude.
Recolho os livros, arrumo os papéis velhos numa velha mala. Não sei quando será aberta e se os papéis poderão respirar a luz.
Sei que me sinto mais seguro com eles ao lado.

Pedro Castelhano

(Reedição de posts desde o inicio do blogue)

3 comentários:

  1. leio o blogue sem ordem ,paro num texto ,numa fotogafria,num documento.li a lista dos mortos na guerra do Ultramar.Li este regresso a casa.Não sei porquê lembrei-me ;não há literatura transmontana,há um "ser" transmontano.Uma alma transmontana.Sorri .ALMA DO FERRO...ALMA DO FERRO.Só agora compreendi o nome .Obrigado,Pedro Castelhano
    m.c.

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  2. Amigo: As palavras que gostaria de escrever após a leitura do seu texto, não as encontro. Devem existir , esperam só que alguém as descubra.
    Só sei dizer-lhe que me comovi e ... desculpe-me se lhe confessar que em um ou dois parágrafos seus eu me achei, ainda que não tenha achado a forma de me exprimir.

    Abração
    Júlia

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  3. Que belo texto, é poesia pura...

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