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SILHADES.Foto A.F.F.M. |
Quando cheguei a Silhades, a primeira sensação foi de isolamento. A descida abrupta da estrada transportou-me para os meus cantos sinuosos de silêncio. A tranquilidade experimentada na Nossa Senhora da Assunção, lugar de cota bem mais elevada (mas também ele grandioso), a luz amarelenta de fim de tarde, os montes altos a envolverem o rio, tudo isso me obrigou a entrar dentro de mim, a olhar ao meu redor e a cair na fonte de chafurco que sou e onde gosto de me banhar. Brotam em mim silêncios de pequenez perante a grandiosidade dos montes, perante a sua vetustez, perante as águas selvagens que o rio transporta. Sinto-
-me especial, não por aquilo que sou, ou que deixo de ser, mas por aquilo que sou capaz de sentir em locais ermos, no meio dos montes desabridos, perante a pobreza da terra. Eu sou daqui! Sou feito destas giestas que afago com ternura quase libidinosa, sou feito destas fragas sedosas, recantos de mulher, onde me deito e descanso, sou feito desta água barrenta que corre em vales escavados por sentimentos e emoções tumultuosas, sou feito de caminhos poeirentos e dos muros que os delimitam. Eu sou feito desta terra xistosa que se parte em placas, tal como eu quebro perante a grandiosidade da arte e das pessoas que a concebem, que a estudam e que reconheço como almas gémeas, desses amantes do belo, do provocante, que me obrigam a parar, a questionar-me e, tantas vezes, a render-me às evidências mais comezinhas que me enformam. Sou desse sentir terrificamente doce, deste sentir de homens e mulheres que olham para dentro deles à procura da grandeza, da elevação, da assunção da alma humana aos céus!

Acordo.
Esse lado místico da alma humana recorda-me que brevemente ficará submerso, deixará de existir, e nunca mais o poderei sentir como o hoje o senti. Restará em mim esta memória temporária. Temporária porque também eu, em breve, ficarei submerso pelas águas do Letes, o rio do esquecimento, porque também eu, em breve, voltarei a ser esta terra que me pariu e voltarei à inorganidade merecida, eterna, voltarei a ser átomos e moléculas deste céu azul que me cobre, desta luz que se adensa em mim e que paradoxalmente me entenebrece.
Finalmente... voltarei a mim.

Ver:http://antoniosague.blogspot.pt/
http://lelodemoncorvo.blogspot.pt/2012/03/tras-os-montes-visto-por-sa-gue.html
Publicado a 21/01/13
Lindíssimo texto. Emocionou-me muito. Me lembra que estive em sítios onde vivi minha infância e que não existem mais e que também ao refletir cheguei a essa mesma conclusão.....Um dia também voltarei a mim.
ResponderEliminarSá Gué é um escritor realmente fantástico!
Wanda no Brasil e eu perdido por Lisboa,nascido no Bailundo, filho de transmontanos que fugiram à fome e regressaram com os bolsos vazios.Li o texto e recordo a minha infância.O Bailundo desapareceu, as raízes arrancadas vagueio pelo cais das colunas.Entre charros e shots afogo o passado.Como posso voltar a mim?Inventar uma terra?porra!Onde estão os meus amigos ,pretos e brancos que jogavamos a bola no terreiro do café?E a minha primeira namorada que aos dez anos desapareceu...Dizem que foram todos para o Uruguai.E eu?Tinha oito anos quando aterrei na portela.No cais das colunas navego na net.Encontrei mais coisas de si,um blog e outros textos dispersos. gostava de esvasiar uma garrafa de tinto consigo.Sozinho emborco shots.Viva o Gaspar!
ResponderEliminarA.B.C.(africano,branco,colonial)
ResponderEliminarAqui fica mesmo bem.Para si senhor Sá Gué e para todos :
É ESSENCIAL QUE SE MANTENHA ESTE VÍDEO A CIRCULAR! MESMO QUE JÁ TENHA RECEBIDO
REENVIE !
Muita atenção a este vídeo !!!!! peça de telejornal da SIC
Chamo a vossa atenção para o conteúdo deste vídeo, embora seja uma
peça de telejornal da SIC, visto por muitos nesse dia.
Ainda assim, é bom que se promova a divulgação deste vídeo, até à exaustão.
Façam um minúsculo favor, a vós próprios e ao país, enviando para
os vossos contactos, com igual empenho, nesta divulgação.
Esqueçam a filiação ou simpatias partidárias, só por esta vez...
http://www.youtube.com/watch_popup?v=tJj0H5C-uhc
Olá, Sá Gué:
ResponderEliminarGosto de o ver por aqui e gosto principalmente de o ler.
A sua escrita abana o leitor, mesmo o mais descuidado.
Um grande abraço e BOM ANO (ainda que as perspectivas sejam piores do que havíamos imaginado).
Júlia