domingo, 30 de março de 2014

O Lobisomem ,por Júlia Guarda Ribeiro

A Teresa acabou de lavar a louça da ceia e soltou um profundo suspiro:
- Eh, mulher, até parece que estás  p’ra morrer.
- Se queres que te diga, estou mais morta que viva. Todo o dia derreada a mondar… Que é que tu pensas? Tu nunca andaste à monda, pois não?
- Andei empoleirado a podar oliveiras. Eu também estou estafado, mas ainda vou beber um copo com os amigos.
- Estou  p’ra ver como chegas a casa – e nas falas da Teresa já se notava um tom azedo.
- Alguma vez me viste bêbado? Olha que um copo de vinho a mim dá-me para a noite  inteira. Fico é com a rapaziada a jogar a bisca .
- Ora, não bebes mas jogas…
- A feijões.  A feijões. Olha, Teresa, de contente te dói um dente. Não é p’ra me gabar, mas melhor que eu não arranjavas.
- Ora, ora, gaba-te cesto…
E o Zé foi saindo a rir de mansinho.
 A Teresa gritou-lhe ainda: - Zé, manda os garotos  p’ra casa. São horas de ir à deita.
- Amanhã é Domingo, mulher. Deixa a canalhada dar mais uns pinotes.
A Teresa sentou-se à lareira, que as noites de Março ainda são frias lá para trás das serras. A luz da candeia era fraca, mas dava para pregar uns botões nas roupas dos miúdos.
- Diabos os levem. De certeza que os arrancam para jogarem ao botão. Ainda acabam por levar uma sova. E falando consigo mesma enquanto pregava os botões,  acabou por fechar os olhos, passou pelas brasas  e, quando acordou, ouviu as 11 horas no relógio da torre.
- Ora esta, adormeci. Dormi quase duas horas. E os catraios ainda lá por fora. Levantou-se e abriu o postigo. – Manel! João! Já  p’ra casa, seus vagueiros. Quereis fazer da noite dia?  ( Os ganapos estavam ali no terreiro a jogar o bugalho ).


E a verdade é que parecia mesmo dia. A lua cheia, grande e redonda como nunca vira, dava luz como se fosse um sol de prata. Estava bonita. Até ela, Teresa, apesar de tão cansada, com o corpo a pedir-lhe cama, abriu a porta e foi buscar os filhos, mais para sentir na cara aquela luz de seda do que para dar um estalo aos garotos.
- Já vamos, mãe. Já vamos. - E escapuliram-se para casa como dois coelhitos para a toca. A Teresa caminhou devagar e, antes de entrar, voltou o rosto para a lua, murmurando: “Tão linda! És uma doida, lua. Pões a cabeça dos namorados à roda. É isso, ficam aluados”.
- Com quem está a falar, mãe? - perguntou o mais velhito, o João.
- Cá comigo. Agora, toca a dormir.
- Tenho sede - choramingou o Manuel.
A mãe pegou no púcaro e foi ao cântaro. – Querem lá ver que não tenho água. Não posso ficar a noite inteira sem água em casa. E o vosso pai que não vem. Maldita bisca.
- Bebe este golinho que está no fundo do cântaro. Vou já à fonte. Vós ficais aí quietinhos, que eu não demoro.
- Mas é longe, mãe. E eu ainda tenho muita sede.
- Reza três ave-marias e no fim eu já estou de volta.
A Teresa pegou no xaile, pô-lo pelas costas e desandou com a ligeireza que as pernas cansadas lhe permitiam.
- Santo Deus! Que porcaria de bica! Agora só corre um fiinho. O garoto a morrer de sede e eu aqui a secar à espera que o cântaro encha. Ai, isso é que não espero. Levo só um fundinho e volto cá amanhã, de manhã, que já corre com mais força.
Enquanto ia falando para consigo, ouviu o relógio na torre bater a meia-noite.  Não havia dúvida. Contou doze badaladas. Olhou para a lua que lá no alto parecia rir-se dela e sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, da nuca às unhas dos pés. Voltou-se devagar e então viu um enorme cão negro que se lhe atirou à garganta. Com o embate, caiu para trás e, quando pensava já que aquele cão-lobo a ia estraçalhar, ele farejou-a uma vez, duas vezes e foi-se embora. Soergueu-se penosamente. As pernas a tremer não lhe aguentavam o corpo. Sentou-se para ganhar forças e, numa lassidão extrema, conseguiu articular: - Maldito cão. Um animal destes não devia andar por aí à solta.
Então, devagar, muito devagar, traçou o xaile rasgado e, arrastando os pés e o cântaro como quem caminha num pesadelo, lá chegou a casa. Quebrada de todo, nem conseguiu meter o cântaro na cantareira. Mas fez da fraqueza força e foi ver os filhos. Os miúdos dormiam que nem duas pedras.
A porta abriu-se e o Zé entrou. – Ainda estás a pé? Já passa da uma da manhã.
A Teresa sentou-se na pedra da lareira e, a custo, porque a boca estava ressequida e a língua parecia não lhe obedecer, disse:
- Nem queiras saber o que me aconteceu. E contou-lhe da água, da fonte e do cão.
- Assustei-me tanto. Ainda tenho as pernas a tremer.
- Não sejas tonta. Ora, assustares-te com um cão.
- Era grande que nem um lobo, Zé. Ao luar os olhos chispavam como brasas… Tive tanto medo daqueles dentes enormes e afiados a quererem abocanhar-me o pescoço…
- Vá, tem calma. Foi só o susto. Afinal não te mordeu.
- Deus não o permitiu.
- Anda cá. Promete-me que nunca mais vais à fonte a altas horas da noite.
- Nunca mais na vida. Nem que me dessem um pinto em ouro.
- Agora vamos mas é  p’ra cama, que estamos os dois a precisar de um bom sono.
A Teresa chegou-se ao marido que sorria, tentando aliviar-lhe o medo que teimava em pernoitar-lhe nos olhos.
Mas parou, estarrecida, a olhar para aquele sorriso. O grito que soltou não teve nada de humano. Foi mais um uivo lancinante, que fez os cães da vizinhança uivarem, tremendo, de rabo entre as pernas. Caiu no chão, não dando mais acordo de si .
O Zé ajoelhou-se junto do corpo da mulher, os filhos levantaram-se e, enquanto o mais pequeno, ensonado, dizia: - Quero água -  o mais velhinho, espantado, perguntou:
- Pai, porque tem vossemecê franjas do xaile da mãe nos dentes?

 Leiria,  Maio de 2007

Júlia Guarda Ribeiro

16 comentários:

  1. Agora no novo acordo ortográfico vagueiro escreve-se com B.Afinal a Teresa era a mulher que ele andava a comer.Até dia 28 na corredoura.
    Noitibó

    ResponderEliminar
  2. Este conto vai direitinho para a Vera Pessoa que gosta muito deste tipo de estorinhas.

    Um abraço amigo para a Vera e outro para o Noitibó, acrescentando que estive, vai não vai, para escrever "bagueiro" .

    Júlia

    ResponderEliminar
  3. Não é só a Dra Vera que gosta destes contos. Eu também.

    Leitora atenta

    ResponderEliminar
  4. Perguntas:
    A monda era na Vilariça?
    A taberna era a do Júlio Ferrador?
    A canalha dava pinotes no adro da capela do S.Sebastião?
    A fonte era a Fonte Carvalho?
    O cântaro era do Felgar?
    O Zé era membro da troyca?
    O xaile foi tecido em Urros?
    O lobisomem aparece no novo livro?
    O conto passa-se em março mas foi contado em Agosto? Ao luar?

    Leitor

    ResponderEliminar
  5. Deveras que a dra Vera é a Pessoa que fez uma tese mestrado sobre mestra avó Júlia Biló?
    Agora falando sério:está uma cópia na nossa Biblioteca para consulta .
    Obrigatório ler.Gostei muito do conto.Borges é bisneto de Moncorvo.O fantástico é a nossa fuga das fragas.Voltamos sempre.Como ele que tentou ir às origens antes de morrer.Para se encontrar.Fazer a sua auto extrema-unção.
    Adérito L.

    ResponderEliminar
  6. estive, vai não vai, para escrever "bagueiro"
    BÔ!?

    ResponderEliminar
  7. Tantas perguntas!
    Vou tentar responder:
    . ouvi a história do "Lobisomem" tinha 6 ou 7 anos. (tenho 74 , faça-lhe as contas);
    . a monda talvez fosse na Vilariça;
    . a taberna poderia ser a do Júlio Ferrador, pois ainda não havia taberna nenhuma na Corredoura;
    . a canalhada dava pinotes pelo terreiro, pelo adro da capela de S.Sebastião, por onde calhava. Ainda não havia automóveis nem motas e ninguém roubava raparigos. Cada casal até tinha mais do que aqueles que podia alimentar, não queriam os dos outros;
    . a fonte seria a da Fonte Carvalho ou a de Santiago, porque a torneira junto da esquina do forno só foi colocada mais tarde;
    . o cântaro só podia ser do Felgar;
    . o Zé não era membro da troyca, mas o lobisomem era de certeza;
    . o xaile deve ter sido tecido em Urros e comprado em Moncorvo numa feira dos 23;
    . o lobisomem não tem lugar no novo livro;
    . claro que foi contado ao luar de Agosto, mas também não apareceu nesse velho livrinho, porque me esqueci dele e de outros.

    . Mas, felizmente, há na Corredoura algumas memórias privilegiadas que me têm contado ... Por isso lhes estou muito grata.

    Até dia 28 de Setº na Querdoira. Abraços .

    Júlia Biló

    PS - Respondi a tudo ?

    ResponderEliminar
  8. Enquanto estive ocupada a responder às perguntas do Leitor, apareceram mais dois comentários.
    É verdade, Adérito L. , a Dra Vera Pessoa é a pessoa que escreveu a sua Tese de Mestrado sobre os "Contos ao Luar de Agosto". O mérito é só dela, que foi capaz de ver coisas extraordinárias onde apenas se pretendia não deixar cair no esquecimento os contos das nossas avós e bisavós e a sua maneira de contar e de estar na vida - vida de muita luta, de muita miséria e de crença num mundo melhor ... após a morte.

    Quanto ao outro comentário: BÔ !? Verdade, verdadinha, estive mesmo para escrever na ortografia da Querdoira : "SEUS BAGUEIROS!"

    Abração

    Júlia

    ResponderEliminar
  9. Ouvi este conto à minha avó centos de vezes. Mas não quer acreditar que nunca o contei nem a filhos nem ao neto. Se calhar pensava que os miúdos iam ter medo. Agora vejo que a tolice foi minha.
    Então a Julinha tem outro livro? Vai à Corredoura no dia 28 . Gostava tanto de ir lá.

    Um beijinho de Maria Augusta.

    ResponderEliminar
  10. Maria Fátima Baptista Campeão escreveu: Catrino!!! ARREPIA...

    ResponderEliminar
  11. Até dia 28 de Setº na Querdoira. Abraços .
    Pergunto: o que a leva à sua Corredoura no dia 28?Há alguma coisa de especial que me escapa.Não vi nada nos blogs, nem neste nem do noticias de moncorvo.Óra diga lá por que vem cá.Não quero faltar, se for uma festa,encontro de amigos (indios,)ou outra coisa que valha a pena.Diga,diga.
    Um ex-indio do carrascal(não diga a ninguém que moro na vila.

    ResponderEliminar
  12. Caro Anónimo:

    No dia 28 de Setº - uma 6ª feira - pelas 15 horas, na Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado (em S. Paulo) é apresentado um livreco meu. O amigo Rogério fará o favor de apresentar os contos que terão um gosto especial depois de terem passado pelo "Crivo Rogeriano".
    Entretanto publicar-se-á aqui um convite que também será enviado por mail aos amigos de quem conhecemos os endereços.
    E eu conto estar na Querdoira nesse dia para rever amigos, para dar uns abraços, para dizer : "Estás na mesma, não mudaste nada", o que não será totalmente verdade ... Mas tudo isso será um enorme prazer.
    Apareça e diga-me quem é, OK?

    Um abraço
    Júlia

    ResponderEliminar
  13. Julinha: Gosto tanto de ler os seus contos !

    Um beijinho
    Maria do Céu

    ResponderEliminar
  14. Bom dia querida Julinha:
    Era em noites enluaradas de Agosto ou abafadas de Julho sentada no balcão da "Ti Hermínia"que ouvia essas lendas nas quais acreditava e me deixavam amarelinha de medo...Valia-me a minha querida e saudosa Mãe que se deitava a meu lado até eu adormecer.
    Gostei de ler e recordar esses tempos.Muito obrigada.
    Com a amizade de sempre da
    Ireninha

    ResponderEliminar
  15. Continue "menina - avó" Júlia a adubar bem essa pujante imaginação para enlevo de netos, de filhos nossos e dos outros, ajudando nas viagens colectivas sem ter que pagar bilhete nas deslocações ao terrunho de casco e viveres antigos...Obrigado .A Salgado

    ResponderEliminar