terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"A Mulher que Venceu Don Juan", de Teresa Martins Marques

António Monteiro.Foto de arquivo.
– Mas, então, se não é da Pampilhosa, de onde é ?
– De Vila Real.
– O quê? É transmontana? – Luís fez um sorriso de orelha a orelha.
– Sou, mas porquê? – pergunta ela, não percebendo a razão de tamanho júbilo.
– Porque eu também sou transmontano. De Torre de Moncorvo.
– Não me diga! Tenho lá um primo de meus pais.
– Quem?
– O António Monteiro.
– O Monteiro? O engenheiro agrónomo, presidente da Cegtad?
– Sim, é engenheiro, o resto é que já não sei…
– Ah, mas sei eu. É  um amigo de peito.
– E o que é isso da Cegtad?
– Confraria de Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro.
– Nunca ouvi falar dela aos meus pais.
– Não é do tempo dos seus pais. Foi fundada há dezassete anos, em 1995.
− E tenho lá também um parente numa aldeia com um nome muito engraçado − Peredo dos Castelhanos. É um jornalista muito conhecido que vive em Lisboa.
−  Não me diga que é o Rogério Rodrigues!
− Esse mesmo.
− Um grande senhor do jornalismo, o Rogério.
− E também poeta e dos melhores.− Mas isto são muitas surpresas para um só dia! Havemos de ir jantar com o Rogério ao Solar dos Presuntos.
IN:
A Mulher que Venceu Don Juan
Autora: Teresa Martins Marques



Sinopse: A Mulher que Venceu Don Juan inclui no entrecho ficcional três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, procura nas mulheres a vingança de um passado tenebroso; Manaças, serial lover, recalca uma pulsão proibida; Joana colecciona os namorados das amigas.

Os três serão vencidos: o primeiro por uma mulher que subestimou; o segundo pelo verdadeiro objecto do desejo recalcado; a terceira por uma presidiária, cujo companheiro seduziu. A protagonista, Sara Dornelas, escapa à morte e encontra o amor, realizando, pelo estudo, um sonho antigo. Dois seres de eleição, a psicóloga Lúcia e Paulo, comissário da polícia, assumem um papel decisivo no desmantelamento de uma rede tentacular e no castigo dos criminosos, unidos por ignorados laços de sangue.
Travejada por diálogos vivos, ora dramáticos ora humorísticos, a acção decorre em múltiplos lugares, potenciando o efeito de real pela intrusão de figuras verídicas que interagem com as personagens ficcionais. Entretanto, Manuela, jovem doutoranda, prima de Doña Juana, prepara em Copenhaga, e defende com sucesso, uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, duplicando, no plano teórico, os meandros do desejo, no plano da acção, e gerando uma atmosfera de suspense até ao último fio da intriga romanesca.

Teresa Martins Marques é doutorada em Literatura e Cultura Portuguesas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Actualmente, investigadora no CLEPUL e, entre 1992-1995, no Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa.
Dirigiu a equipa de organização do Espólio Literário de David Mourão-Ferreira (Fundação Calouste Gulbenkian / Ministério da Educação, entre 1997-2004). Dirigiu e prefaciou a Edição das Obras Completas (13 volumes) de José Rodrigues Miguéis (Círculo de Leitores, 1994-1996).
Publicações de ensaio: colaboração em três dezenas de volumes colectivos.
Livros: Si On Parle du Silence de la Mer (1985); O Eu em Régio: A Dicotomia de Logos e Eros (Prémio de Ensaio José Régio-1989), 1.ª ed. 1993; 2.ª ed. 1994; O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis – 1.ª ed. 1994; 3.ª ed. 1997; Leituras Poliédricas(estudos sobre Cesário Verde, Gomes Leal, Raul Brandão, J. Régio, José R. Miguéis, V. Nemésio, Eugénio Lisboa et alii) – 2002; Clave de Sol – Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira (2011); Ficção: Carioca de Café (conto) – 2009; A Mulher que Venceu Don Juan – primeiro romance-folhetim português publicado no Facebook (2012- 2013), sendo a presente uma nova versão, revista e aumentada.

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«Chegado ao fim este excelente romance, não temos dúvidas em dizer qual foi A Mulher que Venceu Don Juan: Teresa Martins Marques.
Não falhou uma única semana e foi tendo um diálogo com os cada vez mais numerosos e entusiasmados leitores, ouvindo-os, ‘provocando-os’, estimulando-os e deixando-se envolver de modo muito próximo; e venceu o preconceito do FB mostrando como este meio de divulgação pode ser excelentemente aproveitado.
Encheu o folhetim com excesso de realidade, não por ter lá colocado o nome de muitos leitores, entre os quais me incluo, não; o excesso de realidade consiste em ter enfrentado problemas que são cancros de hoje, como a violência, quer doméstica [com a divulgação da APAV e do seu trabalho] quer de uma sociedade que muito assenta no sofrimento infligido aos mais fracos sob diversas formas; o excesso de realidade mostrando como o crime mais hediondo não escolhe classes, antes se acoita entre psicopatas que podem ocupar o expoente da nossa sociedade; o excesso de realidade de que existe uma sociedade solidária, que não desiste, que não cede às maiores dificuldades, que persiste muitas vezes para além do suportável e encarnando em pessoas que só na aparência são fracas; o excesso de realidade de que o amor é tão vário que pode exigir a separação quando do convívio só resulta dor; o excesso de realidade de que o donjuanismo é afinal a camuflagem do seu contrário, que se reprime.
Tudo isto foi servido numa linguagem simples e rigorosa, com grande respeito pelos leitores, na imensa cultura em que assenta, num ritmo que prendeu ao longo de muitas semanas, sem medo de apresentar reflexões profundas e originais sobre diversos temas sem nunca ser cansativa, em particular sobre Kierkegaard, e com muito humor à mistura. Não posso deixar de dizer algo que me é muito querido: é um folhetim que trata o mirandês com o respeito devido a uma língua milenar e ao povo que a fala, que o divulga e dá a conhecer, o que é a primeira vez que acontece numa obra literária.»

Amadeu Ferreira
Comentário no Facebook
VER: http://www.youtube.com/watch?v=_CC_n567J6c&feature=youtu.be


Reedição de posts desde o início do blogue

7 comentários:

  1. Muitos Parabéns Amadeu Ferreira, pela excelente apresentação do livro e da autora! Um grande abraço, embora não o conheça pessoalmente, ana de sousa

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  2. Fantástico Amadeu Ferreira, fantástico Professora Teresa !
    Mil parabéns para ambos.

    Dois tchochos para cada um
    Júlia

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  3. Onde posso comprar o livro? Não está à venda no senhor Cardanha.

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  4. Odete Coelho :Uma excelente prenda de Natal:)

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  5. Uma viagem: pessoas, lugares, vidas e muito, muito calor humano...são as pessoas o mais importante...mas também as há que nos infernam os dias...nem sempre os bons vencem mas essa mulher venceu D.Juan com muito sacrificio mas com muita classe...nada melhor que ler para saber como foi.

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  6. E o mais importante são as pessoas...uma viagem ao mundo real, onde se convive, se viaja, nos instruimos, se prova um bom vinho, se aprende a fazer um bom prato...e sempre as pessoas, nós, todos nós...uns bons, outros retorcidos mas gente e quando os bons conseguem vencer os muito maus dá gosto acompanhar as vencidas e essa mulher derrotou D.Juan e com muita classe e saber...claro com muito sofrimento...mas VENCEU.

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  7. A Mulher que Venceu Don Juan, de Teresa Martins Marques – por Inês Figueiras
    A Mulher que Venceu Don Juan (Dezembro de 2013, Âncora Editora) é o primeiro romance-folhetim português publicado no Facebook. Mas a inovação e a originalidade do novo livro de Teresa Martins Marques, criado a partir de uma versão revista e aumentada dos textos que publicou na rede social, vão muito além do modo como esta obra nasceu. Inês Figueiras, uma nova argonauta que em breve apresentaremos, explica-nos…

    Num país em que se estima que uma em cada três mulheres tenha sido ou seja vítima de violência doméstica, A Mulher que Venceu Don Juan revela-se um livro extremamente actual, com personagens tão reais que poderiam ser nossas vizinhas.

    Esta obra apresenta-nos vidas escondidas (ou que muitos procuram esconder), centrando-se na relação entre a violência, as relações e o donjuanismo, que se assumem de diferentes formas através de três personagens: o reputado cirurgião plástico Amaro Fróis, que se vinga do passado nas mulheres, Manaças, que recalca uma pulsão proibida, e, porque o donjuanismo e a violência também se expressam no feminino, Joana, a coleccionadora de namorados das amigas. A personagem central, Sara Dornelas, descobre da pior forma que: «A violência é um polvo tentacular. Não raro, vem embrulhada em celofane com o falso rótulo de amor.» (p. 299) Mas revela-se um foco de esperança para as mulheres e homens que, tal como ela, se vêem presos num ciclo de violência.

    O realismo da obra estende-se ao ponto de incluir pessoas verdadeiras, como Eduardo Lourenço ou Amadeu Ferreira, que interagem com as personagens do enredo. Os locais retratados existem, assim como alguns dos contextos.

    No estilo da autora, sobressai o recurso a vários excertos de outras obras, que sustentam uma interessante visão sobre os perfis psicológicos dos sedutores inveterados, com destaque para a personagem Manuela, que defende uma tese sobre o Diário do Sedutor, de Kierkegaard. O romance ganha assim, por vezes, um carácter teórico, interessante, mas que nos pode afastar momentaneamente da emoção da trama.

    Um excerto: «Há um tempo para rir e um tempo para chorar. O meu tempo de chorar tem sido muito longo. Dias de sol transformados em chuva, miudinha, cinzenta, da que molha os tolos, como eu tenho sido, como eu sou. Molha a alma, transforma a vida em lama. E é fácil transformar a alma em lama. Basta trocar-lhe duas letras. Vou estender a lama ao sol a secar, para ver se as lágrimas evaporam e talvez a alma comece a vir à superfície, saída do fundo de lodo, ainda presa aos limos. Deixá-la branquinha, a rebrilhar, será uma questão de tempo.» (p. 21)

    A autora: Teresa Martins Marques é doutorada em Literatura e Cultura Portuguesas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Actualmente, investigadora no CLEPUL e, entre 1992-1995, no Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa.

    Dirigiu a equipa de organização do espólio literário de David Mourão-Ferreira (Fundação Calouste Gulbenkian / Ministério da Educação, entre 1997-2004). Dirigiu e prefaciou a Edição das Obras Completas (13 volumes) de José Rodrigues Miguéis (1994-1996).

    Entre as suas obras, destacam-se: Si On Parle du Silence de la Mer, O Eu em Régio: A Dicotomia de Logos e Eros (Prémio de Ensaio José Régio), O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis, Leituras Poliédricas e Clave de Sol – Chave de Sombra: Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira. Colaborou em três dezenas de volumes colectivos de ensaio.

    http://aviagemdosargonautas.net/2014/01/19/a-mulher-que-venceu-don-juan-de-teresa-martins-marques-por-ines-figueiras/

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